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A HIPOCRISIA DAS EXIGÊNCIAS FEMININAS

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Quando o Discurso Não Combina com a Realidade Num tempo em que o debate sobre igualdade de género ganha cada vez mais espaço, surgem também contradições que merecem reflexão séria. Entre elas, destaca-se a postura de certas mulheres que assumem discursos extremamente exigentes em relação aos homens, mas que não demonstram coerência entre aquilo que cobram e a realidade que vivem. Trata-se de um fenómeno cada vez mais visível, amplificado pelas redes sociais e por discursos públicos que confundem empoderamento com superioridade moral ou material. O caso recente de uma apresentadora africana, que ganhou notoriedade após declarar publicamente que apenas se relaciona com homens financeiramente bem-sucedidos — citando marcas de carros de luxo como critério mínimo — expôs de forma clara essa contradição. A situação tornou-se ainda mais simbólica quando, logo após o discurso, a mesma foi vista a regressar para casa numa mototáxi , meio de transporte comum e acessível. O contraste entre ...

O DESPREZO DE CLASSE MISTURADO COM RACISMO INTERNALIZADO

Pedir desconto na rua: a humilhação que sabemos fazer tão bem

Há uma, duas ou mais fotografias que não me sai da cabeça: uma mana idosa, sentada no chão poeirento, cabeça baixa, mãos postas como quem reza, uma bacia azul com quiabos e dois cachos de banana à frente, ou outro produto mas caseiro ou aquele de mukero, mesmo. Parece uma imagem de luto. E é. É o luto diário de quem vende a própria dignidade a retalho.

Em Moçambique, temos um talento especial: pagamos 800 meticais por um bife mal passado num restaurante com ar condicionado, damos 100 de gorjeta ao empregado só porque sorriu, passamos o cartão no Shoprite sem olhar para o total, mas quando chegamos diante daquela mana da bacia, daquele miúdo que pedala 40 km com sacos de carvão, daquela jovem que traz peixe da Costa do Sol às costas, viramos leões de negociação. De repente, 50 meticais pelo molho de matapa é “roubo”, 30 meticais pelos quiabos é “exagerado”, e ainda exigimos bacela como se fosse direito constitucional.

Porquê?

Porque no restaurante o empregado usa camisa engomada e fala “boa tarde, senhor”. Porque o supermercado tem música ambiente e chão brilhante. Porque a empresa de construção civil tem logótipo e factura com NUIT. Tudo isso nos faz sentir “iguais” ou “superiores”. Pagamos para não sermos confundidos com os “pobres”.

Mas quando o vendedor está sentado no chão, suado, com roupa rasgada e sotaque do interior, o nosso complexo de colono desperta. Sentimo-nos autorizados a humilhar. Regatear até ao osso passou a ser prova de inteligência. “Consegui baixar de 50 para 25, sou esperto!” Na verdade, somos apenas cruéis disfarçados de espertos.

Essa crueldade tem nome: desprezo de classe misturado com racismo internalizado. É o mesmo mecanismo que fazia o colono pagar bem ao empregado branco e dar migalhas ao criado negro. Mudaram os rostos, mas a lógica ficou. Quem parece “acima” recebe respeito. Quem parece “abaixo” recebe pontapé.

E o Estado, esse grande ausente quando se trata de justiça, torna-se hiperativo quando se trata de bater nos mais fracos. Os agentes da polícia municipal nunca fazem rusga no Polana Shopping nem confiscam mesas do Costa do Sol. Vão é derrubar a banca da mana Maria no Xipamanine, levar os tomates da tia Rosa no Mercado do Povo, arrancar o carvão ao miúdo na Maxaquene. Depois vão comer o peixe confiscado ou vendê-lo no bairro. Chamam a isso “fazer cumprir a postura municipal”. Eu chamo a isso assalto legalizado contra os mais pobres dos pobres.

Entretanto, o mesmo cidadão que aplaude a rusga porque “a cidade fica mais limpa” é o primeiro a reclamar quando não encontra quiabo fresco ou carvão barato. Quer a cidade “europeia” na fotografia, mas quer os produtos africanos no prato. É a esquizofrenia perfeita.

Eu, quando compro à mana da bacia, pago o preço que ela pede. Às vezes arredondo para cima e digo “guarda o troco, mana, obrigado pelo sacrifício”. Não é caridade. É reparação mínima por todos os que a humilharam antes de mim. É reconhecer que aqueles 350 meticais custaram a ela muito mais do que os 500 que gastei no jantar de sábado.

A verdadeira medida de uma sociedade não está nos arranha-céus que constrói nem nos restaurantes caros que lota. Está no respeito que dá à senhora que acorda às três da manhã para trazer o quiabo da Machava até Maputo, ao miúdo que carrega 250 kg de carvão na bicicleta de Muacowanvela até à vila, à mãe que vende ginguba torrada para pagar antibiótico ao filho.

Enquanto continuarmos a achar normal esmagar quem já está no chão, seremos apenas colonizados que trocaram o chicote do português pelo cartão Visa, mas mantiveram a mesma alma.

Essa mana da fotografia não está apenas triste. Está cansada de nós.

E com razão.

Um abraço forte. E que Deus abençoe todas essas manas que acordam às 3 da manhã para trazer o quiabo, o peixe, o carvão até nós. Elas são as verdadeiras heroínas deste país.

(Foto e reflexão inspirada nesta imagem e vista real que circula nas redes e que deveria doer em todas as consciências que ainda têm salvação.) 

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Comentários

  1. Disseste uma verdade crua e bem fresca e tocou a minha alma. Eu, tenho assistido este cenário e por vezes eu mesmo também costumo pedir desconto " humilhar na sua abordagem"! Mas a partir dos próximos dias prometo a mim mesmo, fazer um sacrifício de não continuar a humilhar aquela gente! Mas também não vou deixar de dizer que aquela gente também aplica preço diferente sobre o mesmo produto reparando assim na cara e as vestes de cada cliente que aparece! Então, era bom também que aquela gente aplicasse um preço justo para todos e não olhar as qualidades do cliente primeiro e depois estipular o preço. Eu, acho que esta é a razão que faz com que eu e outros clientes peçamos descontos. Então, essa atitude daquela gente não seria também uma humilhação? Desculpe meu humilde comentário mas, gostei da sua iniciativa e do texto e vou treinar a minha mente para abandonar essa prática de pedir desconto "humilhar" apenas para aquela gente mas nas lojas irei continuar a pedir descontos. Me perdoe, obrigado e um abraço forte.

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    1. Admirável essa abordagem com classe e muita sapiência honestamente falando. Mas deixa dizer uma só coisa, pedimos-lhe o consentimento para desenvolver esse outro lado do cenário, pois achamos sugestivo abordar as coisas nessa vertente que propõe aos demais a observar. Até lá, um abraço e saúde

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