O PREÇO DAS ARMAS VERSUS O VALOR DAS VIDAS HUMANAS.

O Preço do Silêncio: Quando as Balas Valem Mais que Vidas

Por Abílio Moisés, Mueda - Cabo Delgado. 

Há palavras que, mesmo escritas no vazio digital de uma rede social, carregam um peso que transcende o ecrã. Foi assim quando me deparei com a publicação que circulava nas redes, um desabafo cru sobre o custo de uma arma e o destino das balas que ela cospe. Dizia-se, e com razão, que “o preço desta arma podia criar-lhe um emprego; as balas que ele desperdiça podiam alimentar crianças”.

Esta afirmação, aparentemente simples, é um murro no estômago de qualquer um que ainda conserve um mínimo de humanidade. Ela não denuncia apenas a violência; ela expõe a profunda irracionalidade que subjaz à guerra, ao conflito armado e, mais perigosamente, à mentalidade que os perpetua. Porque a questão não é meramente económica. É filosófica. É moral. É uma questão de escolha.

A Economia da Morte

Vamos fazer as contas, já que os números parecem ser a única linguagem que os senhores da guerra compreendem. O custo de um fuzil de assalto, num mercado paralelo e sedento de sangue, pode rondar os valores que, investidos numa pequena oficina, dariam pão a uma família inteira. Uma única bala, que viaja a uma velocidade superior à do som para perfurar um corpo, custa o equivalente a uma refeição completa para uma criança em muitos dos nossos bairros periféricos.

Quando um homem dispara uma rajada, ele não está apenas a esvaziar um carregador. Ele está a esvaziar a possibilidade de um futuro. Ele está a queimar, em fracções de segundo, o que poderia ter sido o sustento de dezenas. Ele está a trocar o potencial da vida pela certeza da morte. E, no entanto, a maquinaria da guerra continua a funcionar, alimentada por discursos de ódio e por uma lógica de poder que nos é apresentada como inevitável.

A Solidão do Herói Morto

A segunda parte da reflexão que me serviu de inspiração é ainda mais cortante: “E no final, tu bates-te e morres por pessoas que nem sequer virão ao teu funeral”. Esta é a mais cruel das verdades. O soldado, o guerrilheiro, o jovem aliciado para o conflito, muitas vezes morre por uma causa que não é sua. Luta por interesses que desconhece, por chefes que nunca verá, por fronteiras desenhadas por outros.

A sua morte é um número nas estatísticas. O seu sacrifício, quando muito, é uma nota de rodapé na história dos vencedores. A sua ausência, sentida apenas pela mãe que perdeu um filho, pela esposa que ficou viúva, pelos filhos que crescerão sem pai. Os poderosos que o enviaram para a boca do lobo não estarão no seu enterro. Estarão, isso sim, a calcular os próximos passos da sua estratégia, a negociar novos contratos de armamento, a decidir quem será a próxima carne para canhão.

A Armadilha da Força

Há quem diga que a força é a única linguagem que os “homens fortes” entendem. Mas será mesmo? Ou será essa a narrativa que eles próprios construíram para justificar a sua existência? A verdade é que a força bruta é um fim em si mesma, um ciclo vicioso que só gera mais violência. Um tiro gera um tiro de resposta. Uma morte gera um desejo de vingança. E assim, a espiral de sangue nunca termina.

O verdadeiro poder, o poder que constrói, que alimenta, que educa, esse é silencioso. Não ocupa as primeiras páginas dos jornais. Não gera cliques nem audiências. Mas é ele que, ao fim do dia, mantém o mundo de pé.

Um Apelo à Lucidez

O que esta reflexão nos exige não é apenas um sentimento de revolta passageiro. Exige-nos lucidez. Exige que paremos de normalizar a guerra como um instrumento político legítimo. Exige que olhemos para o preço das armas e vejamos não o poder que elas representam, mas as vidas que elas ceifam e os futuros que elas destroem.

Não podemos continuar a ser espectadores passivos desta loucura. Cada bala disparada é um grito de socorro que a humanidade ignora. Cada arma comprada é um voto de desconfiança no diálogo. E cada jovem que morre por uma causa que não entende é uma derrota colectiva da nossa inteligência enquanto espécie.

O preço da paz, ao contrário do que nos querem fazer crer, não é a submissão. É a coragem de dizer basta. É a coragem de investir em escolas em vez de quartéis. É a coragem de alimentar crianças em vez de alimentar a indústria da morte.

Porque, no final, a verdade é esta: ninguém ganha uma guerra. Apenas se perde, de ambos os lados, aquilo que nos torna humanos. E os “homens fortes” que não viram isso continuarão a mandar outros para a morte, enquanto se sentam, confortavelmente, nos seus gabinetes, longe do cheiro a pólvora e do som dos prantos.

Até quando?

“O preço desta arma podia criar-lhe um emprego; as balas que ele desperdiça podiam alimentar crianças”.


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