"O TEU MARIDO ERA MEU IRMÃO": A MÃO QUE CONSOLA JÁ INVENTARIA O CORPO DO LUTO
Quando o consolo no funeral já mede o corpo da viúva. Há imagens que não precisam de legenda para nos atingirem em cheio. Um homem de fato preto e óculos escuros, o rosto composto na gravidade adequada ao momento, segura uma mulher curvada pela dor. Ela veste o negro do luto, o lenço na cabeça, o vestido de renda que o corpo ainda habita apesar da perda. A mão dele, porém, não paira no ombro da consolação. Desce. Acomoda-se demasiado baixo nas costas dela, quase na curva que o luto não conseguiu apagar. Ao lado, o caixão. Em volta, o branco da tenda e o silêncio dos que ainda fingem não ver. A frase que acompanha a fotografia é antiga e, por isso mesmo, perigosa: «O teu marido era meu amigo. Tu e os miúdos nunca vão sofrer.» A internet, com a crueldade lúcida que às vezes a salva, leu o que o protocolo funerário preferia deixar no escuro. Os «miúdos» de que ele fala talvez não sejam apenas as crianças que ficaram órfãs. A frase, dita no instante em que o corpo do amigo ainda não ...