HOMENS CRISTÃOS CRIAM ACADEMIA SÓ PARA HOMENS
Será Proteção da fé ou confissão de Fraqueza?
Há notícias que não chegam apenas aos nossos olhos como humanos. Elas atravessam a pele e sentam-se no centro da consciência, como uma pergunta que se recusa a sair. A notícia de que um grupo de homens cristãos abriu uma academia exclusiva para homens, com finalidade de “evitar a tentação da infidelidade”, é uma dessas. Não é apenas uma curiosidade de redes sociais. É um espelho. E o que o espelho revela dói mais do que qualquer julgamento externo.
À primeira vista, a iniciativa parece um acto de piedade prática. Homens de fé que reconhecem a própria fragilidade e decidem construir um espaço onde o corpo se fortalece sem o risco de o olhar se desviar. Uma espécie de mosteiro moderno, onde o suor substitui o silêncio e o haltere toma o lugar do rosário. Em tempos de hiperexposição, de corpos constantemente oferecidos e de relações cada vez mais fluidas, a ideia de um santuário masculino pode até parecer sensata. Quase heróica.
Mas a pergunta que o silêncio faz é outra: se a presença de uma mulher treinar ao teu lado é suficiente para abalar o teu compromisso matrimonial, o problema está na mulher… ou em ti?
A tentação nunca é apenas externa. Ela é, antes de tudo, interna. É o desejo que já habitava a casa e apenas esperava uma janela aberta. Quando um homem declara que precisa de um ambiente sem mulheres para permanecer fiel, ele não está a proteger o casamento. Está a confessar que o seu autocontrolo depende do desaparecimento do outro. E isso não é virtude. É fraqueza disfarçada de disciplina.
A verdadeira fidelidade não se constrói pela exclusão do mundo. Constrói-se pela força interior que permite habitar o mundo sem se deixar possuir por ele. O homem que só consegue ser fiel quando a mulher está ausente não é um homem de carácter. É um homem de circunstância. E a circunstância, como sabemos, muda.
Há algo profundamente revelador nesta solução. Em vez de trabalhar o olhar, a mente e o coração, prefere-se eliminar o estímulo. Em vez de educar o desejo, prefere-se banir a sua presença. É o mesmo espírito que, ao longo da história, fechou mulheres em conventos, em haréns, em véus e em silêncios - sempre sob o pretexto de proteger a pureza masculina. O problema nunca foi a mulher. O problema foi, e continua a ser, a incapacidade de alguns homens de governar o que está dentro de si.
E o mais inquietante é que esta lógica se apresenta como cristã. Como se o Evangelho ensinasse a fugir da tentação em vez de a vencer. Jesus não se retirou para um deserto sem mulheres. Caminhou entre elas, falou com elas, deixou-se tocar por elas, e nunca precisou de proibir a sua presença para permanecer fiel à sua missão. A santidade não se faz por ausência. Faz-se por presença transformada.
Há, claro, o argumento da “prudência”. Muitos dirão: “melhor prevenir”. Mas a prevenção que se baseia no medo do próprio desejo não é prudência. É medo. E o medo, quando se torna regra de vida, não protege o casamento. Asfixia. Porque o dia em que a mulher aparecer (no trabalho, na rua, na igreja) a mesma fragilidade estará lá, intacta, à espera.
O que esta academia revela, no fundo, é uma crise de masculinidade que se esconde atrás da linguagem da fé. Uma masculinidade que não sabe ser forte sem ser isolada. Que não sabe ser fiel sem ser protegida. Que não sabe desejar sem trair. E isso é, talvez, a maior tentação de todas: a tentação de acreditar que a pureza se constrói pela exclusão do outro, e não pela transformação de si.
A verdadeira academia que o homem precisa não é a que exclui mulheres. É a que forma o carácter. Aquela onde se treina o olhar para ver a mulher como irmã, e não como ameaça. Onde se fortalece a vontade para que o desejo não se torne dono. Onde a fidelidade deixa de ser uma prisão de circunstâncias e se torna uma escolha livre, diária, profunda.
Porque no dia em que o homem precisar de um mundo sem mulheres para permanecer fiel, já não está a defender o casamento. Está a confessar que nunca o habitou de verdade.
E essa, sim, é a notícia que dói.

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