A IRONIA DA INVULNERABILIDADE: QUANDO O AMULETO FALHA E A FÉ NÃO PROTEGE OS TERRORISTAS.

Se é por Allah que Cometem Atrocidades, por que os Terroristas Africanos Precisam de Talismãs de Magia Negra?

Tenho dito quando me perguntam, o porquê destes textos ou reflexões ao invés de escrever livros? É que livro preciso de mais tempo, estrutura e um sistema sofisticado de uma cultura que não me agrada me submeter (bajular editores). Já este textos curtos, apenas compensam e satisfazem as minhas insónias e curiosidades sobre a humanidade. 

Já por agora, a imagem que ilustra este artigo é um retrato cru e silencioso do paradoxo que assola os campos de batalha do continente africano. Sobre a terra árida, um homem jaz inerte, vítima das suas próprias armas ou das forças que lhe fizeram frente. Ao seu lado, uma fiel AK-47 e um rádio transmissor que outrora coordenavam os ataques. Mas o detalhe mais perturbador não está na tecnologia de morte, e sim no que ele carrega junto ao corpo: um amuleto de corda, entrelaçado com um objecto envolto em mistério, sobre a sua barriga. Este é o fetiche que deveria torná-lo invulnerável (blindado, imortal).

A ironia da invulnerabilidade e o preço humano da guerra.
Todavia, a vida deixou o corpo. A pergunta que ecoa é a mesma que propomos neste artigo: se é por Allah que cometem atrocidades, por que precisam, ainda assim, de magia negra nos combates? Por isso chamar desses jovens idiotas, embora inocentes é um elogio. Esses são burros mesmo, independentemente de outras ideologias que lhes faz seguir essa via para reeivendicar qual coisa aos seus opositores e ao mundo em geral. 

O Sincretismo Beligerante nas Guerras Africanas

Nas franjas do Sahel, no Corno de África e nas florestas da região dos Grandes Lagos, até mesmo aqui em Cabo Delegado ao lado onde este texto foi escrito (Palma), assistimos a um fenómeno antropológico que desafia a teologia. Grupos como o Al-Shabaab, o JNIM e o Boko Haram pregam um Islão radical e purista, que condena veementemente a idolatria e a feitiçaria. Contudo, na prática, os seus combatentes, muitas vezes jovens recrutados à força, não entram no campo de batalha sem os seus amuletos. Estes objectos inúteis, que podem ser ossos ou peles de animais, pedras ou nós de corda e raízes, representam a crença ancestral e espiritual de que a "protecção divina" precisa de um suporte material.

Esta contradição não é um acidente. Ela revela a face de um terrorismo que usa a religião como instrumento de poder, mas que, no fundo, conhece a fragilidade do corpo humano. Aliás, é como dizer, o islão precisa da religião tradicional africana para derrubar outras e se estabelecer e depois banir quem lhe trouxe? Não sei. Procure um jovem terrorista e conversem... 

A Lógica do Medo e a Psicologia da Sobrevivência

A razão pela qual recorrem a estes talismãs de magia negra talvez seja, ou é simplesmente o medo. Isso é o que eu sei. Por mais fanáticos que sejam os discursos dos seus líderes, a realidade da guerra, com as suas balas, estilhaços e bombas, é aterradora. O amuleto funciona como uma âncora psicológica; ele devolve ao combatente a ilusão de controlo sobre o seu destino. Longe dos centros teológicos e dos teólogos que condenam estas práticas, nas trincheiras, o que vale é a sensação de protecção imediata.

No entanto, há uma profunda ironia neste acto, que quase transpareciamos no início desta reflexão. Ao mesmo tempo que gritam "Allahu Akbar" e destroem mesquitas ou santuários que consideram idolatras, estes homens confiam a sua vida a um pedaço de corda, ossos, pele de animais ou raízes e até óleo e sangue de animais. É a mais pura manifestação do shirk (politeísmo) que o Islão estritamente condena por norma da sua beleza como religião. 

