A CUMPLICIDADE SILENCIOSA NA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Um Chamado à Consciência ao Deboche que Mata
Há uma verdade incómoda que teima em ser ignorada: a violência contra a mulher não se resume ao acto físico do agressor. Ela é precedida, acompanhada e, muitas vezes, celebrada por uma legião de cúmplices que nunca tocam na vítima, mas que lhe roubam a dignidade com palavras, risos e silêncios.
O que vemos repetidamente nas redes sociais e nas conversas de corredor é a manifestação de uma ferida profunda na nossa sociedade. Homens que passam dias a debochar de uma mulher, a sugerir, a insinuar, a reduzir a sua dor a uma anedota obscena. Enquanto uma franja (felizmente minoritária, mas barulhenta) comete os actos mais bárbaros, a maioria contenta-se em ser plateia. E nesse papel de espectador que se delicia, torna-se parte activa do problema.
Esta dinâmica perversa revela o quanto a violência de género é estrutural e sistémica. Não é um desvio de conduta de alguns indivíduos; é um fenómeno social que transcende fronteiras e classes, alimentado por séculos de desigualdade e pela naturalização do sofrimento feminino. Quando um homem se junta ao coro de zombarias, está a validar a violência. Está a dizer ao agressor: “O que fazes é aceitável, é engraçado, é merecido.” Está a construir um ecossistema onde a mulher é desumanizada antes mesmo de ser agredida.
E este é o ponto mais perturbador: a maioria dos homens não estupra, não mata. Mas a maioria debocha. A maioria minimiza. A maioria cala-se quando ouve uma piada machista. A maioria vira o rosto quando vê uma mulher ser assediada na rua. A maioria trata a violência contra a mulher como um problema “delas”, não como uma questão de todos.
O deboche é a porta de entrada para a violência física. É ele que cria o ambiente onde o agressor se sente seguro para agir. É ele que desmoraliza a vítima, que a faz duvidar de si mesma, que a isola. É ele que transforma o sofrimento alheio em entretenimento. E quando a violência chega ao extremo (quando a notícia do feminicídio estampa os jornais), os mesmos que antes debochavam agora se dizem “chocados”. Mas o choque é hipócrita, porque a cumplicidade já estava lá, nos dias anteriores, em cada riso, em cada comentário, em cada silêncio.
Há, sim, uma minoria que presta. Homens que recusam o papel de plateia. Que interrompem a piada. Que confrontam o amigo. Que acreditam que a dignidade da mulher não é negociável. Mas essa minoria não pode carregar o peso da transformação sozinha. É preciso que mais homens se juntem a ela. Que entendam que não basta não ser agressor; é necessário ser activamente contra a agressão. Que a violência contra a mulher não é um problema de “monstros”, mas de homens comuns que se recusam a ser cúmplices.
A mudança começa quando cada um de nós olha para dentro e pergunta: tenho sido plateia ou tenho sido agente de mudança? Tenho rido das piadas ou tenho confrontado quem as faz? Tenho-me calado ou tenho falado? Porque o deboche que mata não é apenas o do agressor; é também o de todos aqueles que, com o seu silêncio ou com o seu riso, lhe deram permissão para agir.
Que este texto sirva de alerta e de convite. A violência contra a mulher não é um espectáculo. É uma chaga. E curá-la exige mais do que indignação pontual; exige uma ruptura profunda com a cultura que a alimenta. Exige que a minoria que presta se torne maioria. Exige que cada homem se pergunte: de que lado da história quero estar?
![]() |
| Mulher desaparecida há cinco dias é resgatada amordaçada e acorrentada em Água Lindas de Goiás, Brasil. |

Comentários
Enviar um comentário