DAS LIÇÕES DE FERIAS NAS COOPERATIVA AO SÁBADO QUE NÃO DESCANSA
O que Aprendemos com o Lazer como Moeda ao Produtivismo Invisível.
Da experiência do Sábado que não descansa ao lazer como moeda de produtividade invisível
Há quem diga que o sábado nasceu para o descanso. Outros, devotos do sétimo dia, declaram-no sagrado. Mas existe um terceiro grupo, cada vez mais numeroso e silencioso, que não pertence a nenhum dos primeiros dois - e, para não se sentir estranho, adopta o fim-de-semana como um prolongamento da semana laboral, apenas com outra indumentária. Troca-se a gravata pelo avental; a mesa de reuniões pelo balcão de vendas; o relatório pela horta. A actividade muda; a intenção permanece intacta: gerar rendimento, preparar o terreno produtivo dos dias seguintes, garantir que a segunda-feira chegue já com semente plantada.
Chamemos-lhe, com alguma ironia filosófica, o *produtivismo de fim-de-semana*: a incapacidade contemporânea de estar em repouso sem culpa, de usufruir o tempo sem calcular o seu retorno económico.
Mas houve um tempo (e não é ficção, é memória recente) em que este raciocínio não era sintoma de uma doença moderna, mas uma estratégia de sobrevivência e de elevação comunitária.
As Férias das Cooperativas
Durante os dezasseis anos de guerra civil que rasgaram Moçambique entre 1977 e 1992, o conceito de "férias" foi ressignificado pela necessidade. Uma geração inteira cresceu sem conhecer a praia de Tofo como lazer, sem experimentar as ruas de Maputo como passeio, sem a ilusão de que descansar era sinónimo de gastar.
Um antigo professor no Staff College (desses mestres que ensinam com a biografia antes de ensinar com o currículo) relatou-me, com a serenidade de quem sobreviveu, o que acontecia com as famílias moçambicanas nas pausas escolares do pós-guerra. As crianças não iam para resorts nem para colónias de férias. Iam para cooperativas rurais. Iam aprender agricultura em Marracuene, pesca em Xai-Xai, carpintaria em Manhiça, olaria em Inhambane, curadoria de gado no planalto de Chimoio, rudimentos de hotelaria nas vilas de passagem. As férias tornavam-se uma segunda escola, não pela obrigatoriedade, mas pela descoberta de possibilidades.
O menino que passava Agosto a aprender a podar cajueiros regressava em Setembro com as mãos calejadas e a cabeça aberta. A menina que tecia capulanas nas oficinas comunitárias descobria, antes da universidade, que tinha vocação para o design. Não se tratava de exploração infantil - tratava-se de uma pedagogia do possível, em que o ócio era o terreno fértil onde germinavam futuros profissionais, empreendedores e artesãos.
O Paradoxo Contemporâneo
Hoje, paradoxalmente, herdamos essa mesma lógica - mas sem a sua nobreza. O moçambicano moderno trabalha de segunda a sexta em regime formal e intenso; no sábado, abre um pequeno negócio, revende produtos, oferece consultoria informal, prepara conteúdos, estuda para concursos. O domingo, quando muito, é um sábado mais lento. O descanso genuíno (aquele que não serve a nada, que não produz nada, que existe apenas por existir), tornou-se um luxo quase obsceno.
O problema não está na produtividade. O problema está na ausência de finalidade na produtividade. Nas cooperativas pós-guerra, havia um propósito colectivo: reconstruir o país, descobrir-se como nação, ampliar horizontes. Hoje, na maioria dos casos, o produtivismo de fim-de-semana serve apenas à acumulação individual, à corrida sem linha de chegada, à ansiedade de quem teme parar.
Uma Ética do Lazer
Talvez a reflexão mais urgente da nossa geração seja esta: reaprender a descansar sem vergonha, e a trabalhar sem obsessão. Não se trata de escolher entre o sábado sagrado e o sábado rentável — trata-se de descobrir um sábado *significativo*. Um dia em que a actividade escolhida não é ditada pelo medo da escassez, mas pelo desejo genuíno de crescimento.
Tal como as crianças das cooperativas de outrora, podemos fazer do fim-de-semana um laboratório de descobertas. Podemos aprender olaria não para vender, mas para compreender o barro. Podemos escrever não para monetizar, mas para ordenar o pensamento. Podemos pescar não pelo lucro, mas pela paciência.
Porque, no fim, a verdadeira produtividade não se mede pelo que produzimos em sete dias, mas pelo que nos tornamos ao fim deles. E Moçambique (país que soube transformar a escassez em escola) tem, na sua memória recente, a lição mais valiosa: o tempo bem vivido não é o tempo rentável; é o tempo que nos faz mais humanos.


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