Teologia versus Superstição: O Vazio Espiritual

A fé em Allah é construída sobre os pilares da confiança plena no Criador. O Alcorão é claro ao afirmar que a vida e a morte estão nas mãos de Deus, e não nos encantos ou fetiches de um feiticeiro. Quando os terroristas optam pela "magia negra" – que frequentemente envolve sacrifícios, sangue e pactos com entidades espirituais de matriz animista – eles estão, ainda que inconscientemente, a admitir que a sua "jihad" não é suficientemente divina.

O Manifesto Fracasso dos Amuletos nos Campos de Batalha

Os dados da guerra, infelizmente, não mentem. Relatórios de organizações de defesa dos direitos humanos e análises militares apontam que, apesar destes rituais, as baixas entre as fileiras terroristas são avassaladoras. A imagem do combatente caído com o seu fetiche é a prova definitiva de que a "protecção" é uma falácia. O que falha não é a fé em Deus, mas sim a violência como método. O talismã não pode parar uma bala, assim como a ideologia extremista não pode construir uma nação próspera.

O que vemos não é uma contradição isolada, mas sim a falência de uma liderança que, ciente de que o seu projecto político (baseado no terror) está condenado, manipula a superstição dos jovens como uma muleta para mantê-los na linha de frente. Digam aos jovens em risco ou vulnerais às propagandas dos que aliciam. 

O Custo Humano do Misticismo Belicoso

Por detrás da fotografia de um combatente morto, há uma história muito maior. Há uma mãe em Nampula ou em Quelimane que perdeu um filho recrutado à força; há uma comunidade em Cabo Delgado que, apesar de também praticar os seus ritos ancestrais de forma pacífica, vê o seu sincretismo ser violentamente deturpado por estes extremistas. A abordagem humanizada deste texto exige que vejamos para além da carne morta.

Esses jovens não são apenas terroristas; são, em grande parte, vítimas de uma lavagem cerebral que usa o medo do sobrenatural para manter a sua obediência. O cinto com os furos e o amuleto sobre o abdómen são o símbolo de uma juventude roubada pela guerra que surge por excesso de corrupção dos dirigentes, ganância, arrogância, prepotência, etc e sobre um povo pacífico com falta de educação suprema que vele para o seu bem-estar comum e colectivo em detrimento de confiar em desonestos.

A Falência Espiritual e o Recurso ao Paganismo

A raiz do problema não está na crença em entidades espirituais, mas na disfunção dos líderes. Ao recorrer à magia negra, os comandantes terroristas revelam a sua própria falência teológica. Eles não confiam na força do seu discurso religioso para inspirar os soldados, por isso, recorrem a "medicinas tradicionais" ou a pactos obscuros para coagir e enganar a sua base. É a prova de que o terrorismo não tem alicerces morais; tem apenas objectivos de poder e domínio territorial, obtidos através da exploração da fé e da superstição.

OK, nesse episódio até onde paramos?

Chegamos ao ponto final da reflexão. A imagem do combatente imóvel, com o seu fetiche de invulnerabilidade, é uma metáfora da própria morte da ideologia terrorista. A violência nunca foi um caminho divino. Ela é, na verdade, uma profanação da espiritualidade, reduzindo a fé a um objecto de corda e o corpo a um instrumento de morte.

A verdadeira força do continente africano, a sua magia mais genuína, não está em nós de corda ou em encantamentos de guerra. Está na resiliência das suas comunidades, na sua cultura diversa e no desejo inato de viver em paz. Ao falhar o amuleto e ao perder a vida, o combatente leva consigo a derradeira lição de que a verdadeira fé não é uma armadura contra as balas, mas sim um escudo contra o ódio. Enquanto continuarem a confiar em fetiches para matar, continuarão a cair diante daqueles que lutam não por "magia", mas pela humanidade, que é a única coisa que verdadeiramente nos pode salvar.

Por: Paulino Intepo - in: Três Noites Sem Sono.

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