O AMOR NÃO É UM PALCO

A Ilusão da Performance e o Colapso da Intimidade Moderna

Durante esta semana, fui surpreendido por um padrão inquietante que se repetia nas conversas, nos posts e nos pequenos desabafos espalhados pelas redes sociais. Brigas entre casais, acusações recíprocas, insatisfações íntimas, reclamações sobre a “performance” dos parceiros e, por vezes, desilusões construídas a partir de expectativas mal definidas

Tudo isto era apresentado como se alguém, algures, tivesse obrigação de possuir a resposta certa, o gesto certo, a posição certa, a atitude certa - uma espécie de manual emocional que ninguém escreveu, mas que todos parecem exigir, pois, até algumas televisões e rádios propalaram sobre isso.

Ao observar este mosaico de inquietações, concluí que não se trata apenas de crises individuais. É o reflexo de algo maior: o impacto da mídia, da cultura de exibição e da forma distorcida como as redes sociais moldam as nossas relações. Nunca tive uma opinião definitiva sobre este fenómeno - e talvez ninguém deva ter, mas sempre procurei manter um ponto de equilíbrio. Contudo, tudo ganhou mais clareza quando encontrei uma declaração da autora Corissa Marie, que parece desmontar, com simplicidade e lucidez, as ilusões que estão a arruinar a beleza de viver a dois.

A sua mensagem é um convite à recuperação da intimidade natural, espontânea, vulnerável - algo que, aos poucos, estamos a perder. Traduzi o texto com fidelidade e rigor, porque acredito que merece ser lido na sua plenitude:

Declaração de Corissa Marie (traduzida) original: AQUI

 “Quando o sexo se transforma numa produção ou numa performance, é aí que ele perde o seu valor.

Sejam mútuos. Sejam barulhentos. Sejam desajeitados. Façam barulho, fiquem em silêncio, façam confusão. Mordam, arranhem, empurrem, puxem, segurem, avancem. Tirem a pressão do momento. Amem o momento. Abracem-no.

Apreciem o vosso corpo; apreciem o corpo do vosso parceiro. Suem, sejam naturais, despertem os vossos sentidos, rendam-se ao prazer. Choquem cabeças, falhem o beijo, riam quando isso acontecer.

Falem com palavras, falem com o corpo, falem com a alma do outro. Toquem na pele, beijem a carne arrepiada, brinquem com o cabelo. Gritem, implorem, murmuram, suspirem, deixem os dedos dos pés enrolarem, percam-se.

Corram atrás do fôlego; deixem as luzes acesas, olhem nos olhos quando o outro explodir. Esqueçam a preocupação com pele a mais, tamanhos, medidas e outras coisas sem significado.

Guardem as expectativas, vivam cada segundo à medida que ele chega. Borrem a maquilhagem, desarrumem o cabelo, libertem a masculinidade rígida e abandonem o ego.

Detonem juntos, colapsem juntos e derretam um no outro.

— Corissa Marie

Depois de ler isto, percebi: não é a intimidade que está a desaparecer - somos nós que a estamos a matar. A cultura do espetáculo transformou o acto íntimo numa prova de competência, numa performance destinada a agradar, impressionar ou provar valor. Mas, ao tentarmos actuar, deixamos de sentir. E quando deixamos de sentir, deixamos de viver o que é essencial.

A verdade é simples e brutal:

ninguém consegue amar com medo de falhar.

O sexo - enquanto expressão maior de entrega, conexão e humanidade - perdeu espaço para a comparação, para a insegurança e para o desejo constante de validação. É um paradoxo cruel: quanto mais tentamos “acertar”, mais nos afastamos da experiência real.

O texto de Marie resgata aquilo que é humano: o erro, o improviso, o riso inesperado, o toque genuíno, a respiração que tropeça, o corpo que não foi treinado para o palco, mas nasceu para o encontro.

Relembra-nos que o sentido do amor não está na perfeição, mas na sinceridade.

Não está no desempenho, mas na presença.

Não está no controlo, mas na entrega.

Num tempo em que tudo é performance - desde conversas a fotografias - , recuperar a naturalidade tornou-se um acto revolucionário. E talvez seja esse o primeiro passo para salvar os relacionamentos, e até a saúde emocional da humanidade, num mundo onde tudo é ensaio, pose e artifício.

O amor não é um palco.

É o lugar onde, finalmente, deixamos cair todas as máscaras.

@Maxpein (X)

Comentários

  1. Eu amei alguém do jeito que não consigo ficar passar o dia sem pensar nela, mas ela tá já me bloqueou, o que faço?

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