A FÉ QUE DÁ LIKE

Votos, Vaidade e o Poder do Sagrado Digital

Num domingo, 6 de Setembro de 2026, há escassos km da Ponta de Cabo Delgado, recebemos uma imagem que nos chega, o qual não é a da tradicional clausura silenciosa, mas a de duas jovens mulheres com hábitos lilás impecavelmente moldados, maquilhagem coordenada e sorrisos de influencer a fazerem uma selfie. Esta imagem, que facilmente poderia ser um anúncio de moda, é, na verdade, uma metáfora poderosa dos novos tempos: a era em que o sagrado se tornou tendência para capturar audiências.

Vivemos imersos na sociedade do espetáculo. Nela, o que não é visto, não existe. E é aqui que reside o paradoxo visual: há uma linha ténue que separa a devoção da estética, o êxtase místico do brilho digital. A Igreja, ciente do seu peso histórico e da sua influência moral, parece ter percebido que, para permanecer relevante, precisa de vestir a sua melhor "maquilhagem" estratégica.

O detalhe mais provocador reside na palavra "voto". As jovens da imagem fizeram votos de pobreza, castidade e obediência. No entanto, a sua apresentação pública parece desenhada para um outro tipo de votos: os votos eleitorais e os "likes" digitais, que testemunham a aceitação do poder virtual. Ao humanizarem-se e modernizarem-se, não estão apenas a quebrar paradigmas; estão a entrar no mercado das atenções, onde o carisma pessoal se transforma em capital político e religioso.

Nesta linha de pensamento que durou horas na sua elaboração, a reflexão de hoje é dura e necessária: será que a fé se vende melhor quando adornada com filtros? A resposta é complexa. Por um lado, a aproximação torna a instituição mais acessível, quebrando o gelo da austeridade. Por outro, reduz a transcendência a uma estratégia de marketing.

Em Moçambique, e no mundo, a voz da Igreja ainda tem um peso eleitoral imenso. A imagem destas noviças modernas é um trunfo político. A mensagem subliminar é clara: "Somos jovens, somos belos, somos acessíveis e estamos alinhados com o século XXI; votem em nós, sigam-nos". A fé deixou de ser apenas um caminho de salvação para se tornar um espelho das vaidades digitais.

Este não é um ataque à devoção, mas um alerta à banalização do sagrado. Quando o hábito se torna uma tendência de moda e a cerimónia religiosa um palco de captação de audiências, perdemos a essência do que é verdadeiramente transcendente. A beleza na imagem é inegável, mas pergunta-se: e a alma por trás do "like"?

O verdadeiro desafio para os crentes e para a sociedade não está em modernizar o visual, mas em não deixar que a mensagem de compaixão, justiça e verdade se perca nos algoritmos que apenas procuram o que é esteticamente agradável. Num domingo de introspeção, fica a questão: a fé que se vê é a fé que se vive, ou apenas a fé que se vende? A resposta, caro leitor, não se encontra no feed, mas no silêncio do coração.

A fé que se vê é a fé que se vive, ou apenas a fé que se vende?


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