A Manhã em que Berlim se Tornou uma Tela Colectiva
Berlim ainda acordava. A luz fria de abril pousava devagar sobre os prédios da Rosenthaler Platz quando um grupo de ciclistas cortou o silêncio. Vinham carregados de baldes. Dentro deles, cores vibrantes, densas, quase vivas. Não era uma entrega, não era pressa: era o começo de uma intervenção que transformaria o cruzamento numa tela a céu aberto.
O artista IEPE e os seus colaboradores pedalaram até ao centro do asfalto. Sem discursos, sem avisos, inclinaram os baldes e deixaram que a tinta escorresse pelo chão. Azuis, vermelhos, amarelos e verdes espalharam-se em poças generosas. Depois, tão rápido como chegaram, desapareceram pelas ruas da cidade. Ficou o convite silencioso: que a própria cidade terminasse a obra.
E a cidade aceitou. Os primeiros carros atravessaram as manchas e desenharam rastos inesperados. As bicicletas abriram linhas finas e curvas. Os peões, distraídos ou curiosos, levaram a tinta nas solas e criaram pontes entre as cores. Em poucos minutos, a Rosenthaler Platz deixou de ser um simples cruzamento. Passou a ser um organismo. Uma pintura em movimento, feita por milhares de mãos invisíveis.
Nada daquilo foi pensado ao detalhe. E essa era a beleza. A instalação não pedia autorização para existir, não queria moldura nem legenda. Vivia do acaso, do trânsito, da pressa e da pausa. A tinta à base de água, não tóxica, garantia que a intervenção fosse segura para pessoas e ambiente. E, como tudo o que é verdadeiramente efémero, desapareceu com a chuva. Lavou-se o asfalto. Ficou a memória.
Hoje, quando se fala de arte urbana, é comum lembrar murais permanentes ou instalações monumentais. Mas o gesto de IEPE lembra-nos de outra possibilidade: a cidade como pincel, o quotidiano como curador. Durante algumas horas, a arte não esteve num pedestal. Esteve debaixo dos pneus, nos passos de quem ia trabalhar, no espanto de quem parou a olhar.
No fim, ninguém saiu ileso de cor. E talvez seja esse o ponto. A arte, quando se mistura com a vida, não se contempla. Atravessa-nos. Podíamos ainda olhar com mais paixão, além compaixão às nossas estátuas humanas espalhadas nas avenidas, ruas e praças das nossas cidades, ao invés de acusarmos-lhe de mendigos, enquanto os lesapátrias estão no parlamento a abusar regalias a custa da bajulação do absurdo? A arte expressa de uma ou de outra forma, alivia o sofrimento colectivo e é um dos elementos do diálogo mais comum numa sociedade como a nossa.
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