ONDE VÃO ESSAS "DIVAS" QUANDO O FINAL DE SEMANA ACABA
O Silêncio que Habita a Semana e o Fogo que Desperta nos Fins de Semana
Numa fotografia capturada em plena noite de celebração, que podia ser uma imagem perfeita sobre "O PRAZER DA JAULA DOURADA - Como a Indiferença Estrutural nos Transforma em Turistas da Própria Miséria", duas jovens mulheres erguem-se sobre o chão enlameado de um evento vibrante. Os cabelos trançados caem como cortinas de dignidade, os olhares encontram-se por cima de óculos que não escondem a intensidade, e os corpos, vestidos com a liberdade dos shorts jeans e tops justos, parecem dizer ao mundo: “aqui estou, inteira e viva" se não até a um simples sinal verde de um "sirvam-se”. Mas não, pois nem todas vão atrás de homens ou partilhar a sua intimidade à troca de qualquer coisa que seja. Outras podem gostar de sair para se distrair e prontos...
Só que há quem nas redes sociais e nos chapas por aí se pergunta, com genuína curiosidade: “Onde se escondem estas mulheres que floreiam as noites nos lugares de diversão, por exemplo? Aparecem nos fins de semana e desaparecem durante a semana.” A pergunta é simples. A resposta, porém, exige que desçamos às camadas mais profundas da condição humana, que muitos de nós não ousamos abordar muito menos reflectir acerca do assunto.
Elas não desaparecem. Elas transformam-se.
Durante os dias úteis, muitas dessas mesmas mulheres vestem o fato discreto da profissionalidade. Encontramo-las nos balcões dos bancos, nas secretarias das escolas, nos consultórios, nos escritórios públicos ou nas lojas das nossas vilas e cidades, postos e localidades, etc. Cumprem horários rigorosos, respondem a chefes, educam filhos, sustentam famílias ou constroem sonhos com o salário que mal chega ao fim do mês.
A sociedade ainda espera delas uma presença “séria”, “respeitável”, quase invisível e incansável. Qualquer excesso de cor, de curva ou de brilho pode ser lido como distração ou falta de seriedade. Assim, a semana torna-se um espaço de contenção necessária, que pode não ser por escolha livre, mas por sobrevivência.
O fim de semana, ao contrário, funciona como um ritual de libertação. É o momento em que o corpo pode dançar sem explicações, em que o olhar pode ser directo, em que a sensualidade deixa de ser culpa e passa a ser celebração. A música alta, a multidão, a lama que suja os sapatos e às vezes pode ser na poeira mesmo, etc tudo isso é palco para uma versão de si mesmas que a rotina sufoca durante os dias laborais e com compromissos formais sob responsabilidades pesadas e delicadas.
Não é fingimento. É complementaridade. A mulher que atende a família, clientes, o público em geral ou em particular com seriedade às quartas-feiras não mente quando, ao sábado, ri alto e se deixa abraçar pela noite. São as duas faces da mesma moeda: a que trabalha para existir e a que existe para viver.
Esta dualidade não é exclusiva das mulheres, mas recai sobre elas com peso particular. O olhar masculino que formula a pergunta “onde se escondem?” revela, muitas vezes, uma expectativa redutora: que a beleza e a presença feminina existam apenas para o lazer, apenas para o fim de semana. Esquece-se que aquela mulher de óculos e tranças, que ao sábado parece saída de um sonho, é a mesma que, na segunda-feira, pode estar a preparar uma aula, a assinar um contrato ou a cuidar de uma mãe idosa. A surpresa do observador nasce da incapacidade de imaginar que uma mulher possa ser, ao mesmo tempo, competente e desejável, séria e livre.
Na realidade moçambicana e em tantas outras sociedades africanas urbanas, esta tensão é ainda mais aguda. O peso económico, as expectativas familiares, as heranças culturais que misturam tradição e modernidade, tudo concorre para que muitas mulheres aprendam cedo a navegar entre mundos. O fim de semana torna-se, assim, não apenas diversão, mas catarse colectiva. É o espaço onde se recuperam forças, onde se reafirmam laços, onde se resiste à erosão silenciosa que a rotina impõe à alma.
Pensemos mais fundo. Todas as pessoas, independentemente do género, carregam múltiplas versões de si mesmas. O homem que é severo no emprego pode ser terno com os filhos. A professora que exige disciplina na sala de aula pode chorar sozinha ao domingo. O que a fotografia revelam não é um mistério de “desaparecimento” de dia, mas a prova de que a identidade humana é fluida, contextual e resistente. A mulher que brilha na noite não está a esconder-se durante a semana. Está a preservar-se. Está a guardar energia, dignidade e sonho para o momento em que pode, enfim, ser inteira sem pedir licença.
Por isso, em vez de perguntarmos “onde se escondem”, talvez devêssemos perguntar: o que faz com que elas precisem de se esconder? Que sociedade é esta que só permite o fogo feminino em horários limitados? Que economia obriga tantas mulheres a viverem metade da vida em modo de sobrevivência e a outra metade em modo de afirmação?
A resposta não está na crítica fácil nem na idealização romântica. Está na capacidade de ver a mulher por inteiro: a que trabalha, a que ama, a que dança, a que silencia quando necessário e a que grita quando pode.
Elas não se escondem.
Elas apenas mudam de pele para sobreviver ao mundo que ainda não aprendeu a acolher todas as suas versões ao mesmo tempo.
E quando, finalmente, chega o fim de semana, o fogo que a semana tentou apagar volta a arder; não como ilusão, mas como prova de que a vida, mesmo nas condições mais duras, ainda encontra formas de brilhar e aí elas aparecem: radiantes, como quem diz, gostosas para animar as noites e iluminar dando mais calor as "curtições".
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| @MatandaAndrewCB: "Onde essas mulheres estão escondidas??? Eles aparecem em eventos de fim de semana e desaparecem durante a semana..." |

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