QUANDO O UNIFORME PERDE O RESPEITO

Duas Faces da Mesma Vergonha em um só Final de Semana

Num fim de semana que ficará marcado na memória colectiva, salários entraram cedo em alguns sectores da função pública, provavelmente não para as tais FDS e depois do roubo de uma viatura policial da UPAI em Maputo - episódio já amplamente reflectido, surge outra imagem que abala ainda mais a consciência nacional: dois agentes da Polícia da República de Moçambique flagrados a roubar pacotes de massa esparguete numa mercearia comum.

Este acto é condenável. Não há justificativa moral ou legal para um agente da autoridade, que jurou servir e proteger, descer ao nível do furto vulgar. A lei é para todos, e a farda deve ser sinónimo de integridade, não de excepção ou de desespero. No entanto, reduzir o caso a mera “ladroagem” seria superficial. Ele convida-nos a uma reflexão mais profunda, quase filosófica, sobre o estado da condição humana em Moçambique hoje.

Vivemos num país onde a vida honesta se tornou um exercício de resistência quotidiana. Para a grande maioria, o salário - quando existe - mal cobre o básico. Sobrevivemos dia após dia, apenas para acordar no dia seguinte e continuar a luta. O custo de vida galopante, a inflação silenciosa que corrói o poder de compra, a ausência de oportunidades dignas e o fosso crescente entre elites e povo transformaram o “viver” num luxo reservado a poucos. Muitos policiais, professores, enfermeiros e outros servidores do Estado recebem remunerações que já não correspondem à realidade económica. São pagos para manter a ordem, mas não recebem o suficiente para manter a própria dignidade.

Os comentários nas redes sociais, embora crus e por vezes excessivos, revelam uma verdade incómoda: “São os mesmos que nas eleições defendem este Governo... Agora roubam esparguete”. Outros lembram a violência policial em momentos de protesto, o gás lacrimogéneo, as ordens cumpridas contra o próprio povo. Há raiva, sim. Mas também há um grito de dor colectiva. O povo vê no uniforme não mais o protector, mas o reflexo de um sistema que desumaniza os seus servidores e depois os expõe à vergonha pública quando o estômago fala mais alto que o dever.

Aqui reside a tragédia filosófica: o Estado que não cuida dos seus instrumentos de soberania - pagando mal, equipando pior e formando insuficientemente - acaba por corroer a própria autoridade. Quando o agente da lei é reduzido à fome, a lei perde legitimidade. Quando o uniforme simboliza sobrevivência em vez de serviço, a República entra em crise de sentido. Não se trata apenas de dois indivíduos fracos. Trata-se de uma estrutura que falha em garantir condições mínimas de existência digna àqueles que devem garantir a ordem para todos.

Este episódio expõe a hipocrisia colectiva. As elites vivem confortavelmente, longe das filas do pão e do preço do esparguete. Enquanto isso, quem está na linha da frente - muitas vezes arriscando a vida - luta para alimentar a família. E a sociedade, entre a condenação justa e o cinismo, esquece que a desmoralização da polícia é também a nossa desmoralização enquanto nação.

É tempo de perguntar, com honestidade socrática: que tipo de Estado criámos, onde até os guardiões da lei são empurrados para o crime de sobrevivência? Que sociedade somos nós, que rimos ou vociferamos perante a miséria alheia sem exigirmos reformas profundas - melhores salários, condições de trabalho dignas, formação ética contínua e, acima de tudo, liderança que sirva o povo em vez de se servir dele?

A fome não justifica o roubo. Mas a fome persistente, sistemática e ignorada pelas políticas públicas revela um fracasso moral do poder. Moçambique precisa urgentemente de um contrato social renovado: onde o Estado respeite a dignidade dos seus servidores e o cidadão exija, sem violência, mas com firmeza, que a farda volte a ser sinónimo de honra e não de humilhação.

Que este fim de semana não seja apenas mais um registo de vergonha. Que seja o ponto de viragem para uma reflexão madura e para acções que devolvam respeito ao uniforme - e dignidade ao homem que o veste.

Quando o esparguete se torna símbolo de uma nação que perdeu o rumo, é hora de o povo e o poder olharem-se no espelho sem desviar o olhar.

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