IMAGENS QUE NÃO PRECISAM DE LEGENDA PARA FERIR
Relíquia Sagrada ou Feitiçaria? O Duplo Padrão que Ainda Humilha a África
Um bispo, vestido de ouro e púrpura, ergue um crânio humano diante de uma multidão (como na imagem abaixo). Depois coloca-o delicadamente sobre a cabeça de uma estátua dourada de santa. Aplausos. Câmaras. Respeito. Chama-se relíquia. Chama-se fé. Chama-se tradição milenar da Igreja.
Agora imagine a mesma cena noutro continente. Um ancião africano manipula o crânio de um antepassado para lhe prestar homenagem, pedir orientação ou simplesmente manter vivo o laço entre os vivos e os mortos. De repente, a palavra muda. Já não é relíquia. É sorcellerie. Feitiçaria. Idolatria. Necromancia. Atraso.
A pergunta que ecoa é simples e brutal: quem é, afinal, o feiticeiro?
Durante séculos, o Ocidente construiu uma narrativa em que tudo o que não cabia no seu quadro de referência era imediatamente classificado como selvagem ou demoníaco. O termo “feiticeiro” não nasceu em África. Foi importado, imposto, e depois usado como arma. Tudo o que os europeus não compreendiam (chamar a chuva, comunicar com os antepassados, preservar ossos como memória viva) recebia o mesmo rótulo pejorativo. O que eles próprios faziam dentro das suas catedrais, porém, merecia outro nome: sacralidade.
Há quem diga que ambas as práticas são igualmente problemáticas. “Deixem os mortos aos mortos”, repetem, citando a Bíblia. Honrar antepassados seria idolatria. Manipular restos mortais seria necromancia. Mas esta posição, por mais coerente que pareça no papel, esquece um detalhe essencial: o poder de nomear. Quem detém a autoridade para decidir que o crânio de um santo europeu é veículo de graça e o crânio de um avô africano é porta para o demónio?
A diferença nunca esteve no gesto. Esteve no olhar de quem o julgava. Enquanto as relíquias cristãs são expostas em processões públicas, guardadas em relicários de ouro e veneradas por milhões, as práticas ancestrais africanas foram empurradas para a clandestinidade, ridicularizadas e, em muitos casos, criminalizadas. O mesmo objecto (um crânio) muda de natureza consoante a cor da mão que o segura e a língua que o descreve.
Alguns defendem que a veneração de relíquias não é obrigatória no catolicismo. É verdade. Mas isso não apaga o facto de que a Igreja, durante séculos, construiu a sua identidade à volta desses objectos. Os corpos dos mártires, os ossos dos santos, os fragmentos de madeira da cruz - tudo isso foi elevado à categoria de sagrado. Ao mesmo tempo, as sociedades africanas que faziam exactamente o mesmo com os seus mortos eram acusadas de bruxaria. A contradição é gritante.
Mais profundo ainda é o que esta dicotomia revela sobre o colonialismo cultural que ainda respira. Não se trata apenas de religião. Trata-se de quem tem o direito de definir o que é civilizado e o que é bárbaro. Quando o Ocidente guarda crânios em museus ou os levanta em missas, chama-lhe ciência, arte ou fé. Quando a África o faz, chama-lhe atraso. O rótulo não descreve a prática. Descreve a hierarquia de poder.
Hoje, muitos africanos continuam a viver esta tensão interior. Foram educados a rejeitar as tradições dos seus avós como “pagãs”, enquanto aceitam sem questionar as tradições dos avós europeus como “sagradas”. O resultado é uma identidade partida, uma vergonha herdada, uma memória que foi ensinada a esconder-se.
A verdadeira feitiçaria, talvez, não esteja no acto de tocar num osso. Esteja no acto de roubar a um povo o direito de nomear a sua própria espiritualidade. Esteja em transformar a diferença em inferioridade. Esteja em fazer de uma prática humana universal (a necessidade de manter contacto com os mortos) um crime quando praticada por certos corpos e uma graça quando praticada por outros.
O crânio é o mesmo. O gesto é o mesmo. A intenção, muitas vezes, também. Só muda o olhar que o observa. E enquanto esse olhar continuar a ser unilateral, a pergunta continuará a ecoar, incómoda e necessária:
Quem é, afinal, o feiticeiro?


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