O REGRESSO DO PROVEDOR
Memórias de um Pai Entre o Rio Lugenda e a Modernidade
Por: Paulino Intepo, Cronista das Memórias e Tradições Moçambicanas
Há imagens que o tempo não apaga, antes cristaliza na alma como joias preciosas. Uma delas é a do meu pai a regressar a casa, sempre com algo nas mãos, sempre com um propósito que transcendia o simples acto de chegar. Nascido e criado em Mitande, entre a selva e o rio Lugenda que serpenteia o distrito de Mandimba, no Niassa, cresci no período pós-guerra dos 16 anos, nos finais da década de 80, mergulhado numa comunidade pobre, mas tradicionalmente forte e humilde.
Ali, a masculinidade não se media pela quantidade de vezes que o país se zangava em casa – como por vezes acontecia –, mas pelo destaque do homem como provedor. O meu pai viajava muito de moto, sua paixão confessada, e nunca regressava de mãos vazias. Cresci entre os distritos de Mecanhelas, Maúa, Cuamba, Metárica e Cuamba de novo, acompanhando-o enquanto exerceu funções como técnico de agricultura durante dois anos, seguindo-se duas décadas como director distrital nos distritos já mencionados até à sua morte, em Novembro de 2004. Mesmo quando já não viajava para longe, nas saídas que fazia dentro da vila, trazia sempre algo para se comer em casa.
Era um espectáculo: bens como mobiliário, ferramentas, vestuário, livros e material escolar. Mas o hábito era vê-lo com algo nas mãos, carregado na sua moto, e a gente corria para o receber com alegria e ternura. Bastava notar a sua aproximação para largarmos tudo o que fazíamos e corrermos ao seu encontro. E nos dias em que não trazia nada? (risos) Corríamos para o abraçar pelo simples facto de ter voltado, e ríamos enquanto ele perguntava como estávamos e o que fazíamos. Às vezes, era a nossa mãe que alertava: "Papá está a vir, corram vão receber" – como que a lembrar-nos do ritual.
Naquela época, vê-lo voltar era um troféu. O país emergia de uma crise profunda, onde muitos homens haviam tombado no conflito da luta de libertação e na guerra civil. A sua presença era sinal de que ele escolhera, mais um dia e mais uma vez, ficar connosco e não arranjar outra mulher nem constituir outra família. Talvez tivesse sido esse o motivo que levou muitos homens da sua geração a serem polígamos. Mas o hábito era mesmo vê-lo regressar sempre com algo na mão para nós, sinal de que, onde estava, lembrava-se de casa e saíra por necessidade de arranjar sustento para os seus dependentes – que éramos nós.
Falar do meu pai com estas memórias é falar de todos os homens de um tempo que interpretavam a masculinidade como responsabilidade suprema de provedor – da educação, protecção e alimentação – enquanto à sua parceira cabia a maternidade perfeita, desde a geração do homem até à gestão dos recursos adquiridos, aos cuidados internos dos seus – marido, filhos e demais sob sua alçada – sem se importar com discriminações entre a linhagem familiar do marido ou a sua própria. Era uma divisão de tarefas natural que trazia sempre paz, harmonia, alegria e prosperidade. Não tínhamos luxo nem bens que definissem riqueza ou servissem de ostentação, mas tínhamos algo maior: a família - base de toda formação nacional.
Essa imagem do homem com plásticas nas mãos, a transparecerem alimentos – ainda que não fosse rancho mensal –, as crianças a correrem alegres na sua direcção, a esposa ao fundo com um sorriso que transmitia felicidade, embora esta esteja com cara trancada o qual não devia, traz-me uma nostalgia profunda e saudades do meu pai. Do tempo em que não tinha responsabilidade senão saber ser filho, entre travessuras, deveres de casa, escola e tudo o que o ambiente das vilas por onde passei proporcionava.
Não havia muito, não havia tecnologia, mas a vida era tão intensa junto da natureza e em comunhão que parecia Jesus e Deus estarem na próxima esquina, enquanto nos ensinavam a venerar os nossos antepassados e entes queridos como intercessores entre o carnal e o divino.
Quanta coisa mudou! Agora, pais e filhos e demais vínculos só se conhecem através de leis e redes sociais. Ao invés de mais próximos, estamos tão distantes uns dos outros que a coisa de viver já não parece uma dádiva, mas um desafio de sobrevivência sucessivo e derradeiro a cada dia. Os pais saem de madrugada com os filhos a dormirem, voltam tarde com eles já sonolentos ou a dormirem. Percorrem quilómetros para trabalhar, o saldo cai nas contas, pagam-se as despesas através de transacções electrónicas, e os outros bens são trazidos por encomenda através de empresas que também empregam outros seres humanos humildes – quem recebe é a empregada que, junto das instituições e empresas privadas, educa, forma e molda os filhos. Os pais nem se dão conta das dificiências, habilidades e capacidades, entre paixões e medos que os filhos têm; nem os filhos sabem bem dos pais. O pior de tudo, quando junta está a família, filhos vivênciam uma disputa de poderes, motivada pelo exterior que perpétua o feminismo com imponderamento do género e o machismo dos homens fracos e irresponsáveis.
Triste realidade, mas é o fruto do progresso, da evolução, do desenvolvimento. Cabe-nos saber viver com isso, como as outras civilizações lutam para equilibrar tudo aquilo que, para nós, é demoníaco – porque destrói o nosso tecido social, perturba a tapeçaria cultural e infla o nosso ego pelo material, ignorando o essencial da vida em comunidade e como parte da natureza que devemos preservar.
Mas há memórias que resistem. E enquanto houver alguém que se lembre do regresso do provedor, com o seu sorriso cansado e as mãos cheias de gestos de amor, a esperança renasce – como a própria vida junto ao rio Lugenda, que nunca deixa de correr.
![]() |
| Anónimo: O regresso do provedor. |
Assinado como amor e ternura, por: Paulino Intepo, Cronista das Memórias e Tradições Moçambicanas.

Comentários
Enviar um comentário