AINDA ESTAMOS NUMA ERA ONDE HÁ ILUSÃO DA PUREZA ENTRE RAÇAS
O Grito de Ódio e a Amnésia Colectiva no Coração de Lisboa
O ano é 2026, mês de Setembro e estamos em Lisboa, a cidade que historicamente se ergueu como um ponto de encontro de mares, línguas e culturas, vê-se hoje confrontada com um eco sombrio do seu próprio passado. Recentemente, circularam nas redes sociais narrativas que clamam pela expulsão de imigrantes e pela suposta "salvação" de uma identidade europeia em perigo, retratando bairros históricos como espaços "perdidos" ou "degradados". Bem, não era minha vontade escrever sobre isso, ainda que fosse a publicar como anónimo. Pois, ouvir coisas como este discurso, revestido de uma retórica de urgência e decadência, não é apenas um lamento urbano; é o sintoma de uma amnésia colectiva profunda e perigosa.
Quando se aponta o dedo à presença do outro como a raiz de todos os males, estamos a testemunhar não a defesa de uma cidade, mas a negação da sua própria essência vibrante e plural.
Para nós, em Moçambique, esta retórica soa com uma familiaridade perturbadora. É o mesmo eco que, em outros tempos, justificou a colonização e a desumanização, agora reciclado num vocabulário moderno de "segurança" e "preservação cultural". Contudo, a verdadeira cultura não se preserva em laboratórios de pureza étnica; ela sobrevive e floresce no atrito, no diálogo e na partilha do espaço público.
O medo do outro é, frequentemente, o medo de si mesmo. Ao rotular migrantes e minorias como a fonte exclusiva de criminalidade ou estagnação económica, cria-se um bode expiatório conveniente. Esta histeria colectiva serve para desviar a atenção das verdadeiras falhas estruturais: a ineficácia de políticas públicas, a corrupção e a incapacidade de construir sociedades verdadeiramente justas. A polícia que falha ou o político que se omite não são problemas causados pela presença de imigrantes; são falhas de governação que exigem responsabilidade cívica, não muros. Expulsar o outro é, em última análise, uma confissão de incapacidade de resolver os próprios problemas internos.
O convite à lucidez que aqui se faz é um apelo firme à memória. Não podemos permitir que o medo apague a história de que todos somos, em alguma medida, descendentes de migrantes, de viajantes, de pessoas que um dia buscaram um horizonte melhor.
No fim, a escolha que se coloca à sociedade contemporânea não é entre "nós" e "eles", mas entre a humanidade e a barbárie. Construir uma Europa, ou um mundo, verdadeiramente grande não exige a purificação das suas ruas, mas a coragem de enfrentar as suas sombras históricas e de reconhecer a dignidade inalienável de cada ser humano. Que a nossa resposta ao ódio seja a razão, à exclusão o abraço, e à amnésia, a memória teimosa de que, no fundo, a nossa liberdade está intrinsecamente ligada à liberdade do outro.
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