UMA LIÇÃO À PÁTRIA QUE OS FANTOCHES (LÍDERES AFRICANOS) DEVIAM SABER

Governar não é fazer negócio: a frase de Ibrahim Traoré que estremece os palácios de cartão

Há frases que não precisam de longos discursos para incendiar consciências. A sentença do Capitão Ibrahim Traoré, Presidente do Burkina Faso, é um desses trovões secos que atravessam a savana e deixam tudo em silêncio: “Liderar um país é um privilégio, não uma oportunidade de negócio.” Pronunciada com a serenidade de quem carrega o peso de um povo, esta afirmação devia ser gravada em granito à entrada de cada palácio presidencial africano. Mas, infelizmente, a maioria dos que lá se sentam trata o Estado como uma banca de dumba-nengue onde tudo se vende: a soberania, os recursos, a dignidade.

Moçambique, pátria de Samora e também de promessas repetidamente atraiçoadas, conhece bem este enredo. A elite política que deveria ser guardiã do bem comum transformou o erário num património familiar, as instituições em condomínios privados e a luta de libertação numa legenda desbotada que serve apenas para enfeitar comícios. 

A lição que Traoré nos oferece não é nova - os nossos pais fundadores disseram-na com outras palavras, mas dói precisamente porque é esquecida todas as manhãs, mal o sol se levanta sobre as machambas onde o povo sua para que meia dúzia encha a pança.

O busílis da questão está no verbo “privilégio”. Quem entende a liderança como privilégio acorda todos os dias com o peso sagrado de servir, de prestar contas, de se despir do ego e vestir a camisa do colectivo. Quem, ao contrário, olha para o poder como oportunidade de negócio chega ao gabinete com a calculadora na mão e o coração blindado contra o sofrimento alheio. 

Para esses - os fantoches de que nos fala o título, o Estado é um supermercado onde se compram amizades, se vendem licenças, se hipotecam estradas, portos e escolas em troca de comissões gordas que nunca chegam ao hospital rural nem à carteira do camponês. Esta é a lógica de uma burguesia burocrática que mama nas tetas do orçamento enquanto a pátria geme.

África está cheia destes líderes de fachada que confundem o trono com uma butique de luxo. Recitam poemas revolucionários, exibem bandeiras nos desfiles, mas quando o parceiro internacional lhes estende um contrato ruinoso, assinam de cruz sem pestanejar, porque no fundo não defendem uma nação - defendem os seus próprios interesses. No entanto, o recado de Ibrahim Traoré queima como brasa viva: a soberania não se negoceia. 

Um país não é um lote de acções que se reparte entre os compadres do costume. Liderar é ser o primeiro a passar fome, a levar com o peso da responsabilidade, a descalçar as sandálias para não pisar a dignidade do mais humilde. Só nessa nudez moral se pode empunhar a bandeira com legitimidade.

Eis a lição à pátria que os fantoches deviam saber - e que o povo não pode continuar a fingir que ignora. O poder que não se exerce como serviço é uma ditadura disfarçada de democracia, um balcão de negócios mascarado de governo. 

Enquanto a juventude grita por emprego e o campo chora por uma enxada e uma semente, os palácios brilham com viaturas blindadas e banquetes regados a uísque importado. Isto não é governação. Isto é pilhagem organizada por quem se esqueceu que o trono que ocupa foi molhado pelo sangue de muitos e pela paciência de milhões.

A grandeza de uma nação mede-se pela altura dos seus líderes - mas não pela estatura em metros, e sim pela capacidade de se inclinar. Traoré, com aquela frase curta e cortante, inclinou-se sobre o coração do seu povo e ouviu-lhe o pulsar. É esse o exercício que os dirigentes africanos, incluindo os moçambicanos, precisam de fazer com urgência: encostar o ouvido ao peito da pátria e perceber que o dinheiro desviado cheira a túmulo, enquanto o serviço sincero cheira a pão fresco. 

A lição está dada. Quem tiver ouvidos, que ouça. Quem tiver coluna, que se endireite. Porque a pátria não é um negócio - e chega de a vender a prestações.

Ibrahim Traoré expõe a psicose da liderança africana.


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