A FÚRIA DOS DEUSES E A INDIFERENÇA DOS HOMENS.

Como a Vingança à Vaca "Sagrada" Morta Expõe a Podridão de um Sistema Religioso

Há imagens que nos perseguem não pelo que mostram, mas pelo que denunciam, dá para concordar que a vida dos outros não é para entender e muito menos julgar. Circula, nestes dias, um vídeo vindo da Índia que incomoda profundamente qualquer um que se depare com ele. Não se trata de uma cena de guerra, nem de um desastre natural. Trata-se de um grupo de camponeses, munidos de paus e pedras, a desancar um transformador eléctrico com uma fúria que parece vir de outros tempos. A razão? Uma vaca morreu electrocutada. O que, à primeira vista, poderia ser interpretado como um acto de insanidade colectiva é, na verdade, o sintoma mais evidente de uma sociedade doente, onde a infra-estrutura de um país se desintegra e a espiritualidade se transmuta em violência primitiva.

Ataque a um transformador elétrico que eletrocutou uma vaca sagrada e morreu, na Índia. (vídeo).

O incidente ocorreu na região de Bengala Ocidental, no distrito de Darjeeling, e noutros locais como Madhya Pradesh, quando uma vaca, animal sagrado para a maioria dos hindus, tocou em cabos eléctricos danificados e morreu. A resposta dos moradores foi imediata e desproporcional: atacaram o transformador e os postes de electricidade, interrompendo o fornecimento de energia na região. A cena é, no mínimo, paradoxal. Para vingar a morte de um animal, os manifestantes destruíram a própria fonte de energia que, por negligência, o matou. É como se, num acto de fúria cega, decidissem cortar o nariz para insultar o rosto.

Mas por que razão um evento tão específico, e aparentemente banal num país com problemas de infra-estrutura crónicos, ganha uma dimensão tão alarmante? A resposta reside na complexa teia que entrelaça a fé, a política e a negligência do Estado. Na Índia, a vaca não é apenas um animal; é um símbolo, um ser quase divino, uma extensão da própria identidade cultural e religiosa de milhões de pessoas. A sua morte violenta não é um simples acidente; é uma profanação, um atentado contra a ordem cósmica. Para um devoto, a visão de uma vaca a contorcer-se sob a acção de uma corrente eléctrica, vinda de um transformador que a modernidade prometeu trazer mas que a corrupção deixou apodrecer, é um insulto duplo: à sua crença e à sua dignidade.

No entanto, a fúria não nasce apenas da dor espiritual. Ela é o escape para uma pressão que se acumula há décadas. Os relatos dão conta de que os cabos estavam danificados, que a manutenção era precária e que as queixas da população eram sistematicamente ignoradas pelas autoridades. A vaca electrocutada não foi a causa da revolta; foi apenas a gota de água que fez transbordar o copo. A violência contra o transformador foi, na verdade, um grito de desespero contra um sistema que falha nos seus mais elementares deveres: o de proteger os seus cidadãos, o de manter a sua infra-estrutura e, acima de tudo, o de ouvir as suas queixas.

Este episódio revela uma verdade incómoda sobre a condição humana contemporânea. Quando as instituições se tornam surdas e os canais de diálogo se entopem, a linguagem da violência torna-se a única que parece ser compreendida. Os camponeses indianos, ao atacarem o transformador, não estavam apenas a vingar a vaca; estavam a tentar destruir o símbolo de uma modernidade que os exclui e os trai. O transformador, que deveria ser um sinal de progresso e de iluminação, tornou-se o altar onde se sacrifica a esperança.

É curioso, e trágico, notar como a acção dos manifestantes, embora violenta e irracional, continha uma lógica própria. Ao destruírem o transformador, eles cortaram a electricidade, mergulhando a região na escuridão. Esta escuridão, porém, já existia. Era a escuridão de uma vida sem perspectivas, de uma justiça que não chega, de um Estado que não vê. A escuridão física foi apenas a manifestação tangível de uma escuridão moral e social que já os consumia.

Entretanto, a resposta das autoridades foi a que se espera: polícia no local, promessas de reparação e a garantia de que o transformador seria substituído. Mas a pergunta que fica no ar é: e depois? Substituir o transformador resolve o problema de fundo? A menos que se substitua também a lógica de negligência, a indiferença e a falta de diálogo, este episódio será apenas o primeiro de muitos. Enquanto a religião for usada como justificação para a violência e a infra-estrutura como desculpa para a inércia, a Índia, e o mundo, continuarão a assistir a cenas de fúria que, no fundo, são gritos de uma humanidade que se sente traída.

Ao reflectir sobre este caso, vindo de uma terra distante, mas que nos toca pela sua humanidade crua, somos confrontados com perguntas que nos são íntimas. Até que ponto a nossa própria fé, seja ela religiosa ou política, nos cega ao ponto de nos fazer destruir aquilo que nos sustenta? Até que ponto a nossa paciência para com a falência dos serviços públicos é uma forma de cumplicidade? A vaca morta na Índia é um espelho. E o que vemos reflectido nele não é apenas a fúria de um povo, mas a nossa própria fragilidade como sociedade.

Na Índia, crentes atacaram um transformador elétrico porque uma vaca morreu de eletrocussão.


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