SILÊNCIO DAS ESTRELAS SUL-AFRICANAS PERANTE A XENOFOBIA AOS ADMIRADORES FORA DA ÁFRICA DO SUL
Porquê as estrelas sul-africanas calam-se perante a xenofobia na África do Sul?
Alinhamento com o medo antigo ou algo mais profundo?
A xenofobia na África do Sul continua a ser um tema recorrente e doloroso, especialmente para moçambicanos e outros migrantes africanos que vivem ou trabalham no país vizinho. Ataques esporádicos, saques a lojas de estrangeiros e discursos inflamados contra “makwerekwere” (termo pejorativo para estrangeiros africanos) voltam à tona com frequência, gerando indignação em Moçambique. Enquanto Julius Malema, líder da EFF, é uma das poucas vozes sul-africanas que se pronuncia publicamente contra esses actos, condenando-os como traição à unidade africana, a maioria das celebridades, artistas, desportistas e influencers sul-africanos mantém um silêncio quase absoluto.
Estamos a dizer, todos aqueles que fazem e fizeram os hits e preenchem o silêncio, carregam as vossas festas e momentos de alegria com aqueles sons e ritmos pesados, vos deixando a dançar noite e hora toda, estão calados diante disso. O que há afinal por detrás disso? É consentimento ou qual é a mensagem que nos querem transmitir? Razão dessa abordagem analítica é atenciosa.
O contexto histórico que explica o receio
Na aula inaugural do Prof. Dr. José António da Conceição Chichava no ISDEF, mencionou-se uma ideia atribuída a Nelson Mandela sobre a criação de uma fronteira única ou maior integração entre Moçambique e África do Sul. Na mesma época ou pouco depois, um ministro do Interior sul-africano alertou: se o acordo fosse avante, haveria “mais moçambicanos na África do Sul do que sul-africanos em Moçambique”. Era o receio de um fluxo descontrolado de migrantes para o país mais rico da região.
Passados anos, as dinâmicas invertem-se em alguns aspectos. Moçambique atrai cada vez mais sul-africanos - investidores, turistas, profissionais qualificados e aposentados - , especialmente nas áreas de turismo, negócios e gás natural. Estatísticas oficiais e relatos indicam um crescimento da presença sul-africana em Maputo, Matola, Ponta do Ouro, Tofo e outras zonas. Do outro lado, continuam a existir milhares de moçambicanos na África do Sul (dados de recenseamento eleitoral apontavam mais de 136 mil em 2024, com deportações regulares), mas o fluxo não é tão assimétrico como se temia. Muitos sul-africanos hoje vivem, investem ou passam longos períodos em Moçambique sem os mesmos entraves que os migrantes africanos enfrentam em Joanesburgo ou Durban.
Silêncio das “estrelas” sul-africanas: pragmatismo, medo ou alinhamento?
Várias razões explicam o mutismo público da maior parte das celebridades sul-africanas (cantores, actores, futebolistas, influencers) sobre a xenofobia:
1. Risco alto de backlash popular: A xenofobia na África do Sul não é só de marginais. Ela ganha força em contextos de desemprego elevado (acima de 30%), desigualdade extrema, criminalidade e frustração com o governo. Muitos sul-africanos pobres ou da classe trabalhadora veem os migrantes como concorrentes por empregos informais, habitação e serviços. Uma estrela que se posicione fortemente contra pode ser acusada de “trair os seus” ou de estar “desligada da realidade das townships”. Perder fãs e patrocínios é um risco real.
2. Alinhamento velado com a preocupação do antigo ministro: O receio histórico - de ser “engolido” demograficamente ou economicamente por vizinhos mais pobres - ainda ecoa em partes da sociedade. Embora as estatísticas mostrem hoje mais sul-africanos em Moçambique e nos outros países africanos que têm agora seus cidadãos em apuros nas garras da xenofobia, do que o inverso em termos de impacto visível em alguns sectores, o discurso anti-imigração continua popular. Muitas celebridades, mesmo que pessoalmente contra a violência, evitam confrontar directamente esse sentimento para não alienar a sua base. Logo, temos uma classe que podia, em parte, ajudar, porém, omisso para salvaguardar sua carreira no solo pátrio.
3. Foco em carreira internacional e imagem: Muitos artistas sul-africanos (como os da Amapiano, Kwaito ou do futebol) dependem de mercados regionais e globais. Pronunciar-se sobre um tema tão polarizador pode complicar tours, colaborações ou contratos. O silêncio é visto como a opção mais segura. Empurrando a bola para os políticos que juraram ou ao menos se comprometeram serem actores principais na resolução dos problemas dos jovens que activamente fazem parte da violência xenófoba.
4. Algo mais radical? Para alguns analistas, o silêncio reflecte um nacionalismo sul-africano pós-apartheid que, paradoxalmente, reproduz dinâmicas de “exclusão do outro africano”. Depois de décadas de luta contra o regime branco, parte da sociedade negra sul-africana internalizou uma visão de excepcionalismo: a África do Sul como “o mais desenvolvido”, com direito a proteger “os seus” primeiro. Isso não é necessariamente “racismo anti-negro”, mas uma forma de afrofobia ou xenofobia intra-africana alimentada por dificuldades socioeconómicas. Julius Malema é excepção porque o seu projecto político (EFF) usa o panafricanismo retórico, ainda que de forma controversa e muitas vezes virada contra brancos ou “capital”.
Em ondas passadas de violência (2015, 2019), algumas estrelas como Sho Madjozi, AKA ou outros participaram em campanhas pontuais #SayNoToXenophobia ou gravaram músicas contra a violência. Mas o envolvimento foi limitado e não se compara à condenação veemente de artistas nigerianos ou de outros países. O padrão actual é de silêncio quase total por parte das grandes figuras.
Em relação ao olhar moçambicano
Moçambique deve continuar a defender os seus cidadãos com firmeza diplomática, sem cair em generalizações contra todo o povo sul-africano. Muitos sul-africanos comuns e empresários vivem bem connosco e contribuem positivamente. O problema está na combinação explosiva de pobreza, liderança política fraca e discursos populistas que culpam o “estrangeiro” pelos males internos.
O silêncio das estrelas sul-africanas não é necessariamente cumplicidade directa com o ministro do Interior de outrora, mas revela medo de confrontar uma opinião pública volátil. Preferem não mexer num vespeiro que pode custar-lhes popularidade. Enquanto o desemprego e a desigualdade persistirem na África do Sul, a xenofobia terá terreno fértil - e o silêncio de quem tem plataforma continuará a ser ensurdecedor.
É preciso mais vozes como a de Malema do lado sul-africano, mas também maior integração económica real da SADC, criação de oportunidades nos países de origem e diplomacia pragmática entre Maputo e Pretória. A fronteira não deve dividir irmãos africanos, mas gerir fluxos de forma justa e humana.
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