COPA 2026: ESTAMOS E AINDA VAMOS VER E OUVIR MUITA COISA - O TROFÉU QUE PESA MAIS QUE O OURO
Entre a Festa Global a Crise de Confiança na América do Norte
“É a maior festa da humanidade”, jurou Gianni Infantino, o presidente da FIFA, num tom que soava quase como um desejo: o de que o futebol, mesmo quando o mundo lá fora está pegando fogo, pudesse ser aquele refúgio apolítico, um território neutro onde, por noventa minutos, todos seríamos apenas torcedores. Mas a verdade é que, ao longo destes primeiros dias do Mundial 2026, que começou a 11 de Junho e se estende até 19 de Julho, o campo de jogo revelou-se muito mais vasto do que o relvado do Estádio Azteca, no México.
Fora das quatro linhas, o que se vê e ouve é um campeonato paralelo de crises: barreiras migratórias que discriminam nações inteiras, um esquema de segurança militarizado como nunca se viu, e os próprios anfitriões, Estados Unidos, Canadá e México, a trocarem farpas diplomáticas em vez de passes de mágica. O futebol, afinal, não existe no vácuo, e esta copa está a mostrar, sem rodeios, que os jogos do poder não param mesmo quando o mundo pára para ver a bola rolar.
🗺️ As Três Solenidades e a Cara de Cada País
A primeira grande surpresa do ponto de vista logístico e festivo foi a quebra da tradição: pela primeira vez, houve não uma, mas três cerimónias de abertura distintas. A primeira, no dia 11 de Junho, aconteceu no mítico Estádio Azteca, na Cidade do México, que entrou para a história como o primeiro palco a receber três jogos de abertura de Mundiais (1970, 1986 e agora 2026). A festa mexicana foi ao rubro: Shakira, J Balvin e a lenda do rock local Maná incendiaram as arquibancadas, enquanto a sul-africana Tyla e o nigeriano Burna Boy entregaram o hino global da competição.
A energia foi, diga-se, genuinamente latina: calorosa, desorganizada em alguns momentos, mas vibrante. Foi a alma do futebol a pulsar ao ritmo de Dai Dai, a canção oficial do torneio.
Horas depois, foi a vez do Canadá, num tom bem mais contido, quase institucional, fazer a sua festa no BMO Field, em Toronto, antes do duelo contra a Bósnia. E, finalmente, no SoFi Stadium de Los Angeles, os Estados Unidos tentaram impor o show à sua imagem: grandioso, milimetricamente coreografado e repleto de estrelas pop, um verdadeiro espectáculo hollywoodiano que celebrava o slogan “Welcome to the USA”. No entanto, por detrás dos confetis, a tensão já se fazia sentir. A atmosfera era de um ecrã gigante a tentar esconder as fissuras na parede.
🛂 O Lado Negro do Visto: Discriminação e "Segurança"
Se o futebol é o desporto democrático por excelência, os primeiros dias desta copa provaram que os vistos são a ferramenta mais eficaz para recriar muros. A política migratória do governo Trump, que já antes recaía sobre países maioritariamente muçulmanos e africanos, transformou-se na sombra que tolda o torneio. O caso mais emblemático e doloroso foi o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor árbitro africano de 2025 pela CAF. Apanhado com visto válido e até passaporte diplomático, foi barrado à chegada a Miami, deportado e impedido de se tornar o primeiro juiz da Somália num campeonato do mundo.
A resposta dos EUA foi fria: “Preocupações de segurança.” O mais preocupante é que a FIFA, limitou-se a declarar que não se envolve nos processos de imigração dos países anfitriões, lavando as mãos como Pilatos.
O cerco não se ficou por Artan. A selecção do Irão, que está em guerra com os EUA, um facto inédito para um país-sede e um participante: viu 13 dos seus membros da comitiva técnica terem vistos negados, o que forçou a equipa a montar o seu centro de treinos em Tijuana, no México, entrando nos EUA apenas nas horas dos jogos. O avançado iraquiano Aymen Hussein foi sujeito a mais de sete horas de interrogatório no aeroporto de Chicago, incluindo revista minuciosa ao telemóvel.
As selecções do Senegal e do Uzbequistão foram submetidas a revistas com cães polícia, como se de criminosos se tratasse. As imagens, que correram o mundo, mostram o rosto feio de uma Copa que, para algumas nações, ergueu barreiras em vez de tapetes vermelhos. Como bem notou um editorial do News18, o mundo assiste a uma competição onde “certos passaportes circulam mais livremente do que outros”.
🛡️ O Maior Esquema de Segurança da História do Futebol
Em resposta a este cenário de tensão geopolítica e ameaças reais (incluindo o risco de ataques com drones), os três países uniram-se… mas na desconfiança mútua. O aparato de segurança montado é inédito e impressionante. No México, mais de 100 mil soldados, marinheiros, membros da Guarda Nacional e policiais foram mobilizados nas três cidades-sede, com especial incidência em Guadalajara, abalada por confrontos com cartéis de droga.
