O ESPELHO CRUEL DE UMA REALIDADE QUE INSISTE EM NÃO MUDAR

Ainda em 2026, a África Ainda Evacua Doentes de Bicicleta e Como?

Uma mulher deitada numa rede improvisada ao longo de um pau, suspensa entre duas bicicletas, é transportada por um caminho de terra batida e caminhos que os pés das pessoas e bicicletas fazem, entre casas de adobe e telhados de colmo. À sua volta, a vida continua: árvores verdes, um homem que empurra outra bicicleta, o sol a bater no chão avermelhado. A legenda é seca e directa: evacuação sanitária num país africano em 2026.

Evacuação sanitária num país africano em 2026.

Esta cena não é ficção nem nostalgia, muito menos teatro. É o retrato vivo de um continente onde, em pleno século XXI, o acesso a cuidados de saúde de emergência continua, em muitas zonas rurais, a depender da força humana, da inventividade comunitária e de meios que o resto do mundo considera ultrapassados há gerações.

A rede entre duas bicicletas suspensa no pau, não é apenas um meio de transporte. É um manifesto silencioso. Diz-nos que, onde não chegam ambulâncias, estradas asfaltadas ou sistemas de emergência organizados, as pessoas não esperam. Inventam. Adaptam. Carregam o peso do corpo doente com os próprios braços e com a solidariedade do vizinho. Há, neste improviso ou improvisação, uma dignidade profunda e uma resiliência que merece ser reconhecida. Mas há também uma denúncia: a de um atraso estrutural que teima em persistir.

Porque é que, em 2026, ainda se recorre a este tipo de evacuação? As respostas são múltiplas e interligadas. Em vastas regiões africanas, as distâncias entre aldeias e centros de saúde continuam enormes. As estradas, quando existem, são sazonais, intransitáveis na época das chuvas, ou simplesmente inexistentes. Os veículos motorizados são escassos, caros de manter e muitas vezes concentrados nas cidades. Os sistemas de saúde, apesar de progressos registados em alguns países, sofrem com subfinanciamento crónico, falta de pessoal e de equipamentos, e com a prioridade dada a outras urgências políticas e económicas.

Há quem veja nesta imagem apenas atraso. Outros, porém, encontram nela a prova de que as comunidades africanas nunca desistiram de cuidar dos seus. A inventividade de transformar bicicletas comuns num dispositivo de transporte sanitário é a mesma que, noutros contextos, cria soluções locais para problemas globais. É a expressão de uma solidariedade que o Estado, muitas vezes, não consegue garantir. É a afirmação de que a vida humana continua a valer o esforço colectivo, mesmo quando os recursos são mínimos.

No entanto, celebrar apenas a resiliência corre o risco de romantizar a precariedade. A verdade é que nenhuma mulher, nenhum homem, nenhuma criança deveria precisar de ser baloiçada entre duas bicicletas para chegar a um posto de saúde. A dignidade exige mais. Exige estradas, exige ambulâncias funcionais, exige sistemas de referência e de evacuação que funcionem de forma previsível e humana. Exige que o direito à saúde deixe de ser uma aspiração distante e se torne uma realidade quotidiana.

Esta imagem de 2026 obriga-nos a uma reflexão mais vasta. Em que medida o desenvolvimento africano tem privilegiado as zonas urbanas em detrimento das rurais? Em que medida as políticas de saúde pública continuam a ser desenhadas a partir de capitais, sem ouvir verdadeiramente as necessidades das periferias? Em que medida a ajuda internacional e os investimentos nacionais têm sido capazes de chegar às últimas milhas - aquelas que se percorrem a pé ou de bicicleta?

A resposta não pode ser apenas técnica. Tem de ser ética e política. Tem de partir do reconhecimento de que a desigualdade no acesso à saúde não é um destino, mas uma escolha colectiva ou, pior, uma omissão. Enquanto houver comunidades a improvisar redes entre bicicletas, o continente continuará a carregar uma ferida aberta: a de um progresso incompleto, que beneficia uns e deixa outros à margem.

Ao mesmo tempo, esta cena contém uma lição de esperança. Porque se as pessoas são capazes de criar soluções com tão pouco, imagine-se o que poderiam fazer com recursos adequados, com formação, com infraestruturas e com vontade política genuína. A inventividade africana não precisa de ser permanentemente posta à prova pela escassez. Pode e deve ser libertada para criar sistemas mais justos, mais eficientes e mais humanos.

Em 2026, a imagem de uma evacuação sanitária feita de bicicleta e rede não deveria já existir. O facto de existir é um apelo. Não apenas à compaixão, mas à acção. Não apenas à indignação, mas à responsabilidade. Porque o verdadeiro desenvolvimento não se mede apenas pelo número de hospitais nas grandes cidades ou pelo volume de investimentos anunciados. Mede-se pela capacidade de chegar a tempo, com dignidade, a quem está mais longe.

Enquanto essa capacidade não for universal, a rede entre duas bicicletas continuará a ser, ao mesmo tempo, um gesto de solidariedade e um grito silencioso. Um grito que nos lembra que a África não precisa apenas de ser admirada pela sua resiliência. Precisa, sobretudo, de ser acompanhada na construção de um futuro em que ninguém mais tenha de ser transportado assim.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O REGISTO QUE O AMANHÃ NÃO PERDOA

É POR ISSO QUE NÃO DEIXAMOS ESPOSAS IREM AO GINÁSIO?

CASADAS EM CASA, SOLTEIRAS NO SERVIÇO