A LIÇÃO DOLOROSA DO SUDÃO DO SUL

Quando o Amor Se Compra a Peso de Ouro e Gado

Há imagens que não se apagam facilmente. Um homem de fato branco impecável, uma noiva de véu e vestido de princesa, um cenário de luxo que parece saído de um sonho ocidental. No entanto, por detrás da fotografia que circula nas redes, esconde-se uma história que força qualquer africano a olhar para dentro de si próprio: Thon Chol Riak, do Sudão do Sul, venceu um rival numa “disputa matrimonial” ao oferecer 77 mil dólares em dinheiro, 297 vacas e terrenos. O concorrente tinha proposto 25 mil dólares e 158 cabeças de gado. A noiva, Atong Aguto Monyroor, foi “adjudicada” ao maior lance. A cerimónia foi luxuosa. A mensagem, devastadora.

Não se trata apenas de um casamento. Trata-se de um espelho.

Num continente onde a pobreza ainda dilacera milhões de famílias, onde guerras e fomes se sucedem como estações do ano, um homem consegue reunir uma fortuna equivalente a décadas de trabalho de muitos compatriotas para “comprar” o direito de chamar alguém de esposa. A tradição do lobolo, do dote, do preço da noiva, não é nova. Em muitas sociedades africanas, ela simbolizava reconhecimento, aliança entre famílias, valorização da mulher e compromisso sério. Era, em teoria, um acto de dignidade. Hoje, porém, em muitos casos, transformou-se em leilão. O amor deixou de ser o centro. O valor de mercado passou a ditar o destino.

Pergunto-me, com a honestidade que a reflexão exige: quantas vezes reduzimos o ser humano a um objecto de prestígio? Quantas vezes o gado, o dinheiro e a terra se tornam a medida do afecto? No Sudão do Sul, país marcado por décadas de conflito e instabilidade, esta ostentação não é apenas cultural. É um grito de status num território onde a insegurança económica e a desigualdade são o pão de cada dia. O mesmo solo que produz guerras e deslocados produz também estas celebrações de excesso. Paradoxo cruel: enquanto uns passam fome, outros contam vacas como se contassem troféus.

Não julgo o homem nem a mulher. Julgo o sistema que normaliza a ideia de que o valor de uma pessoa se negocia. A tradição, quando esvaziada de sentido, torna-se prisão. A noiva deixa de ser sujeito e passa a ser prémio. O noivo deixa de ser companheiro e passa a ser investidor. E o amor? O amor fica em segundo plano, quase como um detalhe decorativo da cerimónia.

Em Moçambique, conhecemos bem estas tensões. O lobolo ainda é praticado em muitas regiões. Quando feito com equilíbrio e respeito, pode fortalecer laços. Quando se transforma em competição de riquezas, empobrece a alma. A pergunta que ecoa é universal: quanto vale, realmente, uma união? Vale a paz que se constrói no quotidiano? Vale a capacidade de crescer juntos? Ou vale apenas o número de cabeças de gado que se consegue reunir?

Há quem defenda que estas práticas preservam a identidade africana contra a erosão ocidental. Há quem diga que o dinheiro e o gado garantem estabilidade. Mas a estabilidade verdadeira não se compra. Compra-se o silêncio, a aparência, o prestígio social. O coração, esse, continua a bater ao ritmo da liberdade ou da obrigação.

Este casamento no Sudão do Sul não é isolado. É sintoma. Sintoma de uma África que, em alguns momentos, ainda mede a dignidade humana pela capacidade de acumular. Sintoma de sociedades onde a pobreza e a ostentação coexistem sem se questionarem mutuamente. Sintoma de um tempo em que a tradição, sem renovação crítica, se torna armadilha.

Que cada um de nós, ao olhar para esta história, se pergunte: estou a construir relações ou a negociar prestígio? Estou a amar ou a investir? Porque no fim, as vacas morrem, o dinheiro desaparece, os terrenos mudam de dono. O que resta é a qualidade do vínculo humano. E essa, ninguém consegue comprar.

A África precisa de preservar o que tem de mais belo nas suas tradições. Mas precisa, igualmente, de coragem para abandonar o que as transforma em mercadoria. O amor verdadeiro não se leiloa. Ele escolhe-se. E escolhe-se todos os dias, sem factura.

Thon Chol Riak e Atong Aguto Monyroor.


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