A REVOLUÇÃO DA GERAÇÃO Z CONTRA O ÁLCOOL
A tendência global de a Geração Z — nascidos entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010 — beber menos álcool, como se observa em países como Brasil, EUA e Alemanha, onde pesquisas indicam reduções de até 46% no consumo, não parece aplicar-se a Moçambique. Pelo contrário, aqui o consumo de bebidas alcoólicas entre jovens está a crescer de forma preocupante, impulsionado por factores como o desemprego juvenil, desigualdades sociais profundas e uma frustração generalizada com a governação.
Enquanto em várias partes do mundo os jovens optam por mocktails e estilos de vida “sober curious”, por razões de saúde e autocontrolo, em Moçambique muitos recorrem ao álcool como forma de escape a uma realidade marcada pela falta de oportunidades e por escolhas políticas que perpetuam a pobreza.
Dados recentes pintam um quadro alarmante. Segundo o Observatório de Saúde, o consumo de álcool no país subiu de 45,2% em 2005 para 76,5% em 2024, sendo a faixa etária dos 25 aos 44 anos — que inclui muitos da Geração Z — a mais afectada, com 78,1%. Este aumento contribui para o crescimento da mortalidade por doenças não transmissíveis, que passou de 8% para 29% no mesmo período, tendo o álcool como factor determinante.
Pesquisas realizadas em 2025 indicam que cada vez mais jovens consomem álcool, resultando em doenças graves e mortes prematuras. No Inquérito ao Orçamento Familiar (IOF 2022), a prevalência geral situa-se em 24,6%, mas entre adolescentes dos 15 aos 17 anos atinge 17%, apesar da proibição legal. Províncias como Tete (37,2%), Maputo (32,3%) e Zambézia (30,3%) lideram os índices. A cerveja (46%) e as bebidas tradicionais (44%) são as mais consumidas.
Por que razão este contraste com a tendência global? A frustração com a governação surge como elemento central. Moçambique possui uma população jovem em rápido crescimento — cerca de 9,4 milhões entre os 15 e os 35 anos, aproximadamente um terço da população — mas enfrenta elevados níveis de analfabetismo juvenil, desemprego e jovens em situação NEET (nem estudam, nem trabalham, nem estão em formação), afectando cerca de 3 milhões.
As gerações anteriores fizeram escolhas políticas que perpetuaram desigualdades estruturais: falta de acesso adequado à educação, saúde e emprego para muitos, enquanto poucos concentram oportunidades. A percepção de corrupção, irregularidades eleitorais e violência policial, frequentemente discutida no espaço público, aprofunda o sentimento de frustração.
Jovens em Maputo e noutras províncias relatam custos elevados para estudar, aceder à saúde, ao transporte e até a vagas em instituições públicas, o que afecta directamente a saúde mental. Sem alternativas governativas eficazes, o álcool torna-se refúgio. Em algumas províncias, como Niassa, relatos indicam que jovens bebem mais por falta de ocupação e perspectivas.
Factores sociais como casamento precoce, acesso limitado às TIC (apenas cerca de 13% com acesso à internet) e exposição precoce a substâncias agravam o cenário.
O impacto é profundo. O abuso de álcool sobrecarrega o sistema de saúde; em 2024, 23.409 pacientes foram atendidos por problemas relacionados com drogas, muitos deles jovens com perturbações mentais. Em escolas como a de Chicumbane, o consumo tem afectado o desempenho académico, com prejuízos na memória e na capacidade de aprendizagem.
Economicamente, a situação configura uma “bomba-relógio”: desemprego, ausência de políticas eficazes de prevenção e o estatuto do álcool como “droga socialmente aceite” contribuem para a erosão do potencial juvenil.
O Governo tem respondido com medidas como a suspensão de licenças para produção e venda de álcool, campanhas de sensibilização e restrições à venda nas proximidades de escolas. Contudo, críticos defendem que, sem enfrentar as causas estruturais — desigualdade, fragilidade institucional e dependência externa em sectores essenciais — o problema tenderá a persistir.
Esta realidade convida à reflexão: será o álcool um sintoma de uma sociedade fracturada, onde jovens da Geração Z, em vez de inovar e prosperar, procuram anestesiar frustrações?
Políticas inclusivas, investimento consistente em educação e criação de emprego poderiam inverter esta trajectória. Caso contrário, o risco social continuará a crescer.
Caro leitor, como observa esta realidade na sua cidade ou zona? A sua geração sente esta frustração ou vislumbra sinais de mudança? Partilhe a sua visão.
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