A ETIÓPIA JÁ NASCEU EM 2019. NÓS CONTINUAMOS A CONTAR O ANO DOS OUTROS

Parabéns 🎉 Feliz Ano Novo aos nossos irmãos e irmãs na Etiópia

Há publicações que parecem apenas cortesia digital e, no entanto, rasgam o véu da nossa amnésia. Uma mensagem simples (parabéns e feliz Ano Novo aos irmãos e irmãs da Etiópia) acompanhada da imagem de jovens vestidas de branco bordado, faixas de cores vivas sobre o peito, tranças adornadas e o sorriso de quem não precisa de autorização para existir, chegou hoje às redes como se fosse um detalhe festivo. Não é. É um espelho. Enquanto o calendário gregoriano insiste em setembro de 2026, a Etiópia atravessa o limiar de Meskerem e entra no ano de 2019. O contraste não é folclore. É filosofia política escrita em tempo.

Enkutatash significa, na memória viva do povo, a oferta de joias. A tradição diz que, no regresso da Rainha de Sabá (Makeda) da visita a Salomão, os chefes recompuseram o tesouro com pedras preciosas. O nome ficou. Mas o que se celebra não é apenas o mito. É o fim das chuvas longas, a terra que volta a respirar, a flor Adey Abeba que amarelece os caminhos e o recomeço agrícola de um país que nunca entregou o relógio a quem chegou de navio. O ano etíope não começa em janeiro porque janeiro é uma convenção alheia. Começa quando a natureza africana declara que o ciclo mudou. Há nisso uma lucidez que o nosso continente, tão habituado a importar datas, feriados e urgências, teima em não contemplar.

Olhar para aquelas mulheres no meio da multidão é perceber que a soberania também se veste. O branco do habesha kemis não é uniforme de museu; é pele cerimonial. As cores do xaile não são adorno turístico; são continuidade. A fotografia que circula não pede palmas ao exótico. Pede reconhecimento. Durante séculos ensinaram-nos que o tempo verdadeiro era o de Roma, depois o de Greenwich, depois o do mercado que abre em Nova Iorque e fecha em Londres. A Etiópia, que não foi colonizada no sentido clássico da ocupação administrativa europeia, guardou o calendário como se guarda uma língua sagrada: treze meses, o Ge’ez a pulsar por baixo do amárico, sete ou oito anos de diferença em relação ao relógio que o mundo chama de universal. Essa diferença não é atraso. É recusa.

Chamamos universal ao que apenas foi vitorioso. O mapa de Mercator encolheu África e dilatava a Europa; o calendário gregoriano fez o mesmo com o tempo. Reduziu a diversidade dos ciclos humanos a uma linha única e depois acusou de atrasados quantos não couberam nela. A Etiópia responde, todos os onze de setembro, que o ano pode nascer noutro sítio. Que a Anunciação se conta de outra maneira. Que a terra, depois da estação das águas, tem o direito de recomeçar sem consultar Bruxelas, Washington ou o algoritmo que decide o que é tendência. Há uma dignidade quieta nesse gesto. Não grita. Não pede inclusão no calendário alheio. Simplesmente vive o seu.

Nós, moçambicanos, conhecemos o preço de viver no relógio de outrem. Celebramos o 25 de Junho e, no dia seguinte, voltamos a organizar a vida segundo prazos, trimestres e “anos fiscais” que não nasceram da machamba nem do rio. Importamos o 1 de Janeiro com a mesma naturalidade com que importamos diagnósticos sobre o nosso atraso. Raramente perguntamos: atraso em relação a quê? Em relação a quem? A Etiópia, ao entrar em 2019 no mesmo dia em que o resto do planeta ainda conta 2026, expõe a farsa com a delicadeza de uma festa. Não precisa de manifesto. Basta existir noutro tempo.

Há quem reduza Enkutatash a cartão de felicitações e a dança filmada para redes. É o reflexo da nossa pobreza simbólica. Transformamos o sagrado em conteúdo e o conteúdo em scroll. Mas o fundo permanece: um povo que marca o recomeço pela terra e não pelo decreto, que liga a memória da rainha à sobrevivência do Estado, que recusa a ideia de que África só entra na História quando alguém de fora lhe dá a hora. A mesma África que em Adwa já tinha desmentido a inevitabilidade imperial continua, cada setembro, a desmentir a inevitabilidade temporal.

O silêncio com que muitos africanos passam por esta data diz mais do que os discursos oficiais sobre integração continental. Falamos de União Africana, de passaporte comum, de mercado único, e continuamos a acordar no dia 1 de janeiro como se o nosso espírito tivesse de pedir visto ao calendário ocidental. A Etiópia não é perfeita (nenhum país o é) e o seu presente conhece feridas profundas. Isso não anula o facto de ela ter preservado uma arquitetura do tempo que o colonialismo não conseguiu substituir por completo. Preservar um calendário é preservar a possibilidade de narrar a própria origem.

Talvez o constrangimento esteja aí. Aceitar que um país africano vive noutro ano obriga-nos a admitir que a modernidade que copiámos não é o único relógio possível. Obriga-nos a ver que a nossa pressa, o nosso “estamos atrasados”, o nosso complexo de chegar sempre depois, foi em grande medida ensinado. O império não levou apenas ouro e braços. Levou a medida dos dias. Devolveu-nos um ano que começa no inverno alheio e chamou-lhe universal.

Hoje, enquanto jovens etíopes atravessam a rua com flores e tambores, a pergunta que fica não é se devemos copiar o Enkutatash. Seria outra forma de mimetismo. A pergunta é outra, mais incómoda e mais necessária: em que ano estamos realmente a viver? No ano das nossas colheitas ou no ano das folhas de Excel? No tempo das nossas avós ou no tempo das notificações? No ciclo da terra que conhecemos ou no ciclo da validação externa?

A publicação que cumprimenta a Etiópia acerta no essencial ao falar de irmãos e irmãs. África não precisa de unanimidade cultural. Precisa de deixar de tratar como excentricidade aquilo que é, simplesmente, outra forma de estar no mundo. O branco das túnicas, o ouro das cruzes, o amarelo da Adey Abeba e a diferença de sete anos não são pormenores etnográficos. São prova de que o continente ainda possui reservas de sentido que não passaram pelo crivo de quem nos desenhou o mapa e nos vendeu o calendário.

Que o ano novo etíope nos encontre menos disponíveis para a amnésia. Que nos encontre capazes de felicitar sem reduzir, de admirar sem exotizar, de reconhecer sem copiar. A Etiópia já começou 2019. O resto de nós pode continuar a dizer 2026. Mas já não poderá fingir, com a mesma inocência de antes, que existe um só começo para o tempo humano - e que esse começo nos foi generosamente emprestado.



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