Unidades anti-drones e sistemas de vigilância alimentados por inteligência artificial foram instalados nos estádios.
Nos EUA, a operação é descrita pelo próprio responsável da task force da Casa Branca como “78 Super Bowls em 39 dias”. O FBI e o Departamento de Segurança Interna (DHS) estão no terreno com robôs detectores de bombas, scanners de raio-x gigantes e câmaras de reconhecimento facial alimentadas por IA. Quem vai escapar?
O governo canalizou perto de 846 milhões de dólares para financiar a segurança, sendo mais de 250 milhões só para mitigar ameaças de drones. A meta é ambiciosa: “Zero falhas”, juram os responsáveis. O Canadá, por seu turno, disponibilizou perto de 145 milhões de dólares canadianos para garantir que as fronteiras e os recintos de Toronto e Vancouver estão herméticos.
Há, contudo, a consciência de que o maior perigo pode vir da “desinformação gerada por IA” e da radicalização online, sobretudo num contexto de guerra no Médio Oriente. Certo ou errado? Meus irmãos, o cenário é inédito tal como o desfecho também é impensável, para quem acompanha de perto essa grande festa mundial na América do Norte.
🤝 Uma Aliança Desfeita: As Brigas Dentro de Casa
Porém, o que deveria ser um símbolo de integração norte-americana - a primeira Copa a três - degenerou num circo diplomático de baixo nível. Quando a candidatura conjunta foi lançada, em 2017, falava-se do “sonho norte-americano”; hoje, os media falam da maior “guerra de egos” da história do desporto. A relação entre os EUA e o Canadá azedou de forma dramática. Trump não só impôs tarifas agressivas sobre produtos canadianos como, em tom repetido, sugeriu que o Canadá se tornasse o “51.º estado” americano - uma provocação que feriu fundo o orgulho nacional canadiano.
O primeiro-ministro Mark Carney respondeu com medidas de retaliação, enquanto cidadãos comuns boicotaram viagens e produtos americanos. Este rancor foi tão longe que as relações entre México e Canadá também foram afectadas, já que os canadianos foram acusados de “atirar os mexicanos aos lobos” para agradar a Trump. Segundo uma sondagem recente, 63% dos americanos rejeitam anexar o Canadá, e apenas 7% apoiam a ideia - um alívio para o norte, mas que não apaga a humilhação.
Além disso, a copa revelou um paradoxo: enquanto a FIFA insiste na neutralidade, a política interna de cada país entrou em campo. No México, professores e familiares de desaparecidos usaram a vitrine global para protestar, derrubando estátuas alusivas ao torneio. No Canadá, o ex-primeiro-ministro Justin Trudeau foi criticado por ter assistido ao jogo de abertura dos EUA (com a namorada e a cantora Katy Perry) e ter “faltado” ao jogo da sua própria selecção.
As tensões internas, como se vê, também jogam contra.
🌍 Conclusão: O Futebol Pode Respirar Debates, Não Muros
O balanço destes primeiros dias é, portanto, contraditório. Por um lado, o mundo testemunhou a maior montagem logística de sempre na história do futebol. Os estádios estão reluzentes, a tecnologia de segurança é de ponta, e a festa, em muitos recantos, é genuína. As equipas africanas, num número recorde de 10 selecções, têm mostrado garra, provando que a expansão para 48 países, ainda que polémica, trouxe novas vozes ao pódio.
E, convenhamos, há algo de emocionante em ver o Azteca a vibrar ao som de Shakira e Burna Boy. Enquanto nas redes sociais, os africanos também não esquecem o mau comportamento, primeiro dos marroquinos - face às polémicas do final do CAN25 que tentaram tirar o troféu via justiça do Senegal - depois, atazanaram a África do Sul em repúdio ao protagonismo da xenofobia.
Por outro, o espectáculo foi sequestrado pela geopolítica. A Copa do Mundo de 2026 entrou para a história como a mais politizada e a mais cara, mas também como um alerta: quando os governos usam o desporto como arma de exclusão, quando árbitros são barrados por causa do seu passaporte e nações inteiras são humilhadas apenas por existirem, o espírito olímpico fica em coma.
A pergunta que fica é: depois do apito final, o que restará? Uma América do Norte mais integrada, ou três países ainda mais divididos?
Os próximos dias, com o calor extremo, a ameaça de greves de trabalhadores e o contínuo aperto migratório, dirão se esta Copa será lembrada pela bola nos pés ou pelos muros erguidos. Mas uma coisa é certa: nunca o futebol foi tão pesado. E o troféu, de ouro maciço, nunca pesou tanto.
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| Ainda há muito por ver nesse mundial 2026 |
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