O CABELO "PODEROSO" E FANTÁSTICO QUE ABALOU O SISTEMA.
A Revolta "Agridoce" Silenciosa de Zulaikha Patel
Era Agosto de 2016 quando uma rapariga de treze anos, de uniforme escolar e cabelo afro solto ao vento, enfrentou seguranças privados e uma instituição centenária. O vídeo, gravado por um telemóvel e partilhado no Instagram, correria o mundo: Zulaikha Patel, de braços cruzados e punhos cerrados, olhava de frente para um sistema que lhe dizia que o seu cabelo natural era "exótico" e precisava ser "domado".
O que está em jogo quando uma escola, no século XXI, proíbe raparigas negras de usarem o cabelo como ele cresce? O que revela essa proibição sobre as feridas ainda abertas de um continente que se pretende livre?
A permanência do apartheid nos regulamentos
A Pretoria High School for Girls foi fundada em 1902 e, até 1990, era uma escola exclusivamente para brancas. Vinte e seis anos depois do fim oficial do apartheid, o seu código de conduta ainda prescrevia que os penteados deveriam ser "conservadores, limpos e em harmonia com o uniforme". Na prática, isso significava que as raparigas negras tinham de alisar o cabelo, prender as tranças ou evitar completamente o afro.
Zulaikha, que é filha de uma família mista com herança sul-africana e indiana, já havia ouvido desde a infância que o seu cabelo era "não natural". Mas foi no ensino secundário que a humilhação se tornou insustentável. E, com a coragem que só a adolescência sabe ter, ela fundou um movimento chamado "Stop Racism at Pretoria High School for Girls" e liderou uma marcha silenciosa que abalou o país.
Quando o cabelo é um instrumento de opressão
"Pedir-me para mudar o meu cabelo é como pedir-me para apagar a minha negritude",
~ disse Zulaikha mais tarde. A frase é curta, mas o peso é imenso.
Durante o apartheid, existia o chamado "teste do lápis": se um lápis colocado no cabelo de uma pessoa não escorregasse quando ela balançasse a cabeça, ela era classificada como negra e, portanto, sujeita a todas as restrições legais e sociais que essa condição impunha. O cabelo, lembra Zulaikha, "era uma ferramenta usada para impor opressão".
O que aconteceu em Pretoria em 2016 não foi, portanto, um episódio isolado de insensibilidade estética. Foi a recriação, em versão escolar e modernizada, de um mecanismo de controlo racial que remonta aos dias mais sombrios da história sul-africana. A diferença é que, desta vez, as raparigas negras não aceitaram calar-se.
A vitória e o que ela significa
A pressão pública, amplificada pelas redes sociais, forçou o Departamento de Educação de Gauteng a intervir. O código de conduta da escola foi suspenso e reavaliado. O protesto de Zulaikha e das suas colegas inspirou manifestações semelhantes noutras escolas do país, e a sua imagem tornou-se um símbolo da luta contra o racismo institucional em África do Sul.
Mas a vitória foi mais do que administrativa. Foi simbólica. Ao manter o cabelo afro durante o protesto, Zulaikha não estava apenas a desafiar uma regra escolar; estava a afirmar que a sua identidade não era negociável. Estava a dizer que o corpo negro, na sua expressão mais natural, não precisa de ser "domado" para ser aceite.
O que nos ensina esta rapariga de treze anos
Zulaikha Patel recorda que, no momento do protesto, foi ameaçada de prisão. Ainda assim, não recuou. "Estava a ser forçada a assimilar-me à branquitude e a uma imagem na qual eu não me encaixava", explica.
Há uma lição profunda aqui, que transcende as fronteiras da África do Sul e ecoa em Moçambique, no Brasil, em Angola, em Cabo Verde, enfim, em todos os lugares onde o cabelo crespo ou encaracolado ainda é, para muitos, sinónimo de "desleixo" ou "falta de profissionalismo". A luta de Zulaikha é a luta de milhões de pessoas que, todos os dias, são confrontadas com a expectativa de se encaixarem num padrão que não lhes pertence.
"Usar o meu cabelo solto faz-me sentir poderosa. Faz-me sentir livre. É um símbolo de liberdade para mim e também um símbolo da minha resistência",
~ afirmou ela anos depois.
O cabelo como território de resistência
O que Zulaikha Patel nos mostrou, com a sua coragem de treze anos, é que o cabelo não é apenas uma questão estética. É um território político. É o lugar onde a história da colonização, do apartheid e da escravatura ainda se inscreve, geração após geração. É o campo de batalha onde se decide, todos os dias, quem pertence e quem é excluído.
A escola que a quis domesticar acabou por ser desafiada por uma rapariga que recusou apagar-se. E, ao fazê-lo, Zulaikha não venceu apenas para si: venceu para todas as raparigas negras que, em qualquer lugar do mundo, ainda ouvem que o seu cabelo "não é natural".
Vinte e seis anos depois do fim do apartheid, uma rapariga de treze anos lembrou à África do Sul - e ao mundo - que a liberdade não se decreta; conquista-se. E que, por vezes, a mais poderosa das revoluções começa com um simples penteado.
O sistema ainda tenta dizer-nos como devemos ser. Cabe a cada um de nós, como Zulaikha, recusar ouvir.
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