A COROAÇÃO DE UM CHINÊS NO GANA GERA POLÉMICA NA ÁFRICA
A Coroa que Divide Opiniões: Quando um Estrangeiro é Rei e a Xenofobia Revela o Inimigo
A imagem é, no mínimo, perturbadora para quem ainda acredita que o progresso e a hospitalidade africana são valores inegociáveis. Um empresário chinês, Zheng Xiangming, é entronizado como chefe tradicional em Gana, em reconhecimento pelo investimento e criação de emprego no país. Recebe o nome de Hiowe Golaka Noryam Matse Nene Asumahtsu I. Numa cerimónia que deveria simbolizar o auge da integração e do respeito mútuo, a reação nas redes sociais foi imediata e, para muitos, envergonhante: "os próximos must stupid people in Africa são os Ganeses! Povo muito inútil!".
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| Empresário chinês, Zheng Xiangming, é entronizado como chefe tradicional em Gana. |
Esta reação não é um mero desabafo isolado. É o espelho de uma ferida aberta. O comentário, carregado de xenofobia e desprezo, revela algo mais profundo do que a simples discordância sobre a outorga de um título. Revela uma crise de identidade e uma amarga resistência em aceitar que o "outro" possa ser parte integrante do tecido social africano.
O que está verdadeiramente em causa quando um estrangeiro é elevado à posição de chefe tradicional? Para as comunidades que o entronizam, este ato é a mais alta forma de reconhecimento. Significa que o indivíduo transcendeu a condição de mero investidor para se tornar um membro da família, um guardião dos costumes e um líder com responsabilidades espirituais e sociais. Zheng Xiangming não está apenas a construir fábricas; o seu grupo investe no Gana há mais de 15 anos. O Presidente Mahama testemunhou o seu compromisso de longa data. A entronização é a coroação de uma relação que se quer perene, onde o capital estrangeiro se transforma em capital social.
No entanto, para os críticos, este gesto é visto como uma traição. Argumenta-se que a chefia tradicional é a última fortaleza da soberania cultural africana, e entregá-la a um estrangeiro é uma forma de submissão ou, na pior das hipóteses, de "estupidez". Este argumento, por mais emocional que seja, peca por ignorar a história. As chefias tradicionais em muitas regiões de África sempre foram dinâmicas. Incorporaram estrangeiros, assimilaram conquistadores e adaptaram-se às mudanças. A rigidez que alguns exigem é uma invenção moderna, uma nostalgia por um passado que nunca existiu de forma tão pura.
A xenofobia expressa no comentário viral não é sobre o chefe chinês. É sobre o medo. O medo de que o desenvolvimento, patrocinado por mãos estrangeiras, venha a diluir a identidade local. É o mesmo medo que alimenta ataques a negócios de imigrantes noutras partes do continente. É a projeção das nossas próprias inseguranças económicas e sociais num bode expiatório conveniente.
A verdade incómoda é que a criação de emprego, o investimento e o desenvolvimento raramente esperam pela perfeita harmonia cultural. Eles acontecem, e as comunidades adaptam-se. A entronização de Zheng Xiangming não é um sinal de que os Ganeses são "inúteis"; é um sinal de que são pragmáticos. Honram aqueles que honram a sua terra. Preferem um chefe que constrói parques industriais a um chefe que apenas ostenta títulos vazios.
O comentário xenófobo, ao tentar diminuir os Ganeses, na verdade, diminui quem o profere. Revela uma incapacidade de celebrar o sucesso alheio, especialmente quando esse sucesso é mediado por uma cultura diferente. É a voz do ressentimento que prefere ver o continente estagnado, desde que a "pureza" seja mantida.
A cerimónia em Accra deveria ser um momento de reflexão sobre o que significa ser africano no século XXI. Será que a africanidade se define pela cor da pele ou pelo compromisso com o destino do continente? Se um chinês pode ser chefe em Gana, isso não dilui a africanidade; expande-a. Mostra que o continente é um espaço de acolhimento, onde o mérito e a dedicação são reconhecidos acima da origem.
A lição que fica deste episódio é amarga. Enquanto celebrarmos a integração de estrangeiros com desconfiança e xingamentos, continuaremos a ser nossos piores inimigos. A xenofobia não é uma defesa da cultura; é a sua necrópole. O caminho para um continente próspero passa por reconhecer que os heróis do desenvolvimento podem vir de qualquer lugar, e que a sua coroa, quando bem merecida, deve ser motivo de orgulho, não de vergonha.

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