A METRALHADORA DE UM SÓ BRAÇO
A Lição de Resiliência que o Iémen dá ao Mundo
Há imagens que não precisam de legenda para nos atingir em cheio. Um homem com um único braço a disparar uma metralhadora montada numa carrinha não é uma cena de cinema. É a fotografia crua de uma guerra que já dura há demasiado tempo e que o mundo aprendeu a ignorar. É esta a imagem que me faz parar e pensar: o que transforma um ser humano num combatente que, mesmo mutilado, continua a puxar o gatilho?
A resposta não está nos manuais de estratégia militar recomendados pela academia, escolas, institutos, centros de formação militar etc. Está na história de um povo que foi empurrado para o limite da sobrevivência e que, em vez de se render, decidiu que ainda tinha algo por que lutar. O Iémen não é apenas um ponto num mapa do Médio Oriente. É o retrato de uma resistência que nasce não da ideologia, mas da necessidade. Quando tudo o que resta é a vida nua, a luta torna-se instinto.
Vale a pena recuar no tempo para entender como se chegou aqui. O Iémen vive, desde 2015, sob uma campanha militar liderada pela Arábia Saudita, com apoio logístico e armamentístico de potências ocidentais. O objetivo declarado era restaurar o governo deposto e conter o avanço dos houthis, um movimento armado de matriz zaidita que controla a capital, Sanaa, e grande parte do norte do país. O que se seguiu foi uma das piores catástrofes humanitárias da história recente: bombardeamentos indiscriminados, um bloqueio que estrangula a entrada de alimentos e medicamentos, e uma população de mais de quarenta milhões de pessoas empurrada para o limiar da fome.
E, no entanto, os houthis não desapareceram. Pelo contrário, consolidaram posições, expandiram o seu controlo territorial e transformaram-se numa força capaz de ameaçar diretamente a navegação no Mar Vermelho, uma das rotas comerciais mais vitais do planeta. Como é possível que um movimento que enfrenta uma coligação de Estados ricos em armamento tenha conseguido não só sobreviver, mas contra-atacar?
A resposta está precisamente naquele braço amputado. Não se trata de heroísmo romântico, nem de uma narrativa que glorifica a violência. Trata-se de uma verdade incómoda: quando um povo é encurralado, a sua capacidade de suportar dor e privação ultrapassa qualquer cálculo estratégico convencional. Os houthis souberam capitalizar esse sofrimento. Transformaram a devastação em argumento, a fome em bandeira, a destruição em prova de que o inimigo não tem limites. Cada criança que morre num hospital sem medicamentos torna-se, para eles, mais um motivo para continuar a lutar. É uma lógica perversa, mas é a lógica que a guerra impõe.
E é aqui que a reflexão se torna desconfortável. Porque, ao olharmos para aquele combatente, não podemos deixar de nos perguntar até que ponto a sua determinação é uma escolha ou uma fatalidade. Ele não nasceu com um único braço. Perdeu-o. Talvez num bombardeamento, talvez num combate, talvez numa mina. E, ainda assim, lá está ele. A disparar. A resistir. A existir.
Há quem veja nisto uma prova de fanatismo. Há quem veja uma prova de coragem. Eu vejo uma prova de que o ser humano, quando não tem mais nada, agarra-se àquilo que lhe resta com uma força que desafia a razão. Os houthis podem ser tudo o que os seus críticos dizem que são: um movimento autoritário, repressivo, alinhado com Teerão. Mas reduzir a sua resistência a uma simples questão de obediência ideológica é ignorar a realidade de um povo que foi bombardeado até ao osso e que, mesmo assim, se recusa a desaparecer.
A guerra no Iémen não é um conflito distante que não nos diz respeito. É um espelho das contradições do nosso tempo. Mostra-nos como as potências globais continuam a tratar o Médio Oriente como um tabuleiro onde se jogam interesses estratégicos, enquanto milhões de vidas são reduzidas a estatísticas. Mostra-nos como o bloqueio saudita, com o silêncio cúmplice de muitos, transformou um país inteiro numa prisão a céu aberto. E mostra-nos, sobretudo, como a resiliência de um povo pode ser simultaneamente a sua maior força e a sua maior tragédia.
Aquele homem de um só braço não é um símbolo de vitória. É um símbolo de sobrevivência. E a pergunta que devemos fazer não é como é que ele continua a lutar, mas sim porque é que o mundo continua a permitir que ele tenha de o fazer.

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