O TOQUE MASCULINO QUE ROUBA O AMANHÃ DAS ESTUDANTES
Entre a Ilusão e o Silêncio que Condena as Nossas Raparigas
Uma imagem viralizou, mas o que ela realmente revela não é apenas fúria. É uma ferida aberta que a nossa sociedade africana - e Moçambique dentro dela - ainda não teve coragem de olhar de frente. Ainda ontem, ouviamos uma declaração arrepiante de uma aluna que cuja fora pegue contra sua vontade, num truque que envolve em convencer a vítima - depois de tomar o assento da viatura - que limpe sua cara com pano preparado para fazê-la adormecer, imediatamente e sequestrar. Situação que revela a tamanha vulnerabilidade das raparigas na rota casa - escola ou escola - casa.
A ilusão do "futuro" e o preço do uniforme
Quando o poder económico de um homem adulto se cruza com a vulnerabilidade de uma adolescente, o que deveria ser protecção transforma-se em transacção. A rapariga não é apenas "uma adolescente". É filha, irmã, aluna, um sonho ainda por realizar. O homem não é apenas "um homem". É portador de experiência, influência e, muitas vezes, impunidade.
Não se trata de negar que algumas raparigas buscam esses vínculos por necessidade ou carência afectiva. Trata-se de reconhecer que o adulto, sempre, tem a responsabilidade maior. O poder desequilibra qualquer pretensa "escolha". Quando o corpo de uma menor se torna moeda de troca - por mensalidade, por ajuda, por bens materiais, não estamos perante amor. Estamos perante exploração.
O grito de violência e a falência institucional
O apelo à violência que acompanhou essa imagem revela algo profundo: o sentimento de que a justiça institucional falhou. Quando o sistema não pune, quando a escola não educa, quando a família não protege e a comunidade fecha os olhos, a resposta popular traduz-se em raiva nua.
Mas retaliar contra o homem não devolve à rapariga os anos de escola perdidos. Não cura o trauma. Não quebra o ciclo que fará com que a sua filha, daqui a quinze anos, esteja no mesmo lugar. A violência responde à violência. A verdadeira revolução começa quando transformamos a revolta em consciência e a consciência em acção estrutural.
O que o silêncio permite
Entre a voz que clama e o silêncio que permite, vive o maior crime da nossa época: a normalização. Quantas vezes ouvimos "ela já tem corpo de mulher", "o homem ajuda em casa" ou "é melhor do que andar com rapazes da idade dela"? Essas frases são o fertilizante da exploração, disfarçando a predação de "benfeitoria".
Em Moçambique, a gravidez na adolescência não é apenas um problema de saúde. É um indicador de falência colectiva: falência da educação sexual, falência da economia que não oferece alternativas às famílias, falência de uma masculinidade que confunde domínio com cuidado. Cada rapariga que abandona a escola é uma geração inteira que perde potencial. É um filho que nasce com menos oportunidades.
O que verdadeiramente precisamos combater
Não o homem em si. Precisamos combater as condições que o produzem e o protegem.
· Combater a pobreza que transforma filhas em moeda de sobrevivência.
· Combater a ausência de educação sexual honesta e precoce nas escolas e lares.
· Combater a impunidade que garante a homens adultos que "nada lhes acontece".
· Combater modelos de masculinidade que medem poder pelo número de corpos conquistados.
· Combater o silêncio de mães, pais, líderes comunitários e religiosos que preferem "não se meter".
Entre a voz e o silêncio: o nosso lugar
Podemos virar o rosto e dizer "não é connosco". Ou podemos fazer o que dói mais e é mais necessário: olhar.
Olhar para as nossas filhas e perguntar: que futuro estamos a construir quando permitimos que o "apoio" material valha mais do que a dignidade de uma criança? Olhar para os nossos filhos rapazes e ensinar que ser homem não é possuir, é proteger. Olhar para as instituições e exigir leis aplicadas, programas de empoderamento para raparigas, apoio psicológico para vítimas e responsabilização real dos agressores.
O futuro não se compra. Constrói-se.
A rapariga tem nome, tem família, tem sonhos que o "apoio" externo não pode pagar. O homem carrega a sua própria história de carências, mas isso não justifica o crime contra ela.
O que precisamos não é de mais gritos de vingança. Precisamos de mais escolas que ensinem, mais famílias que dialoguem, mais comunidades que protejam e mais homens que escolham ser escudos em vez de predadores.
Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas uma gravidez precoce. Está em jogo o tipo de sociedade que queremos deixar para as gerações que ainda não nasceram. E essa sociedade começa a ser construída quando decidimos que nenhuma rapariga, nenhuma, merece ter o seu futuro roubado.
O silêncio já durou demasiado. Chegou a hora de verbalizar. Chegou a hora de proteger.
Relacionados:
A RAPARIGA QUE MATOU O MONSTRO DA SUA DESGRAÇA: Uma menina de 15 anos mata o violador no acto.
A CUMPLICIDADE SILENCIOSA NA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Comentários
Enviar um comentário