O ENCANTO DO SILÊNCIO ESCOLHIDO EM CELEBRAÇÃO DA VITALIDADE

Típico de Onde a Alma se Despimenta e o Mundo se Esquece

In: Aventuras do Capitão Phingli.

Numa era em que o barulho digital devora as nossas horas, surge uma imagem que nos obriga a parar e pensar. Claro, vi iguais desde às cascatas de Namaacha, Lugenda, Rurumuana (Moçambique) e em Tica (Guiné Equatorial e em Port Louis na Ilha Reunião. Só que este, nem sei de onde é, mas teve o privilégio de ter quatro irmãs de pele sei-la, corpos esculpidos pela vida, mergulhadas até aos joelhos num riacho cristalino, rodeadas de vegetação exuberante. Uma segura o telemóvel, outra curva-se com graça natural, as outras observam ou simplesmente são. A legenda em inglês de rua pergunta: “Is the creek where they quiet at?” – tradução livre: “É neste riacho que elas se aquietam?”. Quem me dera se tivesse sido o fotografo!

Essa pergunta simples carrega um peso existencial profundo. Num Moçambique e num mundo que corre atrás do próximo trend, do próximo like, do próximo estímulo, o riacho representa o regresso ao essencial. É o espaço onde o ruído cessa e a presença se impõe. Onde o corpo, livre de armaduras sociais, dialoga com a água fria que corre sobre as pedras antigas.

O Encanto do Silêncio Escolhido

Vivemos tempos paradoxais. Nunca estivemos tão conectados e, simultaneamente, tão sós. As redes sociais prometem comunidade, mas entregam solidão acelerada. Por isso, cenas como esta – mulheres que encontram num riacho escondido um templo provisório de liberdade – nos tocam tão fundo. Não é apenas beleza física; é a celebração da vitalidade, da sensualidade saudável, da capacidade humana de criar oásis em meio ao caos.

Em Manica, por exemplo ou em qualquer província moçambicana, conhecemos bem algumas esquinas estes riachos. São os mesmos que nos viram crescer, onde lavámos roupa, apanhámos água ou simplesmente fugimos do calor do dia. São espaços de memória colectiva e de cura individual. Ver corpos negros (os nossos corpos) ocupando esses espaços com confiança e alegria é um acto de afirmação. É dizer que a beleza não precisa de autorização, que o prazer simples da água sobre a pele não é luxo, mas direito ancestral.

O Que Verdadeiramente Importa

O riacho ensina-nos lições que os algoritmos não conseguem replicar. Ensina fluidez: a água contorna as pedras, não as enfrenta de frente. Ensina presença: não há scroll infinito ali, apenas o som das folhas, o canto distante de pássaros e o riso genuíno. Ensina vulnerabilidade: entrar na água é despir-se de certezas e entregar-se ao momento. Que maravilha... 

Num contexto moçambicano, onde a resiliência é quase uma segunda natureza, estas pausas são revolucionárias. Parar não é preguiça; é recarregar para continuar a construir. É lembrar que, antes de sermos profissionais, empreendedores ou influenciadores, somos seres que precisam de contacto com a terra, com a água e com o silêncio para não enlouquecer.

A imagem convida-nos a perguntar: onde é o nosso riacho? Qual é o lugar – físico ou interior – onde nos permitimos silenciar-se é relaxar? Onde baixamos a guarda, rimos sem filtro e existimos sem performance?

Um Convite à Profundidade

Que este riacho virtual nos inspire a buscar os nossos próprios refúgios. Que nos lembre de desligar, de vez em quando, e mergulhar – literalmente ou metaforicamente – naquilo que nos faz sentir vivos. Porque no fim, não são os likes que preenchem a alma. É a água fria nos tornozelos, o sol filtrado pelas árvores e a companhia de quem não precisa de palavras para compreender o momento.

O silêncio não é vazio. É pleno. E, por vezes, encontra-se exactamente onde menos procuramos: num riacho qualquer, longe do mundo que não para.

Uma lição moçambicana para o mundo acelerado.


Texto inspirado numa imagem que viralizou e que nos obriga a olhar para dentro. Porque, no turbilhão da vida moderna, o maior luxo é encontrar o nosso próprio riacho.

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