A ENCENAÇÃO DA VIOLÊNCIA NA CENA DO CRIME
Quando a Justiça se Traveste de Vingança
Há imagens que nos obrigam a suspender a respiração. Não pela carnificina que exibem, mas pelo que revelam sobre a condição humana. O vídeo que circula nas redes sociais, captado nas movimentadas ruas da Índia, mostra um homem algemado a ser espancado por agentes da autoridade durante uma reconstituição do crime que teria cometido. O que deveria ser um procedimento técnico-científico, que é a reconstituição de um homicídio, acaba sendo ou transforma-se num teatro de violência onde a lei parece esquecer os seus próprios princípios.
A cena e o seu simbolismo
O suspeito, acusado de ter assassinado uma mulher, é conduzido ao local do crime para que os investigadores possam recriar os eventos. É neste contexto que os agentes, munidos de cassetetes, desferem golpes precisos e calculados. Um observador nas redes sociais comenta, com ironia mordaz: "Döven Polis Tam profesyonel... Her vurduğu tam isabet" que significa "A polícia que espanca é totalmente profissional... Numa tradução directa. Cada golpe é certeiro". A precisão dos golpes sugere prática, rotina, um ritual de violência que se repete longe das câmaras oficiais. Assista o vídeo ➡️ AQUI⬅️.
O que estamos a testemunhar? Seria esta a justiça em acção, ou antes a sua perversão? Vejamos.
A linha ténue entre justiça e vingança
A sociedade civilizada funda-se no princípio de que ninguém pode fazer justiça com as próprias mãos. Delegamos ao Estado o monopólio da violência legítima, na expectativa de que esta seja exercida com proporcionalidade, imparcialidade e respeito pela dignidade humana — mesmo daquele que se encontra sob suspeita. Quando os próprios agentes do Estado transgridem essa fronteira, o edifício jurídico que nos protege a todos começa a fissurar-se.
O espancamento de um suspeito durante uma reconstituição do crime não é um acto isolado. É sintoma de uma cultura mais profunda, onde a comoção pública e a sede de vingança se confundem com a administração da justiça. Há na sociedade contemporânea uma fome insaciável por punição imediata, por espetáculo expiatório. O suspeito é transformado em vilão absoluto, e qualquer violência contra ele parece justificada, digamos, como se o crime que cometeu o tivesse excluído para sempre da comunidade moral.
O teatro da violência e a sua audiência
Há algo de profundamente perturbador na encenação. A reconstituição do crime, o que também diríamos que é um instrumento forense concebido para elucidar factos, em todo caso, converte-se num palco onde se representa a punição. O suspeito é levado ao local, não apenas para reconstituir os seus actos, mas para ser submetido a uma violência que parece ritualística, quase coreografada.
Repetindo, a precisão dos golpes sugere que este não é um momento de descontrolo emocional, mas um procedimento que se repete, que se aperfeiçoa, que se institucionaliza.
E nós, espectadores dessa violência mediada pelos ecrãs, qual é o nosso papel? Ao partilharmos, comentarmos, indignarmo-nos ou, pior, aplaudirmos, estamos a alimentar o mesmo ciclo que condenamos. A violência torna-se espectáculo, e o espectáculo alimenta a violência.
O que fica quando a fúria se dissipa
A história está repleta de exemplos em que a sede de justiça imediata produziu injustiças maiores. O linchamento, a execução sumária, a tortura em nome da ordem — todos esses expedientes, apresentados como respostas à barbárie, acabam por barbarizar quem os pratica. A polícia que espanca um suspeito durante uma reconstituição do crime não está a restaurar a ordem; está a corroer a própria legitimidade da instituição que representa.
O homem algemado, no momento em que é espancado, é um ser humano. Independentemente do crime que tenha cometido, a sua humanidade não se extingue com o seu acto. É precisamente no reconhecimento dessa humanidade, que mesmo quando ela nos repugna, às vezes parece ainda que se funda a possibilidade de uma justiça que seja mais do que vingança.
Conclusão: a memória da violência
As imagens que circulam são um espelho. Reflectem não apenas o que aconteceu naquela rua da Índia, mas também a nossa própria relação com a violência, a punição e a justiça. Mostram-nos o abismo que se abre quando a dor da vítima é instrumentalizada para justificar novos sofrimentos.
A reconstituição do crime, na sua essência, é um acto de memória. Procura lembrar, recriar, compreender o que aconteceu. Mas o que fica gravado, neste caso, não é a verdade do crime original, mas a violência da sua encenação. A memória que se perpetua não é a do homicídio, mas a do espancamento. E essa memória, ao contrário do que talvez se pense, não honra a vítima — apenas acrescenta mais dor a um mundo já excessivamente doloroso.
A questão que nos fica, latejante como os golpes que ecoam no vídeo, é esta: quando a justiça se traveste de vingança, quem é realmente a vítima?
De: Capitão Phingli

Comentários
Enviar um comentário