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A HIPOCRISIA DAS EXIGÊNCIAS FEMININAS

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Quando o Discurso Não Combina com a Realidade Num tempo em que o debate sobre igualdade de género ganha cada vez mais espaço, surgem também contradições que merecem reflexão séria. Entre elas, destaca-se a postura de certas mulheres que assumem discursos extremamente exigentes em relação aos homens, mas que não demonstram coerência entre aquilo que cobram e a realidade que vivem. Trata-se de um fenómeno cada vez mais visível, amplificado pelas redes sociais e por discursos públicos que confundem empoderamento com superioridade moral ou material. O caso recente de uma apresentadora africana, que ganhou notoriedade após declarar publicamente que apenas se relaciona com homens financeiramente bem-sucedidos — citando marcas de carros de luxo como critério mínimo — expôs de forma clara essa contradição. A situação tornou-se ainda mais simbólica quando, logo após o discurso, a mesma foi vista a regressar para casa numa mototáxi , meio de transporte comum e acessível. O contraste entre ...

QUANDO AS CHAVES DO CARRO ABREM A PORTA DA TRAIÇÃO

Mobilidade, poder e o medo silencioso que corrói casamentos em Moçambique

Por: Paulino INTEPO
intepo1607@outlook.com 

Há objectos ou melhor, bens que, em certas sociedades, deixam de ser coisas ou patrimónios e passam a ser sinais. Em Moçambique, em muitos lares, a viatura tornou-se um desses sinais carregados de significados invisíveis. O que deveria representar progresso familiar, estabilidade e conforto transforma-se, não raras vezes, num símbolo de ruptura emocional.

E é aqui que a questão deixa de ser mecânica e passa a ser humana.

A compra de uma viatura, que noutras realidades simboliza progresso, conforto e conquista familiar, em muitas comunidades moçambicanas transforma-se num gatilho emocional dentro do lar. O carro deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a representar liberdade unilateral, desequilíbrio de poder e ameaça à estabilidade conjugal.

Não é o metal, o modelo ou o brilho da pintura que geram o conflito — é o significado social que se cola às quatro rodas. Para muitas mulheres, a viatura não anuncia apenas mobilidade: anuncia ausência, segredos, desculpas prontas e uma porta aberta para relações paralelas. A chave não liga só o motor — liga desconfianças antigas.

Aqui está o ponto que precisa ser encarado sem rodeios: o medo não nasce do nada. Ele é alimentado por um contexto onde:
  • A infidelidade masculina é frequentemente normalizada;
  • A dependência económica limita a capacidade de reacção feminina;
  • diálogo conjugal é frágil ou inexistente;
  • O homem associa bens materiais à afirmação de masculinidade e estatuto.

Assim, a viatura converte-se num símbolo de autonomia masculina sem responsabilidade emocional equivalente. Ele ganha deslocação. Ela ganha ansiedade. E essa frase, simples, resume uma desigualdade emocional profunda.

O impacto é psicológico antes de ser material. A mulher começa a vigiar horários, cheiros, mensagens, mudanças de comportamento. O lar transforma-se num campo de tensão permanente. O desgaste não é só sentimental — é físico: insónias, perda de apetite, stress crónico. A suspeita contínua é uma forma de tortura silenciosa.

Mas a reflexão precisa ir ainda além do casal. Há também o medo concreto da saúde. Num país onde o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis continuam a ser uma realidade, a infidelidade não é apenas traição emocional — é risco de vida. A viatura passa a ser vista como ponte entre o lar e a exposição invisível. O drama deixa de ser moral e passa a ser existencial.

Economicamente, o carro também desloca prioridades. Combustível, manutenção, peças, multas — despesas que, quando não são planeadas, competem com alimentação, educação dos filhos e necessidades básicas. O conflito conjugal passa a ter também uma raiz financeira. Aquilo que era conquista transforma-se em fonte de ressentimento.

Quando o diálogo falha, a tensão explode. Actos de vandalismo contra a viatura, embora condenáveis, surgem como expressão de desespero e impotência. Não são apenas ataques ao objecto — são gritos contra uma relação onde a mulher sente que perdeu voz, espaço e segurança.

É fácil julgar esses actos isoladamente. Mais difícil é encarar o que os antecede: silêncios longos, humilhações subtis, negligência emocional. A violência contra o carro é muitas vezes o sintoma visível de uma violência emocional prolongada e invisível.

No fundo, o carro apenas amplifica problemas que já existiam:
E aqui está a reflexão central: o problema nunca foi o carro. O carro é apenas o megafone. Ele amplifica o que já estava rachado, o que já doía, o que já era injusto.

Sem transformação dessas bases, qualquer novo símbolo de poder — carro, telefone, dinheiro — pode tornar-se detonador.

A solução não está em temer a mobilidade, mas em equilibrar poder com responsabilidade. Uma relação saudável não teme um carro; teme a falta de respeito, de transparência e de compromisso.

Porque no final, não são as estradas que separam casais — são as distâncias emocionais que ninguém quis encurtar.

Enquanto isso não muda, muitas chaves continuarão a abrir não só portas de carros — mas portas para desconfiança, dor e ruptura familiar.

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