A GERAÇÃO QUE ADOECE EM SILÊNCIO

Depressão, Ansiedade e o Peso de Nascer sem Cunha em Moçambique

Há um adoecimento que não aparece nas estatísticas do Ministério da Saúde. Não é dengue. Não é cólera. Não tem surto declarado, não tem campanha de vacinação, não tem linha de emergência. Chama-se desespero, e está a consumir uma geração inteira.

Fala-se pouco, mas quem trabalha com jovens sabe: há algo de profundamente partido no quotidiano dos moçambicanos entre os 17 e os 27 anos. Ansiedade crónica. Insónias. Crises de pânico que chegam sem aviso. Depressão que se disfarça de preguiça, de silêncio, de ausência. E nos casos mais graves, e estes não são raros, tromboses e acidentes vasculares cerebrais em corpos que ainda não tinham trinta anos. Corpos novos, destruídos por dentro pelo peso de uma realidade que não oferece saída.

O problema não é fragilidade. É matemática.

Existe uma narrativa conveniente, muito usada por quem nunca precisou de uma cunha para conseguir emprego, que atribui este colapso a uma geração "sem resiliência", "dependente", "que não sabe sofrer". É uma mentira confortável. A verdade é mais simples e mais cruel: quando uma pessoa jovem, sem ligações ao poder, sem familiar em posto, sem padrinho político, olha para o seu futuro em Moçambique, o que vê? Que caminho lhe está reservado?

O mercado de emprego formal é pequeno e está, em grande medida, colonizado por redes de favores. Os concursos públicos existem no papel; na prática, as vagas já têm dono antes do anúncio. O ensino superior produziu dezenas de milhares de licenciados que vivem a vender recargas, a fazer biscatos, a depender de pais que também não têm nada de sobra. O empreendedorismo, essa palavra que os discursos oficiais adoram, exige capital, crédito e uma rede de clientes que, para quem não tem influência, simplesmente não existe.

Não é fragilidade. É matemática. Uma equação onde a variável mais decisiva não é o esforço nem o mérito, é quem conheces.

Quando a esperança tem validade curta

A esperança tem um prazo. Quando é constantemente frustrada, o organismo aprende a não esperar. E é aqui que começa o adoecimento real: não no momento da crise, mas no momento em que o jovem para de acreditar que a crise vai passar.

A psicologia chama a isto "desamparo aprendido", um estado em que a pessoa deixa de tentar porque a experiência repetida ensinou que o esforço não muda o resultado. Para um jovem moçambicano que cresceu a ver que os empregos vão para os afilhados, que as bolsas de estudo têm destinatários escolhidos antes de serem anunciadas, que até um simples atestado de residência exige conhecer alguém, o desamparo não é fraqueza psicológica. É uma conclusão racional.

E conclusões racionais provocam doenças reais. O stress crónico eleva o cortisol. O cortisol elevado de forma persistente danifica o sistema cardiovascular. Jovens com vinte e poucos anos a fazer AVC não é ficção: é a fisiologia do desespero político e económico a manifestar-se no corpo.

O silêncio como mecanismo de sobrevivência

Há outro factor que agrava tudo: a cultura do silêncio em torno da saúde mental. Em Moçambique, admitir que se está mal psicologicamente é, em muitos contextos, admitir fraqueza. É convidar o julgamento da família, da comunidade, da Igreja. É ser chamado de "louco", de "fraco", de "ingrato perante Deus".

Por isso os jovens não falam. Interiorizam. Simulam normalidade nas redes sociais enquanto desmoronam por dentro. Usam o humor como escudo, a piada sobre estar "broke", sobre os planos que "ficaram só nos planos", porque rir do próprio sofrimento é mais aceitável do que confessá-lo.

E o Estado? O Estado que devia ter serviços de saúde mental descentralizados, acessíveis, gratuitos? O Estado que devia criar condições para que o mérito tivesse algum papel nas oportunidades? Esse Estado está ocupado com outras prioridades. As do poder.

Não é fatalidade. É escolha política.

É importante dizer isto com clareza: o que está a acontecer a esta geração não é inevitável. Não é consequência da natureza, da geografia ou do destino. É o resultado de décadas de escolhas políticas que concentraram recursos, oportunidades e poder nas mãos de redes fechadas, enquanto deixavam a maioria dos jovens a competir por migalhas, ou a não competir de todo, por não terem acesso à mesa.

Um país que desperdiça o potencial de uma geração inteira não está só a cometer uma injustiça moral. Está a cavar a sua própria ruína. Economias constroem-se com talento, com energia, com a capacidade criativa de pessoas que acreditam que o seu esforço vale alguma coisa. Quando essa crença morre, e em Moçambique está a morrer em escala industrial, o que sobra é um país a funcionar no mínimo, alimentado por quem tem cunhas e abandonando quem não tem.

O que resta

Esta geração merece mais do que ser diagnosticada. Merece que as suas condições de adoecimento sejam nomeadas pelo que são: um fracasso do sistema, não uma falha de carácter.

Merece políticas públicas de saúde mental que cheguem a quem não pode pagar consulta particular. Merece mecanismos de contratação transparentes onde o mérito seja real e verificável. Merece um Estado que reconheça que governar não é apenas gerir o acesso ao poder para os próximos, mas construir condições de vida digna para todos, incluindo os que não têm ninguém lá dentro.

E merece, acima de tudo, que paremos de lhes dizer para terem paciência. A paciência tem um limite. O corpo humano tem um limite.

Moçambique está a chegar ao limite de uma geração. E quando uma geração parte, não parte só ela.



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