QUANDO A COMUNIDADE VIRA JUIZ
O Rosto Ferido da Justiça Quando a Polícia Não Chega a Tempo
Há um momento em que a paciência colectiva se esgota e instala-se a raiva, que se pode confundir com a fúria. Não é um grito teórico nem um debate académico como tantos outros assuntos por nós cá anteriormente abordados. É o som de um carro arrombado às três da manhã, o silêncio cortado por passos furtivos, o telemóvel desaparecido e, minutos depois, o corpo de dois homens a ser entregue à fúria de quem já não acredita que o sistema vai resolver alguma coisa.
Em Kimberley, na África do Sul, dois suspeitos de terem invadido um veículo e roubado telemóveis foram apanhados. A polícia recuperou os objectos. Mas antes disso – ou paralelamente a isso – a comunidade, o umphakathi, já tinha falado com golpes duros sobre os Suspeitos. E falou com os punhos, com os pés, com a raiva acumulada de noites sem sono e de uma rotina de medo.
As imagens que circularam mostram rostos inchados, lábios partidos, marcas que não se escondem. Um comentário simples e cru resumiu o óbvio: aquilo já não era só punição. Era desfiguração. “Feio como o pecado”, disse alguém. E a frase ficou a ecoar porque, de facto, o que resta desses rostos é a prova física de uma justiça que deixou de ser justiça e passou a ser catarse.
Não se trata de romantizar a violência de alguma forma. Espancar alguém até o deixar irreconhecível não é heroísmo, nenhum. É o sintoma de um Estado que falhou repetidamente em garantir a segurança básica. Quando a polícia chega depois, quando os processos demoram anos, quando os mesmos nomes voltam às ruas poucos meses depois de terem sido detidos, a comunidade começa a calcular o risco de forma diferente.
O cálculo é simples e brutal: se o sistema oficial não protege, alguém tem de o fazer. E esse “alguém” acaba por ser o vizinho, o comerciante, o trabalhador que já perdeu o telemóvel, a carteira ou a tranquilidade de dormir com a janela aberta.
Há uma lógica perversa nestes episódios. A recuperação dos bens roubados é celebrada. A detenção é um alívio. Mas o espancamento público transforma o suspeito num troféu. O corpo ferido torna-se mensagem: “Aqui não se brinca.” O problema é que a mensagem não se dirige apenas aos criminosos. Dirige-se também a qualquer pessoa que possa, um dia, ser confundida com um. A linha entre legítima defesa coletiva e linchamento é fina. E uma vez atravessada, fica cada vez mais difícil voltar atrás.
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| Em Kimberley, ladrões espancados pela comunidade revelam a falência da justiça formal e o custo da vingança colectiva. |
O que se vê nestas imagens não é apenas a dor de dois homens. É o retrato de uma sociedade que, cansada de ser vítima, aceita tornar-se algo pior para sobreviver. A justiça formal promete imparcialidade, provas, direito de defesa. A justiça da rua promete rapidez e certeza – mesmo que essa certeza seja apenas a certeza do sangue e da humilhação. Uma oferece processo. A outra oferece espetáculo. E, em contextos de criminalidade elevada e confiança institucional baixa, o espetáculo ganha.
Não há solução fácil. Reforçar a polícia, melhorar a investigação, acelerar os tribunais, atacar as causas estruturais do crime – tudo isso exige tempo, recursos e vontade política que raramente chegam ao ritmo da dor quotidiana. Enquanto isso, as comunidades continuam a improvisar. Continuam a bater. Continuam a fotografar. E continuam a partilhar as imagens como prova de que, pelo menos desta vez, alguém pagou.
O rosto desfigurado desses dois homens não é só o resultado de uma noite de violência. É o espelho de uma falência mais profunda. Quando a comunidade se vê obrigada a ser juiz, jurado e carrasco, o que se perde não é apenas a dignidade dos acusados. É a possibilidade de uma sociedade em que a justiça não precise de se parecer com a vingança para ser sentida como real.

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