A ESTRANHA COREOGRAFIA DO PODER EM MOÇAMBIQUE

Governar é Criar o Problema para Depois Vender a Solução?

Por um cidadão inconformado

(Transcrição livre e reflexão aprofundada de um pensamento que circula nas bocas do povo, mas que poucos têm coragem de escrever)

Há uma pergunta que atravessa os becos, as paragens vazias, as filas silenciosas diante das bombas de combustível secas. Uma pergunta simples, directa, desconfortável:

Como é que um governante sério cria um problema para depois aparecer com a solução?

Não é retórica. É uma acusação. E é uma constatação.

O povo moçambicano, esse que os discursos oficiais insistem em tratar como massa amorfa sem capacidade de análise, tem observado, em tempo real, uma coreografia política grotesca: anuncia-se o aumento dos combustíveis, inevitável, dizem, o caixa instala-se nos transportes, os preços disparam, o cidadão comum fica sem chapa para chegar ao trabalho, e de repente, como num passe de mágica, eis que surge o governante com autocarros novos, promessas de subsídios, conselhos agrícolas e lições de moral.

Brincadeira? Talvez. Mas uma brincadeira de mau gosto, daquelas em que o palhaço se ri sozinho enquanto a plateia chora.

A Mecânica Perversa: Criar a Crise para Capitalizar a "Solução"

Vamos aos factos, porque a memória do povo não é uma folha em branco.

Desde meados de Março e durante todo o mês de Abril, o mesmo governante repetia, em entrevistas, conferências de imprensa e comícios enlatados, que não havia forma de evitar o aumento dos preços dos combustíveis. A narrativa era sempre a mesma: choques externos, guerra na Ucrânia, pressões nos mercados internacionais, dependência estrutural. Tudo verdade, mas apenas uma meia-verdade.

Porque se não havia forma de evitar o aumento, havia certamente forma de o mitigar. Havia forma de preparar o terreno. Havia forma de comunicar com antecedência. Havia forma de coordenar os ministérios, os municípios, as entidades reguladoras, os operadores de transporte.

E no entanto, o que se viu foi o oposto: silêncio, descoordenação, e depois, tardiamente, o gesto teatral.

Ora, pergunte-se:

· Porque não disse, na altura em que anunciava o inevitável aumento, que o governo já tinha importado autocarros movidos a gás para mitigar o impacto?

· Porque não anunciou, em simultâneo, que os cartões de subsídio para os transportadores estavam a ser preparados?

· Porque não instruiu os municípios, com a devida antecedência, para licenciarem rapidamente todos os operadores informais, integrando-os no sistema de subsídios?

· Porque é que a solução só aparece depois de o problema já ter batido no fundo?

A resposta, ainda que cruel, é óbvia: sem caos, não há protagonismo. Sem sofrimento, não há salvador. Sem crise, não há desculpa para medidas impopulares.

O Padrão que se Repete: Criar Desordem, Depois Vestir a Camisola de Bombeiro

Este não é um episódio isolado. É um método.

Recordemos, quem tem memória, os apagões eléctricos que se anunciavam como "inevitáveis" e que, coincidentemente, abriam espaço para contratos milionários com geradores de emergência. Recordemos a escassez de medicamentos nos hospitais públicos, sempre seguida de doações vistosas em campanha eleitoral. Recordemos as dívidas ocultas, criadas nas sombras, cujo perdão ou renegociação foi depois vendido como vitória diplomática.

O padrão é sempre o mesmo:

1. Cria-se (ou permite-se que se agrave) um problema estrutural.

2. Espera-se que a população entre em sofrimento visível.

3. Aparece-se com uma solução paliativa, insuficiente, mas muito fotografada.

4. Vende-se a imagem de governante atento, próximo do povo, que resolve o que os outros não resolveram.

E o povo, esse, é tratado como se não visse o truque. Como se fosse míope mental. Como se não conectasse os pontos.

Mas conecta. Ah, se conecta.

O Conselho do Pavê: Quando o Governante se Revela Fora da Realidade

Eis um momento de particular densidade simbólica: o Presidente aconselha o povo a remover o pavê dos quintais para plantar hortícolas.

Num contexto normal, seria um conselho banal de agricultura urbana. Num contexto de crise de transportes, de combustível inacessível, de crianças a ser evacuadas das escolas antes da hora, de famílias que não sabem se terão o que comer amanhã, o mesmo conselho soa como uma afronta.

Porquê? Porque pressupõe que o problema do povo é a falta de espaço para plantar, e não a falta de dinheiro para comprar sementes, a falta de água para regar, a falta de tempo para cultivar depois de horas perdidas nas paragens à espera de um chapa que nunca chega.

E depois vem a pérola seguinte: "façam machambas perto de casa para não precisar de transporte". Como se o problema de deslocação para o trabalho se resolvesse com uma horta caseira. Como se todos os moçambicanos fossem camponeses por opção e não por necessidade. Como se as fábricas, os escritórios, as escolas, os hospitais se tivessem mudado para dentro dos quintais.

E a cereja no topo do bolo: "tenho quatro carros na garagem, vou deixar três para usar um". A frase, dita por um governante, é um atestado de divórcio profundo da realidade nacional. Quantos moçambicanos têm sequer um carro? Quantos têm uma motocicleta? Quantos dependem, todos os dias, de um chapa superlotado, sem cinto de segurança, sem revisão técnica, sem qualquer garantia de que chegarão ao destino?

Este discurso não é apenas desconectado. É insultuoso. É tratar o sofrimento alheio como um detalhe menor que se resolve com jardinagem e boas intenções.

