A HIPOCRISIA DAS EXIGÊNCIAS FEMININAS
Há objectos ou melhor, bens que, em certas sociedades, deixam de ser coisas ou patrimónios e passam a ser sinais. Em Moçambique, em muitos lares, a viatura tornou-se um desses sinais carregados de significados invisíveis. O que deveria representar progresso familiar, estabilidade e conforto transforma-se, não raras vezes, num símbolo de ruptura emocional.
A compra de uma viatura, que noutras realidades simboliza progresso, conforto e conquista familiar, em muitas comunidades moçambicanas transforma-se num gatilho emocional dentro do lar. O carro deixa de ser apenas um meio de transporte e passa a representar liberdade unilateral, desequilíbrio de poder e ameaça à estabilidade conjugal.
Não é o metal, o modelo ou o brilho da pintura que geram o conflito — é o significado social que se cola às quatro rodas. Para muitas mulheres, a viatura não anuncia apenas mobilidade: anuncia ausência, segredos, desculpas prontas e uma porta aberta para relações paralelas. A chave não liga só o motor — liga desconfianças antigas.
Assim, a viatura converte-se num símbolo de autonomia masculina sem responsabilidade emocional equivalente. Ele ganha deslocação. Ela ganha ansiedade. E essa frase, simples, resume uma desigualdade emocional profunda.
O impacto é psicológico antes de ser material. A mulher começa a vigiar horários, cheiros, mensagens, mudanças de comportamento. O lar transforma-se num campo de tensão permanente. O desgaste não é só sentimental — é físico: insónias, perda de apetite, stress crónico. A suspeita contínua é uma forma de tortura silenciosa.
Mas a reflexão precisa ir ainda além do casal. Há também o medo concreto da saúde. Num país onde o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis continuam a ser uma realidade, a infidelidade não é apenas traição emocional — é risco de vida. A viatura passa a ser vista como ponte entre o lar e a exposição invisível. O drama deixa de ser moral e passa a ser existencial.
Economicamente, o carro também desloca prioridades. Combustível, manutenção, peças, multas — despesas que, quando não são planeadas, competem com alimentação, educação dos filhos e necessidades básicas. O conflito conjugal passa a ter também uma raiz financeira. Aquilo que era conquista transforma-se em fonte de ressentimento.
Quando o diálogo falha, a tensão explode. Actos de vandalismo contra a viatura, embora condenáveis, surgem como expressão de desespero e impotência. Não são apenas ataques ao objecto — são gritos contra uma relação onde a mulher sente que perdeu voz, espaço e segurança.
É fácil julgar esses actos isoladamente. Mais difícil é encarar o que os antecede: silêncios longos, humilhações subtis, negligência emocional. A violência contra o carro é muitas vezes o sintoma visível de uma violência emocional prolongada e invisível.
Falou tudo precisamos mudar mesmo
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