A FÉ PODE SER MEDIADA POR UM TELEMÓVEL?
O Número de Deus e a Encenação da Fé: Quando o Sagrado se Torna Espectáculo
O vídeo que circula nas redes sociais causa um misto de choque e perplexidade. Um pastor, em pleno culto, com o telemóvel encostado ao ouvido, fala com Deus como quem fala com um familiar ao outro lado da linha. “Alô, é do Céu?”, pergunta ele, enquanto a congregação aplaude em euforia. A cena, captada num culto no Zimbábue, parece saída de um sketch de humor, mas para os fiéis presentes, é um momento de profunda espiritualidade ou pelo menos, assim lhes é vendido.
Este episódio, protagonizado pelo pastor Paul Sanyangore, que alega ter “um canal directo” e “o número” de Deus, oferece-nos uma matéria-prima rica para uma reflexão incómoda sobre o estado da fé contemporânea. Não se trata apenas de expor um possível embuste, mas de questionar: o que faz uma pessoa ajoelhar-se e crer que o Criador do Universo atende uma chamada telefónica durante um culto?
A Tecnologia como Novo Templo
Vivemos numa era em que a tecnologia media quase todas as nossas relações. O telemóvel é a extensão do nosso ser, a ponte para o mundo. Ao transplantar este instrumento para o espaço sagrado, o pastor Sanyangore não está a inovar; está, isso sim, a revelar uma verdade incómoda: a nossa dificuldade em conceber o divino sem os artefactos do nosso tempo.
A sua justificação é, no mínimo, provocadora: “Se Deus pode falar através de um burro [na Bíblia], porque é que não pode falar através de um telefone?”. E acrescenta: “Se uma pessoa não acredita que Deus fala ao telefone, porque é que acredita que Jesus andou sobre a água?”. A lógica é perigosa porque é sedutora. Ela nivela o mistério da encarnação e dos milagres bíblicos com um acto técnico, banalizando o sagrado ao colocá-lo ao alcance de um clique.
O que está em jogo aqui não é a possibilidade ou impossibilidade de Deus usar um telemóvel. A questão é mais profunda: a fé transformou-se num produto de consumo, e o pastor, num vendedor que precisa de criar espectáculo para manter a atenção da sua audiência. O “milagre” já não é uma experiência interior e transformadora; é um momento de teatro, validado por um aplauso da plateia.
O Espectáculo e a Vulgarização do Transcendente
Ao transformar a oração numa chamada telefónica, o pastor reduz a relação com o divino a uma transacção. Deus está “online”, disponível para atender pedidos, como um serviço de apoio ao cliente. A mulher ajoelhada, com os braços para o alto, não busca um encontro espiritual; busca uma solução para os seus problemas, os filhos com epilepsia e asma. E o pastor, como um intermediário moderno, fornece a resposta: “Deus está online e me pediu para dizer a você que a sua história mudou”.
Os críticos apontam o óbvio: do outro lado da linha, provavelmente, estava alguém que conhecia a história da mulher. Mas a questão não é a fraude em si, mas a cumplicidade de um sistema que a torna possível. Para que este número funcione, é necessário que exista uma audiência disposta a acreditar, uma fé que se alimenta mais de sinais externos do que de uma convicção interna.
A Fé como Relação, não como Número
A verdadeira fé, aquela que resiste ao teste do tempo e da razão, não se constrói sobre números de telefone ou canais directos. Ela constrói-se sobre a relação, a confiança e a experiência silenciosa do transcendente. O pastor defende que “não é uma questão de ter o número de telemóvel. É a minha relação com Deus”. Contudo, ao encenar esta “relação” em praça pública, ele a transforma num espectáculo, vulgarizando o que deveria ser íntimo e sagrado.
Este episódio é um sintoma de uma espiritualidade doente, que confunde o acessório com o essencial, o meio com a mensagem. Ele nos lembra que, por mais que a tecnologia avance, o vazio existencial humano continua a ser um terreno fértil para os vendedores de ilusões. O desafio, para aqueles que buscam um sentido verdadeiro, é recusar o espetáculo e optar pelo silêncio, um silêncio onde, talvez, se possa ouvir uma voz que não precisa de linha telefónica para ser ouvida.
Nota final: Este artigo não pretende julgar a fé de ninguém, mas sim reflectir sobre os mecanismos que, em nome da fé, podem transformar o sagrado num mero produto de entretenimento. A pergunta que fica é: se Deus te ligasse agora, o que Ele teria para te dizer que tu já não soubesses no silêncio do teu coração?
![]() |
| O pastor está ao telefone conversando com Deus no meio de um culto. |

Comentários
Enviar um comentário