O Presidente Imposto pelo CC: Paraquedas ou Continuidade?

Há uma questão incómoda que raramente se coloca nos debates públicos, mas que atravessa as conversas de rua, as redes sociais, os grupos de WhatsApp: donde é este Presidente?

Não se pergunta aqui sobre a sua naturalidade ou biografia oficial. Pergunta-se, isso sim, sobre a sua relação com a realidade moçambicana. Sobre a sua capacidade de sentir o país. Sobre a sua intimidade com a dor do povo.

Porque há algo de profundamente estranho num governante que, quando confrontado com a falta de transporte, sugere que os cidadãos plantem alfaces. Há algo de perturbador num chefe de Estado que, quando o país arde em manifestações e repressão, fala do número de viaturas na sua garagem.

E a resposta que muitos encontram, ainda que trágica, é esta: ele caiu de paraquedas na presidência. Não porque não tenha legitimidade formal, o Conselho Constitucional tratou de lha dar, mas porque não construiu uma relação orgânica com o povo. Não viveu as dificuldades. Não sentiu na pele a falta de um chapa. Não esperou horas numa paragem sob o sol escaldante de Maputo ou da Beira.

E neste aspecto, ele é apenas a continuação daquele outro que, há anos, sugeriu que os moçambicanos deveriam "sair das cidades e voltar ao campo" se não tivessem condições. O mesmo tom, a mesma distância, o mesmo desprezo benevolente.

A Violência Silenciosa de Tratar o Povo como Míope Mental

Mas o mais grave, o mais profundo, o mais estruturalmente violento, é a presunção de que o povo não pensa.

Quando um governante cria um problema e depois se apresenta como salvador, ele está a dizer, em actos: "Estes são doídos, não vão perceber o truque".

Quando um governante dá conselhos de horticultura num contexto de crise de transportes, ele está a dizer, em actos: "O povo não é capaz de ligar os pontos, não vai perceber que estou a desviar o assunto".

Quando um governante fala dos seus quatro carros para uma nação onde a maioria nunca teve um, ele está a dizer, em actos: "A vossa miséria é um detalhe que não me atravessa".

Isto não é apenas incompetência política. É uma teoria implícita do poder segundo a qual a elite pensa, decide, gere, e a massa obedece, consome, aplaude. É a velha ideia colonial do "povo menor", incapaz de autogoverno, que precisa de tutores esclarecidos que fabricam crises e vendem soluções.

Só que o mundo mudou. As redes sociais existem. A informação circula. O povo compara, debate, analisa. E hoje, mais do que nunca, o povo vê.

A Auto-Legitimidade pelas Armas: quando o voto se torna irrelevante

E aqui chegamos ao ponto de maior densidade crítica.

Se um governante trata o povo como míope mental; se cria crises para depois capitalizar soluções; se dá conselhos que revelam um divórcio absoluto da realidade; se governa como se o voto fosse um mero detalhe cerimonial, então que legitimidade tem ele? E mais: de que legitimidade precisa ele?

A resposta, ainda que dura, é transparente: ele não precisa da legitimidade do povo. Precisa, isso sim, da legitimidade das armas, da força do aparelho repressivo, do controlo da máquina eleitoral, da complacência do Conselho Constitucional, da passividade de uma oposição fragmentada.

Porque se precisasse do voto, governaria de outra forma. Se precisasse do povo, ouviria antes de falar. Se precisasse da confiança, construiria pontes em vez de criar abismos.

O que temos diante de nós não é, portanto, um governante que falhou na comunicação. É um sistema que já desistiu da legitimidade popular e se sustenta pela força, pelo medo e pela manipulação.

E quando um sistema chega a este ponto, já não resta muito a não ser a desobediência civil, a manifestação pacífica, a recusa em aceitar o inaceitável.

Conclusão: Governar é servir, não enganar

O povo moçambicano não pede perfeição. Pede verdade. Pede planeamento. Pede que os problemas sejam resolvidos antes de se transformarem em tragédias, e não depois. Pede que os governantes antecipem, preparem, comuniquem e, não que criem deliberadamente o caos para depois se vestirem de bombeiros.

Governar não é dizer ao povo que tire o pavê do quintal. Governar é garantir que haja transporte para que o povo possa ir plantar onde quiser, e voltar com a sua colheita.

Governar não é falar dos carros na garagem. Governar é assegurar que quem não tem sequer uma bicicleta possa viver com dignidade.

Governar não é surgir com autocarros a gás depois de o combustível ter subido. Governar é anunciar esses autocarros antes, como parte de uma estratégia, e não como remendo de uma crise anunciada.

E acima de tudo, governar não é tratar o povo como um rebanho de míopes mentais que não percebem o truque. Governar é reconhecer que o povo vê, o povo pensa, o povo analisa, e que o poder só é legítimo quando é exercido com humildade, transparência e serviço.

Enquanto isso não acontecer, enquanto o padrão de criar problemas para vender soluções se mantiver, Moçambique continuará a girar em falso, com governantes de paraquedas, conselhos de horticultura, e um povo que, cansado de esperar, começa a perceber que a salvação não virá de quem causou o naufrágio.

E quando essa percepção se generalizar, os autocarros a gás, os subsídios prometidos e as hortas nos quintais já não serão suficientes para apagar a revolta silenciosa que cresce nas paragens vazias deste país.

Maputo, Maio de 2026

"Porque há pensamentos que merecem ser eternizados antes que o vento da indiferença os leve"

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