QUANDO A BÊNÇÃO BATE À PORTA
Em tempos de crise, como as devastadoras inundações que assolam Moçambique desde o início de 2026, a verdadeira liderança de um país mede-se menos pelas palavras de solidariedade e mais pelas acções concretas que aliviam o sofrimento do povo. As cheias provocadas por chuvas intensas e fenómenos climáticos extremos já ceifaram mais de uma centena de vidas, feriram dezenas de pessoas e deixaram milhares de cidadãos desalojados em várias regiões do país. O Governo anunciou o resgate de cerca de 19 mil indivíduos sitiados pelas águas, um esforço digno de reconhecimento, mas manifestamente insuficiente face à magnitude da catástrofe. Infra-estruturas vitais, como a Estrada Nacional Número Um, encontram-se intransitáveis em vários troços, isolando comunidades inteiras e agravando uma emergência humanitária que exige respostas extraordinárias.
É neste contexto que se impõe um apelo directo e inequívoco aos governantes moçambicanos: se sois verdadeiramente por Moçambique e pelo povo moçambicano, esta é a oportunidade de demonstrá-lo abrindo os céus nacionais a operadores aéreos privados e estrangeiros, com tarifas acessíveis, capazes de garantir mobilidade essencial para responder, prevenir e recuperar desta crise. As inundações não são um mero capricho da natureza; elas expõem fragilidades estruturais acumuladas ao longo de décadas. Alertas prévios provenientes da região, inclusive de países vizinhos, foram ignorados ou subestimados, o que ampliou os danos humanos e materiais. Com a previsão de continuidade de chuvas intensas, sobretudo no sul do país, a urgência é real e incontornável.
Num território extenso e marcado por fragilidades logísticas, a mobilidade aérea surge como uma das soluções mais eficazes para encurtar distâncias e acelerar respostas. Não se trata apenas de evacuações de emergência, mas da possibilidade de ligar rapidamente o norte ao sul, garantindo o fluxo de bens essenciais, medicamentos, equipas médicas, técnicos humanitários e apoio solidário. É legítimo imaginar voos de baixo custo entre Maputo, Nampula, Pemba ou Tete, com tarifas médias acessíveis ao funcionário comum, em vez dos preços proibitivos actualmente praticados por um mercado restrito, reservado a elites, altos dirigentes e quadros de mega-projectos.
Este apelo não é novo. Operadoras aéreas privadas e internacionais já manifestaram, em diferentes momentos, interesse em operar em Moçambique com preços reduzidos, tendo algumas inclusive actuado no passado com pacotes compatíveis com o poder de compra do cidadão médio. O que as impede hoje? Exigências pouco transparentes, burocracias excessivas e uma relutância persistente em liberalizar o sector aéreo, cujos detalhes o povo desconhece. É tempo de convocá-las de volta. Permitir que regressem não é um favor ao sector privado, mas um acto de compaixão para com as vítimas das cheias e para com todos os que desejam ajudar.
O próprio sector empresarial tem demonstrado capacidade de solidariedade, como se viu em doações significativas anunciadas para apoiar as vítimas das inundações. Porque não estender este espírito de colaboração ao domínio da mobilidade aérea, criando incentivos temporários, flexibilizando exigências e colocando o interesse público acima de receios administrativos ou políticos? A calamidade exige medidas excepcionais.
Para além do transporte aéreo, a compaixão deve estender-se a outras frentes igualmente vitais. A redução dos custos de acesso à internet e às comunicações telefónicas é fundamental em momentos de isolamento. Famílias separadas pelas águas precisam de comunicar, coordenar resgates, partilhar informações e manter laços emocionais. Num contexto de risco acrescido de surtos de doenças, uma rede de comunicação acessível pode salvar vidas ao permitir a rápida disseminação de alertas e orientações de saúde pública. A abertura de vias alternativas à EN1 é necessária e bem-vinda, mas não pode servir de desculpa para manter bloqueios artificiais à entrada de operadores estrangeiros capazes de suprir lacunas imediatas.
Soberania verdadeira não se mede pela exclusão, mas pela capacidade de priorizar o bem-estar nacional acima de interesses fechados ou de validações externas. Esta crise, que já provocou centenas de mortes no sul de África e deixou marcas profundas em Moçambique, pode também ser uma oportunidade rara de reconquistar a confiança e o coração dos moçambicanos. Em vez de gastos simbólicos em busca de legitimidade, o país precisa de acções concretas que provem compromisso real com o povo.
O eleitorado já manifestou, em anos recentes, um claro desejo de mudança. Governar contra esse sinal apenas aprofunda o fosso entre dirigentes e cidadãos, alimentando frustração, revolta e descrença, sobretudo quando o povo observa dirigentes e multinacionais a deslocarem-se por via aérea enquanto o cidadão comum permanece preso ao solo lamacento e às estradas cortadas. A mobilidade determina a velocidade do progresso nacional. Sem encurtar distâncias e tempos de viagem com voos acessíveis, Moçambique continuará refém de um desenvolvimento desigual e excludente.
O apelo é simples e urgente: actuai agora. Abri os céus, facilitai as comunicações e colocai o interesse do povo acima de tudo. Pelo povo, pela economia e pela soberania moçambicana, Moçambique precisa de voar alto — não de continuar a afundar-se em águas estagnadas.
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