A LÓGICA DO ABSURDO AO RUBRO
Quando a Gratidão Escolhe um Templo em Vez de um Hospital
A imagem é, no mínimo, perturbadora para quem tem alguma concorrência sã. Um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Uganda, Sam Kutesa, após sobreviver a um cancro da garganta graças a seis meses de tratamento de ponta na Alemanha, opta por construir uma igreja monumento em vez de um centro oncológico na sua terra natal . Paralelamente, um profeta queniano, que alega curar os aleijados, viaja para a Itália para uma cirurgia ao joelho, regressando para continuar a sua missão de "curas milagrosas". Estes dois casos, embora ocorridos em países diferentes, expõem uma ferida profunda e um padrão de pensamento que merece uma reflexão incómoda.
A pergunta que ecoa não é sobre a fé, mas sobre a coerência. Kutesa foi salvo pela medicina que a Alemanha lhe proporcionou, não por um milagre num templo em Sembabule. Ele reconheceu a gravidade da doença procurando o melhor hospital disponível, e não ajoelhando-se numa igreja. Contudo, a sua gratidão materializou-se num edifício de culto, como se o acto de curar fosse divino, mas o instrumento da cura – a ciência, os médicos, os hospitais – fosse indigno de ser replicado para o seu povo. A ironia é cruel: ele foi tratado num país que investe em hospitais, mas agradeceu num continente que continua a superlotar as suas igrejas.
O profeta David Owuor, por seu lado, personifica a contradição em carne e osso. Ao mesmo tempo que anuncia curas de HIV e faz aleijados andarem em nome da fé, os relatos (mesmo que negados por ele) de que teria recorrido à cirurgia ortopédica no estrangeiro expõem a lógica do "faça o que eu digo, não faça o que eu faço". Se o seu ministério é realmente dotado do poder divino para curar, por que razão necessita de um bisturi humano em Itália ou na Índia? Se a cura vem do "Sangue de Jesus Cristo" que ele prega, o que diz a sua própria perna desalinhada senão que a ciência médica tem um valor prático que a fé, por si só, não consegue substituir?
Este comportamento configura um profundo desprezo pela inteligência colectiva. É como se, para as elites e os "homens de Deus", existissem dois mundos: o mundo real, onde se tratam com a melhor tecnologia global, e o mundo dos outros, para quem a solução é a fé, a resignação e as promessas de uma vida melhor após a morte. Constroem-se igrejas faraónicas para abrigar a gratidão de um, enquanto as populações continuam a morrer por falta de hospitais funcionais e medicamentos básicos .
A justificação de Kutesa de que foi "a graça de Deus" que o salvou, e a defesa de que construir uma igreja é uma "decisão pessoal", são argumentos que servem para encobrir uma omissão estratégica. Numa comunidade onde o acesso a cuidados de saúde é um privilégio, construir um monumento à sua própria sobrevivência é um acto de egocentrismo e de desconexão com a realidade. Ele teve o privilégio de voar para a Alemanha; os seus compatriotas, que ele agora convida a rezar na sua igreja, continuarão a morrer nos corredores dos hospitais públicos lotados, como bem observou a oposição ugandesa.
Não se trata de atacar a fé. A espiritualidade é uma componente vital da existência humana e, em muitos casos, um bálsamo para o sofrimento. Mas a fé, quando usada como substituto da acção prática e da responsabilidade social, transforma-se em ferramenta de alienação e dominação. A pergunta que se impõe é: onde está o desenvolvimento? Onde está o investimento em infra-estruturas que salvam vidas? A resposta está, muitas vezes, enterrada sob toneladas de cimento de igrejas e mesquitas, abençoadas por presidentes que, com os seus guarda-costas, se protegem num "casa de Deus" enquanto o povo espera por justiça e cuidados básicos.
Aceitar esta lógica é, de facto, um acto de resignação que beira o absurdo. É concordar que o mérito da cura está no céu, mas o tratamento deve ser procurado no estrangeiro. É aplaudir a fé do líder que não hesita em usar a medicina para si, mas que oferece apenas oração como legado para os seus. A reflexão final é dura: enquanto este padrão de hipocrisia for tolerado e, pior, celebrado, o continente continuará a ter os seus melhores recursos – humanos e financeiros – desviados para alimentar o espetáculo da gratidão individual, em detrimento da saúde e do bem-estar colectivo. Ou se constroem hospitais, ou continuaremos a rezar para que os milagres aconteçam, sabendo secretamente que, quando a doença aperta, o bilhete de avião para a Europa é a única graça que realmente importa.
Por: Lino TEBULO

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