"VOCÊ SABE O QUE TEM DE FAZER"

O Abismo que o Instrutor Abriu e a Força que a Aluna Encontrou no Vazio

No dia 6 de julho de 2026, sobre os campos de Toledo, na província argentina de Córdoba, o céu testemunhou um dos momentos mais cruéis e, ao mesmo tempo, mais reveladores da condição humana. Uma Cessna C-150 voava em aula prática. A bordo, Leandro Andrés Bertazzo, instrutor de 42 anos com experiência em voos comerciais e quatro anos na escola Flying Parrot Córdoba, e Rosario, aluna de 22 anos já detentora de licença privada de piloto, mas ainda a acumular horas sob supervisão.

A frase soou simples, quase rotineira: “Você sabe o que tem de fazer.” Segundos depois, o instrutor retirou o headset, arrumou os pertences, desapertou o cinto de segurança, abriu a porta contra a pressão do ar e saltou para o vazio. O corpo foi encontrado mais tarde num campo próximo. Rosario, sozinha no comando, em choque total, manteve a calma, contactou a escola e aterrou o avião de forma perfeita no aeroporto Coronel Olmedo, sem um único arranhão na aeronave.

O diretor da escola, Eduardo Álvarez, resumiu com sobriedade: ela estava “muito abalada, mas com total profissionalismo voou até ao aeródromo e fez uma aterragem perfeita”. O pai de Bertazzo revelou que o filho “estava a passar por um mau momento” e tinha procurado ajuda psiquiátrica. Não havia sinais prévios. Ele tinha dado outra aula naquele mesmo dia.

Este não é apenas um facto de aviação. É um espelho da existência.

A traição da última lição

Quando um mentor diz “você sabe o que tem de fazer” e depois escolhe o silêncio eterno, o que está realmente a transmitir? Uma confiança cega? Um teste final? Ou o mais doloroso dos abandonos? Rosario recebeu, num único instante, o peso de toda a responsabilidade que o instrutor deveria partilhar. O avião, que até então era espaço de aprendizagem partilhada, transformou-se num túmulo voador que ela teve de transformar em veículo de sobrevivência.

A frase, proferida com aparente serenidade, ecoa como um testamento cruel. “Você sabe o que tem de fazer” - palavras que, no contexto de uma aula de voo, soam a encorajamento. No contexto de um salto para a morte, soam a despedida egoísta. Bertazzo não apenas se foi: deixou para trás uma jovem que, dali em diante, carregaria para sempre a memória daquele momento. O trauma não acaba na aterragem. Começa nela.

A resiliência que o desespero não esperava

E, no entanto, Rosario aterrou. Sozinha. Sem pânico visível, sem erro fatal. Num mundo que tantas vezes glorifica a força física ou o heroísmo ruidoso, aqui temos o heroísmo silencioso: o de quem, traído pela figura de autoridade que deveria protegê-la, escolhe continuar a voar.

Esta é a lição mais profunda que o incidente nos oferece. A vida, tal como um avião em voo, não nos avisa quando o co-piloto decide saltar. De repente, estamos sós com os comandos, com o vento a uivar pela porta aberta, com o chão a aproximar-se em velocidade. E, mesmo assim, muitos de nós aterram. Não porque somos invencíveis, mas porque, no fundo, carregamos uma centelha que se recusa a apagar.

A saúde mental de Bertazzo, a fragilidade que ninguém viu a tempo, recorda-nos que os instrutores da vida pais, professores, líderes, também sangram por dentro. O sorriso “belo” que os colegas descreviam escondia, provavelmente, uma dor que ele já não conseguia suportar. O salto não foi apenas um ato de desespero: foi também um grito de quem, talvez, já não via outra forma de parar a dor.

O que nos resta depois do salto

O caso está sob investigação das autoridades federais de Córdoba como possível suicídio. Mas, para além da causa jurídica, fica a pergunta filosófica que o Verbalyzador tantas vezes coloca: o que revelam estes momentos extremos sobre a nossa humanidade partilhada?

Revelam que a confiança é o bem mais frágil que existe. Revelam que o ato de ensinar implica também o dever de cuidar - de si e do outro. Revelam que a resiliência não é ausência de medo, mas a decisão de continuar apesar dele. E revelam, sobretudo, que a vida, mesmo quando nos é retirada de forma abrupta, continua a exigir de nós uma resposta.

Rosario não pediu para ser heroína. Pediu apenas para aprender a voar. Recebeu, em vez disso, a lição mais dura: a de que, por vezes, o céu abre-se não para nos mostrar liberdade, mas para nos mostrar o abismo que carregamos dentro de nós.

Que esta história, tão distante geograficamente de Moçambique, nos toque aqui, no nosso chão. Porque todos nós, em algum momento, recebemos instruções de quem deveria guiar-nos. E todos nós, mais cedo ou mais tarde, podemos ver essa porta abrir-se, seja literal ou metaforicamente.

A questão não é se saberemos o que fazer. A questão é se, quando chegar o momento, teremos dentro de nós a força silenciosa que Rosario demonstrou: a de continuar a voar, mesmo quando o instrutor já não está.

Que esta reflexão nos ajude a olhar para o céu e para dentro de nós, com mais compaixão e mais coragem.

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