O PONTO DE PARTIDA DA COLONIZAÇÃO DO SAGRADO

Origens da Ridicularização da Espiritualidade Africana

Partimos da seguinte questão para acomodar e vaguear numa vasta experiência e busca em literaturas que o mundo digital disponibiliza, acidentalmente ou por alguma razão, que nos remete atenciosamente a reflexões delicadas sobre a espiritualidade no seio africano. Levantado a seguinte questão como uma dessas consequências de exposição a leque de informações relacionadas ao caso: De onde surgiu a ideia da ridicularização das práticas africanas e engrandecimento das tradições estrangeiras?

Sem intenção de responder directamente, mas observar a génesis desse imbróglio, seguem alguns raciocínio como um ponto de partida de uma jornada, que esperamos ainda desenvolver durante o mês de Maio e quiçá, aprender mais sobre o que é sensível, mas real, necessariamente humano se admitirmos que pretendemos evoluir e estar em pé de igualdade com o mundo fora. Ainda que haja riscos e desafios para tal.

1. A Necessidade Ideológica da Inferiorização

A ridicularização das práticas espirituais africanas não foi acidental. Foi um projecto deliberado, sistemático e necessário para que o colonialismo funcionasse.

Sem deslegitimar o sagrado africano, não havia justificação moral para:

- Escravizar corpos;

- Confiscar terras;

- Destruir estruturas de poder locais.

O ataque à espiritualidade foi, antes de tudo, um ataque à soberania.

2. As Três Fontes Históricas da Ridicularização

A) O Iluminismo Europeu (séc. XVII–XVIII)

O Iluminismo, paradoxalmente, foi uma das origens mais sofisticadas do racismo espiritual. Criou a dicotomia:

Razão (Europa) vs. Superstição (África, Ásia, América)

Hegel chegou ao ponto de declarar que África era "fora da história", sem consciência de si, sem religião digna desse nome. O africano foi posto no lugar do pré-humano espiritual, ainda preso ao animismo primitivo. Isso deu cobertura filosófica ao que viria a seguir. 

B) A Igreja Católica e o Projecto Missionário (séc. XV em diante)

Com as bulas papais — nomeadamente a Romanus Pontifex (1455) e a Inter Caetera (1493) — a Igreja legitimou a conquista territorial como missão de salvação de almas.

Isso criou a lógica perversa:

- O africano tem práticas = idolatria / pacto com o demónio.

- O missionário chega = traz a luz.

- A resistência espiritual africana = obra do diabo.

Não foi apenas intolerância religiosa. Foi a criminalização do sagrado nativo como condição de entrada na "civilização".

C) A Antropologia Colonial (séc. XIX)

Com autores como Tylor e Frazer (The Golden Bough), surgiu a teoria evolucionista da religião:

1. Animismo (primitivo) → Politeísmo → Monoteísmo (civilizado)

África foi fixada no estágio 1. Essa classificação foi tratada como ciência, ensinada nas universidades europeias, e usada para justificar a tutela colonial como "desenvolvimento espiritual e moral".

3. O Mecanismo Operacional: Como Funcionou na Prática (instrumentos usados e as funções)

Instrumento: Missões religiosas - Função:  Substituição do cosmos espiritual africano.

Instrumento: Escola colonial - Função: Associação do saber ao abandono das práticas nativas.

Instrumento: Lei e administração - Função: Criminalização de rituais, curandeiros, ngangas.

Instrumento: Linguagem - Função: Tradução depreciativa: "feitiçaria", "bruxaria", "animismo".

Instrumento: Literatura e imprensa - Função: Construção do africano como supersticioso e ignorante.

Em Moçambique, por exemplo, o regime colonial português criminalizou explicitamente as práticas dos curandeiros e espíritos ndau e makua. A PIDE vigiava líderes espirituais como potenciais focos de resistência - e com razão, porque o sagrado africano era frequentemente inseparável da resistência política.

4. O Paradoxo Central

Aqui está o ponto mais irritante desta história:

As religiões que vieram "salvar" os africanos tinham exactamente os mesmos elementos que ridicularizavam nas práticas nativas:

- Contacto com espíritos → chamado de comunhão dos santos

- Curas por fé → chamado de milagres

- Rituais com objectos → chamado de sacramentos;

- Possessão espiritual → chamado de unção do Espírito Santo;

- Consulta de entidades → chamado de oração

A diferença não era teológica. Era geopolítica.


5. O Legado Actual

A ridicularização internalizou-se. O africano contemporâneo muitas vezes:

- Frequenta a Igreja de manhã e o curandeiro à noite, mas envergonha-se do segundo;

- Chama de "atraso" às práticas dos seus avós;

- Usa vocabulário colonial para descrever o próprio sagrado ("feitiço", "magia negra").

Isto é o que Frantz Fanon chamou de colonização da mente — quando o colonizado adopta a grelha de leitura do colonizador para se julgar a si próprio.

Para o debate:

Nas próximas quatro semanas de Maio, entremos em algum destes eixos com mais profundidade. Convidamos ao caro leitor a nos enviar os seus palpites nos 4 pontos a seguir: 

- A relação entre espiritualidade africana e resistência política em Moçambique.

- A teologia comparada (o que as religiões abraâmicas "roubaram" das tradições africanas).

- O papel das igrejas pentecostais actuais como novo colonialismo espiritual.

- A possibilidade de uma espiritualidade africana descolonizada no século XXI.

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