JUVENTUDE PRESA ENTRE NOITADAS E O FUTURO

Uma Noite que Custa um Futuro Brilhante

Por: Inocêncio da Graça, 39.
Espanha

Há uma imagem que circula nas redes sociais e que, para olhos desatentos, é apenas mais uma fotografia de jovens a divertir-se num fim de semana qualquer. Música, dança, cervejas na mão, corpos em movimento, sorrisos. A vida a acontecer. Leve-leve como são tomenses ou com vuco-vucos como moçambicanos.

Mas para quem olha com atenção - com a atenção filosófica que a nossa realidade exige, esta imagem é um documento. Um retrato fiel de uma geração presa numa contradição silenciosa e devastadora: a geração que sabe festejar melhor do que sabe poupar. Que sabe impressionar melhor do que sabe construir. E se calhar não é de hoje, pode ser herança também, pois referências são várias e inspirações, levaram muitos jovens a se envolver em atalhos de vida fácil, onde a perca da dignidade superou mais que o encontro com a morte na esquina a seguir ou num esquema mal formulado, logo interceptado pela a polícia.

O Corpo como Território de Disputa

As mulheres dançam e muitas vezes só bebem. Os homens observam e bebem enquanto arcam também com as contas. A câmara enquadra 'quase' tudo, excepto o fotógrafo. Quem tem o poder neste triângulo?

O prazer feminino existe aqui de forma autónoma, ou está a ser performado para um olhar externo que já definiu antecipadamente o que deve parecer desejável? A roupa, a postura, o movimento: são expressão livre ou conformidade a um padrão que a jovem mulher africana nem escolheu conscientemente?

A festa, em si, não é o problema. O problema é quando a festa se torna o único espaço onde o jovem se sente visto, valorizado e existente. Já que o resto é só reclamar botando a culpa no governo do dia, que aniquila os sonhos com burocracia e esquemas de corrupção institucional. O que é facto.

A Cerveja e o Rito do Estatuto

As garrafas presentes nesta imagem não são apenas bebidas. São moeda de pertença social. Quem paga, quem oferece, quem recebe, tudo isso define hierarquias invisíveis mas rigorosamente aplicadas.

Diga-se que na África urbana em aceleração desordenada, o bar tornou-se o parlamento informal onde se negocia identidade, masculinidade e estatuto. O jovem que não aparece, que não compra uma rodada, que não está presente, esse jovem não existe socialmente. E essa pressão tem um custo que raramente é contabilizado na manhã seguinte.

Claro, que os das igrejas e mesquitas, têm seus 'ways' entre outros irmãos, nos centros de adoração onde frequentam. Mas nestes em referência, há muito mais que o diabo, se existe, tem a melhor estratégia de conquistar mais adeptos e fanáticos.

O Grande Impasse é entre a Festa e as Quatro Paredes Próprias

Aqui chegamos ao núcleo duro da questão, o ponto que ninguém quer discutir abertamente porque implica um nível de autocrítica que dói. E recusamos até a fazer a um auto julgamento de nós mesmo.

Muitos jovens moçambicanos com entre 25 e 40 anos vivem ainda em casa de familiares ou pagam rendas que consomem entre 40 a 60 por cento do seu salário mensal. Falam de comprar terreno como quem fala de viajar para a Lua: como um sonho adiado indefinidamente, sempre para o próximo ano, sempre dependente de uma condição que nunca chega.

E no entanto, no entanto, o mesmo jovem que diz não ter dinheiro para a prestação de um terreno gasta, sistematicamente, entre 500 a 2.000 meticais ou mais, por fim de semana em bares, discotecas, eventos e jantares de grupo. Cinquenta e dois fins de semana por ano. Façamos a conta juntos.

A 1.000 meticais por fim de semana, são 52.000 meticais por ano, o equivalente à entrada inicial de muitos esquemas de aquisição de terrenos periurbanos em Maputo, Matola ou Beira.

Não se trata de moralismo. Trata-se de matemática.

Endividar-se para Impressionar Quem Nada Tem a Ver

O fenómeno mais perturbador não é gastar o que se tem. É gastar o que não se tem, e gastar para quem não vai pagar a conta.

Há jovens que recorrem a crédito informal, a dívidas com colegas, a adiantamentos salariais, não para pagar uma necessidade básica, não para investir em formação ou num activo, mas para aparecer bem na fotografia de sábado à noite. Para não parecer menos. Para não ser o único da roda que disse não.

Impressionar estranhos com dinheiro que não existe, para manter uma imagem que ninguém vai lembrar na segunda-feira de manhã, enquanto a renda vence no final do mês e o senhorio não aceita desculpas, eis o ciclo.

E o mais cruel é que as pessoas para quem este esforço é feito, na maior parte dos casos, estão exactamente na mesma situação. Também elas não têm terreno. Também elas vivem de favor ou de renda. Também elas estão a fingir.

Uma geração inteira a impressionar-se mutuamente com recursos que nenhuma delas tem.

A Alegria como Acto e como Fuga

Não se deve negar à juventude o direito ao prazer. Numa sociedade marcada pelo desemprego estrutural, pela pressão familiar, pela incerteza institucional e pela ausência de perspectivas claras, sair e dançar é também um acto de resistência. Uma afirmação de que ainda se está vivo, de que ainda se sente.

Mas há uma diferença fundamental entre celebrar a vida e fugir dela.

Quando o fim de semana se torna a única razão de existir durante a semana, quando segunda-feira é apenas o início da contagem regressiva para sábado, quando o prazer imediato substitui sistematicamente o pensamento sobre o futuro, então já não estamos perante alegria. Estamos perante anestesia.

O Digital Guarda Tudo; o Futuro Não Espera

Esta fotografia foi tirada e partilhada. Existe agora num arquivo digital de duração indefinida. As pessoas nela registadas, com ou sem o seu consentimento explícito, fazem agora parte de um documento público.

Mas há outro arquivo que também não perdoa: o calendário. Os anos passam. Os preços dos terrenos sobem. As rendas aumentam. Os familiares envelhecem e os espaços tornam-se mais pequenos. E a pergunta que ninguém faz na festa, mas que a vida acaba sempre por fazer, é simples e implacável:

Afinal, o que construíste?

Enfim, a Geração que Precisa de Mudar de Festa

Não se pede a esta geração que pare de viver. Pede-se que comece a construir enquanto vive.

Que a mesma energia que organiza uma saída de grupo seja usada para organizar uma poupança colectiva. Que a criatividade gasta a escolher o look de sábado seja aplicada a um plano de aquisição de terreno. Que o grupo de WhatsApp que combina bares seja também o grupo que pesquisa cooperativas habitacionais.

A festa pode continuar, mas tem de haver uma casa para a qual se regresse. Uma casa própria. Construída tijolo a tijolo, com consciência e disciplina.

Porque no final, o mundo não se lembra de quem dançou melhor.

Lembra-se de quem construiu algo que ficou.



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