O FANTASMA DO MEDO MASCULINO QUE NÃO DEIXA ESPOSAS/NAMORADAS SE FORMAREM
O medo que aprisiona: Quando a insegurança do homem tranca a sala de aula para a mulher
Por Paulino Intepo
Há um fantasma que ronda os lares moçambicanos e, infelizmente, não assombra apenas os corredores escuros, mas também os bancos das escolas e centros de formação profissional. É o fantasma do medo masculino. Um receio paralisante, disfarçado de ciúme ou "proteção", que leva muitos homens casados ou comprometidos a impedirem que as suas parceiras prossigam com os estudos.
![]() |
| O fantasma do medo masculino |
Em pleno século XXI, ainda é frequente ouvirmos histórias de raparigas e mulheres jovens que têm os seus sonhos interrompidos não por falta de capacidade ou de recursos, mas por imposição do companheiro. "Ela não precisa de estudar mais, já tem marido", "Vai para a escola só para arranjar quem paga mais", ou "Lá na universidade só tem homens mal intencionados". Estas frases, infelizmente comuns no nosso quotidiano, carregam um peso enorme e revelam uma ferida social profunda: a insegurança masculina.
O argumento é quase sempre o mesmo: o medo de que, no ambiente académico, a mulher se relacione com colegas ou professores. Por trás dessa justificativa, esconde-se uma visão distorcida do amor e do papel da mulher na sociedade. O homem que age assim, na verdade, não teme a "malícia" dos outros; ele teme a sua própria incapacidade de manter a parceira por meios que não sejam a reclusão e a dependência.
Esta atitude tem consequências gravíssimas, que transcendem o âmbito conjugal. Quando um homem impede a sua parceira de se formar, ele não está apenas a limitar um diploma. Ele está a ceifar a possibilidade de independência financeira dela, a reduzir a sua autoestima e a perpetuar um ciclo de exclusão que empobrece toda a nação.
O baixo índice de formação do género feminino em muitas regiões de Moçambique não pode ser explicado apenas pela pobreza ou pela falta de escolas. A exclusão da rapariga e da mulher do ensino também se alimenta destas dinâmicas domésticas perversas, onde o controle do corpo e do futuro feminino é exercido pela força de um "não podes".
É preciso refletir: que tipo de relação é essa que só se sustenta na fraqueza e na ignorância da outra parte? O verdadeiro companheirismo não teme o crescimento. Um homem seguro não vê a inteligência da parceira como uma ameaça, mas como um degrau para que ambos, juntos, construam um futuro mais sólido. O amor que aprisiona não é amor; é egoísmo travestido de cuidado.
Precisamos como sociedade desconstruir a ideia de que o espaço público, incluindo a escola, é um lugar de perigo moral para a mulher, enquanto para o homem é o lugar de conquista e desenvolvimento. Enquanto existir um homem com medo de ver a sua parceira a crescer, existirá uma mulher impedida de ocupar o seu lugar legítimo na construção de um Moçambique mais justo e desenvolvido.
A chave para a mudança está na educação dos próprios homens. Está no diálogo aberto sobre masculinidade, sobre segurança emocional e sobre o valor inegociável da igualdade de oportunidades. Só assim conseguiremos transformar o medo que aprisiona na confiança que liberta.


Comentários
Enviar um comentário