PATERNIDADE IRRESPONSÁVEL & MASCULINIDADE TÓXICA:

O Silêncio do Homem que Foge de Frente

Ele não desaparece de noite. Foge de dia, a passo firme, com uma garrafa na mão e a consciência anestesiada.

Por: Amélia Caciano Brejnev, 39.
Quelimane, Zambézia

Existe uma forma de abandono que não figura em nenhum boletim de ocorrência. Não há porta batida, não há mala feita à pressa, não há despedida dramática. O homem está ali - visível, presente, de corpo inteiro - e ainda assim completamente ausente. Caminha à frente. Carrega o que lhe dá prazer na mão ou, às vezes sai do serviço, se for, com o salário na conta e vai mandar ver aos amigos e colegas em qualquer barraca. E não olha para trás.

A imagem que circula nas redes sociais e que inspirou esta reflexão não precisa de legenda. Um homem avança num caminho de terra com uma caixa de bebidas numa mão e uma garrafa de álcool na outra. Atrás dele, uma mulher carrega um bebé ao colo, segura uma lata de leite em pó, e grita - não de raiva, mas de desespero acumulado. Uma criança descalça fecha o cortejo, silenciosa, como quem já aprendeu que gritar não adianta.

Não é uma ficção. É um retrato.

O prazer como prioridade, a família como fardo

A masculinidade tóxica não se anuncia com fanfarra. Instala-se devagar, normalizada pela cultura, validada pelos pares, tolerada pelo silêncio colectivo. Uma das suas expressões mais comuns - e mais destrutivas - é a inversão de prioridades: o homem que tem dinheiro para bebidas mas não para o leite do filho. Que tem tempo para os amigos mas não para a escola da criança. Que tem energia para a festa mas chega a casa sem forças para ser pai.

Não estamos a falar de pobreza. Estamos a falar de escolha.

Porque quando uma lata de Lactogen pesa mais no orçamento do que uma caixa de cerveja, e ainda assim é a cerveja que entra pela porta, o problema não é económico, é moral. É uma declaração silenciosa de que o prazer próprio antecede a obrigação familiar. E essa declaração, repetida dia após dia, constrói uma arquitectura de abandono que a criança vai habitar para o resto da vida.

Presente no corpo, ausente na função

O abandono mais perigoso não é o do pai que parte. É o do pai que fica, e não serve. Porque o pai ausente, com o tempo, pode tornar-se numa explicação. O pai presente e inútil torna-se numa ferida permanente, num modelo distorcido de masculinidade que os filhos vão reproduzir e as filhas vão suportar.

A criança que cresce vendo o pai caminhar à frente enquanto a mãe carrega tudo aprende, sem que ninguém lhe ensine, que é assim que as coisas funcionam. Que o homem lidera sem carregar. Que a mulher grita e ninguém ouve. Que o amor é uma distribuição desigual de peso.

Esse é o legado silencioso da irresponsabilidade paterna: não é só o que falta hoje, é o que se deforma para sempre.

O grito que ele não ouve

Ela grita. E ele não olha para trás.

Não porque seja surdo. Mas porque aprendeu, ao longo do tempo, que o grito dela não tem consequências para ele. Que pode continuar a caminhar. Que alguém - ela, a sogra, a família, a sociedade - vai resolver o que ele abandona. A impunidade do homem irresponsável não nasce do nada: é cultivada por uma cultura que desculpa o pai ausente com o argumento de que "ele trabalha", "ele traz o dinheiro", "é assim mesmo".

Mas trazer o dinheiro - quando se traz - não é paternidade. É o mínimo. E nem sempre chega antes da cerveja.

O que a mulher naquela imagem carrega não é só um bebé. É o peso de uma estrutura familiar que assenta sobre os seus ombros enquanto o parceiro avança leve, anestesiado, convencido de que cumpriu o seu papel por existir. O resto que a natureza cuide e lhe deixem em paz enquanto 'come dinheiro dele'. 

O que a imagem não mostra

A imagem não mostra o que acontece mais tarde. Não mostra a criança descalça a crescer com uma ideia torta do que é ser homem. Não mostra a mulher que, de tanto carregar, um dia larga tudo ou adoece por não largar. Não mostra o homem que, décadas depois, chega à velhice sem família que o reconheça, sem filhos que o respeitem, sem herança afectiva nenhuma, porque nunca investiu em uma que honra-se o seu apelido e homenageia-se a sua existência como homem, pai de família, arquitecto de um lar, um destino e uma nação próspera, segura e forte.

Fugir de frente tem custos. Só que a conta chega tarde, e quando chega, ele raramente a reconhece como sua.

Em jeito de fecho

A masculinidade responsável não se mede pela garrafa que se segura, mas pelo peso que se está disposto a carregar. Um homem que avança enquanto a família fica para trás não está a liderar, está a desertar. E a diferença entre os dois não está na direcção do passo: está no que, e em quem, se deixa para trás.

O silêncio do homem que foge de frente é ensurdecedor. O problema é que só ele não o ouve.

ACB: Com carinho😘

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