SERÁ QUE CASAMENTOS FORÇADOS ESTÃO NA RAIZ desta TRAGÉDIA?

Casada há nove dias e condenada à morte por enforcamento

Nove dias. Foi esse o tempo que durou o casamento de Saudat Jibrin, de 19 anos, e Salisu Idris, de 30. Nove dias depois da festa, numa noite de maio de 2025, em Farawa, no estado de Kano, a jovem alegadamente envenenou a bebida do marido e cortou-lhe a garganta com uma faca. O tribunal condenou-a à morte por enforcamento. A sentença é clara, dura e definitiva. Mas a pergunta que ecoa para além das paredes do tribunal é outra: estamos a tratar apenas o sintoma ou a ignorar a doença?

A história choca. Uma noiva que se transforma em assassina em menos de duas semanas. Uma diferença de idade de onze anos. Uma recusa em consumar o casamento e em cozinhar para o marido, segundo relatos próximos. Tudo isto termina com uma pena capital. A justiça fez o seu trabalho: provou o crime, aplicou a lei. No entanto, quando se olha para o quadro completo, o que se vê não é apenas um acto isolado de violência. Vê-se o reflexo de uma realidade muito mais profunda e silenciosa.

Em muitas regiões, casamentos precoces e forçados continuam a ser tratados como tradição, quando na verdade são, muitas vezes, uma sentença de prisão para jovens que ainda nem tiveram tempo de se conhecer a si próprias. Uma menina ou uma jovem de 19 anos que entra num casamento sem verdadeira escolha, sem preparação emocional, sem espaço para dizer “não”, carrega consigo uma pressão que a sociedade raramente reconhece. A diferença de idade, o poder económico ou familiar do marido, a expectativa de obediência imediata - tudo isso cria um terreno fértil para conflitos que, em alguns casos extremos, explodem de forma trágica.

Tratar apenas o crime é como curar a ferida e deixar a infecção intacta. A pena de morte fecha o capítulo de Saudat, mas não abre nenhuma discussão real sobre o que leva uma jovem a cometer um acto tão extremo nove dias depois de se tornar esposa. Não interroga as famílias que negociam o futuro das filhas como se fossem mercadoria. Não questiona os sistemas que celebram casamentos em massa com orçamentos generosos enquanto a educação e a saúde das mesmas jovens recebem migalhas. Não pergunta por que razão tantas mulheres jovens chegam ao casamento sem nunca terem sido ensinadas que o seu corpo e a sua vontade também têm voz.

Há quem diga que a lei deve ser cega. Mas a lei que só vê o sangue derramado e não vê as correntes invisíveis que precederam o gesto está a falhar a sociedade que pretende proteger. A verdadeira prevenção não começa no tribunal. Começa quando se deixa de normalizar que uma jovem de 19 anos seja entregue a um homem de 30 sem que alguém se preocupe se ela quer, se está preparada, se tem espaço para crescer dentro daquela união.

Saudat foi condenada. O marido está morto. Duas vidas destruídas em nove dias. E no meio do silêncio que se segue à sentença, fica a pergunta que a sociedade teima em evitar: quantas outras jovens estão, neste momento, a viver o mesmo casamento de nove dias, só que ainda não chegou o oitavo? Quantas estão a engolir o grito porque a tradição pesa mais do que a liberdade?

A justiça que se limita a enforcar o sintoma pode até parecer forte. Mas a sociedade que continua a alimentar a doença que o provoca é a que realmente precisa de julgamento.

Saudat Jibrin, de 19 anos, e Salisu Idris, de 30. 


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