O CULTO À BUNDA GRANDE
Nos últimos anos, as redes sociais transformaram-se num palco permanente de exibição corporal. Uma foto como esta – uma mulher de pele negra, de costas, com um rabo e quadris que parecem desafiar as leis da anatomia, sentada numa bancada de casa de banho – torna-se viral em minutos. Para uns, é empoderamento puro: “Amo o meu corpo como ele é!”. Para outros, é apenas mais um exemplo de como o movimento da positividade corporal descarrilou e passou a glorificar algo perigoso: a obesidade.
O movimento da positividade corporal nasceu com boas intenções. Surgiu para combater a gordofobia, a discriminação contra pessoas com corpos fora do padrão magro imposto pela indústria da moda e da publicidade. A ideia era simples: todo o corpo merece respeito, independentemente do tamanho. Ninguém deve ser humilhado por ser gordo. Até aqui, tudo bem. O problema começa quando o “amor próprio” vira desculpa para ignorar factos científicos inconvenientes.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2024 a obesidade esteve associada a 3,7 milhões de mortes em todo o mundo. Mais de mil milhões de pessoas vivem hoje com obesidade – um número que continua a subir, especialmente em países em desenvolvimento como os da África subsariana. A obesidade não é apenas “estética”: aumenta drasticamente o risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, AVC, certos tipos de cancro e até problemas articulares. Não é opinião, é ciência.
Em Moçambique e noutros países africanos, há quem defenda que corpos curvilíneos sempre foram valorizados culturalmente – sinal de prosperidade, fertilidade, beleza. É verdade: em muitas comunidades tradicionais, uma mulher “cheinha” era vista como saudável e atraente. Mas o contexto mudou. Com a urbanização, o acesso a alimentos processados e o sedentarismo, o que antes era “curvas naturais” virou muitas vezes obesidade real, com todos os riscos que isso traz. Celebrar corpos extremos como o da foto não é preservar cultura africana – é, muitas vezes, transformar saúde em espetáculo para ganhar likes.
E não nos enganemos: grande parte destas imagens hipercurvilíneas não é “natural”. Muitas vêm de cirurgias plásticas (BBL, implantes), edição pesada ou até condições médicas. Quando uma influenciadora posa semi-nua só para mostrar o rabo, vendendo a ideia de que “tudo é lindo e saudável”, está a fazer o quê? Empoderamento ou objectificação disfarçada? Porque, convenhamos, o olhar que estas fotos atraem raramente é de “respeito pela diversidade” – é puro voyeurismo.
O verdadeiro amor próprio não passa por negar a realidade. Passa por cuidar de si: alimentar-se bem, mexer o corpo, fazer check-ups. Aceitar o corpo não significa resignar-se a riscos evitáveis. A positividade corporal perdeu o norte quando começou a atacar quem fala em saúde como se fosse “gordofobia”. Criticar obesidade não é odiar gordos – é preocupar-se com vidas.
E você, leitor? Acha que exibir corpos extremos nas redes é liberdade ou apenas mais uma forma de pressão estética disfarçada? Onde traça a linha entre aceitação e negação da saúde? Deixe o seu comentário – este blog é para verbalizar sem medo.
O Verbalyzador, Maputo, Janeiro de 2026
É pura glorificação da obesidade
ResponderEliminarDe facto é preocupante, as pessoas já viram frangos para exibição do corpo.
ResponderEliminarMas oque mais me doe é o facto de mulheres Áfricanas sentirem- se lindas/ atraentes com cabelos europeus, que sabe se lá talvez seja dos mortos. Isso também é muito preocupante para mim..
É tudo natural ai...
ResponderEliminarÉ naturalisdimo
ResponderEliminarMindo paulo
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