"MARIDO É INÚTIL": POR QUE RAZÃO CERTAS VERDADES AINDA DOEM TANTO.

O Título Que Desmascara a Hipocrisia do Amor e do Poder

Um livro ousado revela feridas profundas sobre casamento, género e liberdade de expressão na sociedade actual.

Há títulos que não pedem licença para entrar. Eles arrombam a porta, sentam-se à mesa e obrigam todos a olhar para o que preferíamos manter escondido debaixo do pano. “Marido é inútil” é um desses títulos. Não é apenas uma frase. É um espelho. E o que o espelho devolveu, nas últimas horas, diz muito mais sobre nós do que sobre qualquer personagem fictícia.

A história de uma mulher que, desde criança, carrega a certeza de que os maridos são inúteis e, mesmo assim, casa-se duas vezes, pois não é uma declaração de guerra aos homens. É um retrato cru de como a sociedade ensina as meninas a prepararem-se para o casamento antes mesmo de saberem se o desejam. Ensina-as a pensar no futuro genro, na família do noivo, nos filhos que ainda não existem, enquanto raramente lhes pergunta se querem realmente viver aquela vida. Quando alguém ousa transformar essa educação silenciosa em narrativa literária, a reacção é imediata e visceral.

Os comentários que surgiram são reveladores. Há quem deseje que a autora case com um marido verdadeiramente inútil, como se o título fosse um feitiço lançado sobre a própria vida dela. Há quem diga que o ódio aos homens a conduzirá à ruína precoce. Há quem afirme, com clareza cristalina, que se um homem escrevesse “Mulher é inútil”, a sociedade não o deixaria ver a luz do dia. Estas reacções não são meras opiniões isoladas. São o eco de um desconforto profundo: a dificuldade de aceitar que a crítica às estruturas de poder possa vir do lado que tradicionalmente é esperado que as endure.

O duplo padrão é gritante. Durante décadas, a literatura, o cinema e a música retrataram mulheres como histéricas, materialistas, traidoras ou simplesmente “difíceis”. Poucos se levantaram em massa para declarar que esses autores odiavam as mulheres. Quando a seta aponta na direcção oposta, o tom muda. De repente, a ficção deixa de ser ficção e passa a ser acusação colectiva. A personagem que questiona a utilidade do marido deixa de ser uma mulher complexa, marcada por tradições, traições e expectativas, e transforma-se num símbolo de ódio. Como se a literatura tivesse a obrigação de proteger o ego de um género inteiro.

Há quem argumente que o título generaliza e ofende. Mas a literatura sempre generalizou. Sempre provocou. Sempre usou a hipérbole para revelar verdades que o discurso educado prefere contornar. A questão verdadeira não é se o título é “justo”. A questão é por que motivo a ideia de um marido inútil gera tanta fúria, enquanto a ideia de uma esposa sacrificada, silenciosa e paciente continua a ser romantizada em tantas narrativas.

A personagem que atravessa décadas, entre Lagos e o interior, entre dois casamentos e a lenta construção de uma revolta interior, não está a dizer que todos os homens são dispensáveis. Está a perguntar de onde veio essa crença, o que ela custou e o que acontece quando uma mulher decide parar de endure. Essa pergunta incomoda porque toca no contrato social não escrito: a mulher deve aguentar, deve compreender, deve transformar a decepção em virtude. Quando alguém se recusa a fazer disso virtude, o sistema treme.

A liberdade de criar personagens que desafiam as expectativas de género não deveria ser negociável. Nem para mulheres, nem para homens. Se a sociedade só tolera a crítica quando ela vem de um lado, então não é liberdade, é privilégio disfarçado de sensibilidade. A verdadeira maturidade colectiva seria conseguir ler um título provocador sem imediatamente desejar o fracasso pessoal de quem o escreveu. Seria conseguir separar a ficção da biografia, a personagem da autora, a crítica social da ofensa pessoal.

No fundo, o que este título expôs não foi apenas o desconforto com uma história de ficção. Foi o medo de que as narrativas mudem de dono. O medo de que as mulheres deixem de escrever apenas sobre o sofrimento que suportam e comecem a escrever sobre o poder que se recusam a continuar a ceder. O medo de que o silêncio deixe de ser a resposta esperada.

Um livro não precisa de ser amado por todos para cumprir a sua função. Às vezes, o seu maior mérito é obrigar uma sociedade a olhar para o próprio reflexo e a perguntar-se, com honestidade, por que razão certas verdades ainda doem tanto.

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