MOÇAMBIQUE, ENTRE A INSEGURANÇA E A IRRESPONSABILIDADE
O Espelho de um Estado Fraco e de uma Sociedade Cúmplice.
"Quando o Estado é Roubado e a Sociedade Ri é Sinónimo que Estamos Mesmo à Deriva."
Quando a informação sobre o roubo de uma viatura policial começou a proliferar nas redes sociais, muitos de nós ainda alimentámos a esperança de que se tratasse de uma notícia falsa, de um engano ou de que o veículo já tivesse sido recuperado. Infelizmente, tratava-se de uma realidade crua: uma suposta viatura pertencente à Unidade de Proteção de Altas Individualidades (UPAI), foi roubada na zona de Nkobe, na Cidade de Maputo.
Este episódio não é apenas mais um crime. É o espelho incómodo e vergonhoso de uma fragilidade institucional que se instalou como norma. O que diz de nós, enquanto nação, o facto de criminosos conseguirem levar um veículo destinado à protecção dos mais altos responsáveis do Estado? E o que revela a forma como a sociedade reagiu? Todos nós temos o dever de defender o Estado, o país e os seus recursos e bens. Apesar de não podermos também, ter como reagir quando a saída dos tais bens e recursos, desvio de fundos e condutas são orquestradas por altas individualidades, que deviam nos representar com integridade e dignidade.
Nas redes sociais, em vez de sobriedade e responsabilidade, assistiu-se a uma enxurrada de comentários jocosos, memes e “kkk” generalizados. “Hoje é a nossa vez de surpreender”, “os chefes encontraram os chefes deles”... Por trás do humor negro esconde-se algo mais grave: uma falta de educação digital e de consciência cívica. Muitos internautas, ao partilharem e troçarem publicamente sobre o sucedido, não percebem que estão a comprometer a segurança nacional. Embora seja aquela segurança que nos oprime quando as tais altas individualidades se esquecem do seu dever funcional.
Em vez de desmascararem um eventual deslize policial, acabam por expor as vulnerabilidades do Estado e da própria sociedade perante os malfeitores. Os criminosos acompanham as redes. A piada colectiva torna-se informação valiosa para quem quer explorar as brechas do sistema.
Este comportamento não é inofensivo. Como cidadãos, temos o dever de disciplinar o Governo, de exigir responsabilização e de escolher os melhores para nos servirem. No entanto, quando transformamos tragédias colectivas em espectáculo digital, abdicamos dessa responsabilidade e contribuímos para a paralisia institucional. Rimos das nossas desgraças porque confrontá-las exige coragem que poucos parecem dispostos a ter.
O problema não é isolado. Ao mesmo tempo que se rouba uma viatura policial, multiplicam-se relatos de lojas a fechar, centros empresariais esvaziados e moçambicanos a perder empregos por causa de políticas mal calibradas, instabilidade e, por vezes, uma anarquia latente disfarçada de patriotismo. O Governo promete “investigações em curso” - frase tão repetida que perdeu todo o significado. Enquanto isso, as estruturas de segurança parecem mais focadas em proteger elites do que em garantir a ordem para o cidadão comum.
Moçambique não se conserta com memes nem com discursos inflamados. Conserta-se com um Estado presente, instituições credíveis, uma polícia equipada e íntegra, e uma sociedade que exige contas em vez de normalizar o anormal. Precisamos de líderes que governem para o povo e de cidadãos conscientes que usem as redes como ferramenta de pressão cívica, e não como palco de entretenimento barato.
O roubo daquela viatura não foi apenas um crime. Foi um teste à nossa maturidade colectiva. E o que ele reflecte não é lisonjeiro. A pergunta que fica é incómoda, mas necessária: até quando vamos continuar a rir para não chorar? O futuro do país depende da resposta que dermos - não nas publicações, mas nas acções concretas, responsáveis e exigentes de hoje.
Última actualização sobre o caso: há quem disse que a viatura havia sido esquecida em Moamba. O que na mesma não retira uma vírgula da consciencialização desse facto - a proliferação de informações inerentes à nossa fragilidade interna.
Que a indignação se transforme em exigência. Que o riso amargo dê lugar à determinação colectiva.
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