ASSALTADO À LUZ DO DIA - A FRAGILIDADE DO SUCESSO AFRICANO NA EUROPA
O Sonho Africano que Bruxelas Despiu de Relógio e Dignidade
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| Mohammed Fuseini sobreviveu a um assalto a luz do dia, em Bruxelas, capital da Bélgica. |
Há cenas que não se apagam. Não porque sejam belas, mas porque rasgam a pele da nossa pretensa segurança. Na manhã de domingo, 26 de Julho de 2026, nas ruas de Bruxelas, cinco homens encapuçados arrancaram Mohammed Fuseini do interior do seu carro. Arrancaram-lhe o telefone, a carteira e um Rolex avaliado entre oito e catorze mil euros. Arrancaram-lhe, por alguns segundos eternos, a certeza de que o sucesso protege.
O avançado ganaês do Union Saint-Gilloise, de apenas 24 anos, foi imobilizado num estrangulamento, atirado ao chão e abandonado. Foi ao hospital. Ferimentos ligeiros. No dia seguinte, voltou a treinar. O corpo resistiu. A alma, essa, ainda carrega o peso, se não o trauma de ter sido tratado como objecto num continente que, tantas vezes, se apresenta como o destino final dos nossos sonhos.
Não se trata apenas de um assalto. Trata-se de uma imagem, de um espelho. Um espelho que reflecte a fragilidade de todos nós, africanos que cruzámos oceanos em busca de horizontes mais largos. Fuseini não é apenas um futebolista. É o rosto de milhares de jovens que saíram de Accra, de Maputo, de Luanda ou de Dakar com a mesma fome de dignidade. Chegaram a Europa com talento no peito e, de repente, descobriram que o brilho do relógio pode ser mais perigoso do que a escuridão da pobreza que deixaram para trás.
Bruxelas, capital da União Europeia, símbolo de ordem e progresso, mostrou o seu rosto nu. À luz do dia. Perto de uma discoteca. Enquanto três outras pessoas eram também assaltadas no mesmo dia. A polícia prendeu um suspeito e recuperou alguns objectos. Mas o trauma não se recupera com mandados de captura. O trauma fica. Fica na memória do corpo que ainda treme quando o carro para num semáforo. Fica na pergunta que ecoa: onde está, afinal, a segurança que prometemos aos nossos filhos quando lhes dizemos “vai, sonha grande”?
Mas mesmo assim, é melhor lá mesmo, pois esse só foi um pequeno incidente - gota do que acontece cá, onde se não forem marginais e bandidos, as autoridades ainda podem te fazer pior.
Pois, no Maputo, em Laulane, nas avenidas de Matola ou nas ruas de Palma, conhecemos bem esta coreografia da violência. Sabemos o que é ser cercado, o que é sentir a mão do outro a roubar não só objectos, mas a própria sensação de existência. A diferença é que, quando acontece em África, o mundo olha com indiferença ou com a condescendência de quem já esperava o pior. Quando acontece em Bruxelas a um futebolista africano, o mundo surpreende-se. Como se a violência fosse exclusividade dos nossos bairros e não uma linguagem universal da desigualdade.
O Rolex roubado a Fuseini não é apenas um relógio. É o símbolo de uma conquista. É o suor transformado em ouro. É a prova de que um rapaz de Gana pode vestir a camisola de um clube campeão belga e sorrir com a língua de fora, como naquela fotografia oficial que agora contrasta com as imagens do estrangulamento. Quando esse símbolo é arrancado, arranca-se também uma parte da narrativa que construímos sobre o mérito. O mérito, afinal, não imuniza. O talento não é colete à prova de bala. O sucesso não cancela a cor da pele nem o sotaque do nome.
E no entanto… Fuseini voltou a treinar. No dia seguinte. Como se o relvado fosse o único lugar onde ainda consegue respirar sem medo. Há nisso uma lição silenciosa e poderosa. A resiliência africana não é mito. É prática diária. É a capacidade de levantar-se depois de ser atirado ao chão, de limpar o sangue ou a humilhação e de continuar a correr. Não porque o mundo seja justo, mas porque desistir seria entregar aos assaltantes mais do que o relógio: seria entregar o futuro.
Esta história obriga-nos a interrogar-nos. Quantos dos nossos jovens, espalhados pelas ligas europeias, dormem com um olho aberto? Quantos escondem o relógio no bolso por medo de brilhar demais? Quantas mães, em África, rezam todas as noites para que o filho não seja apenas talentoso, mas também invisível o suficiente para sobreviver?
A Europa não é o paraíso que vendemos nas conversas de esquina. É um continente com as suas próprias sombras, as suas próprias máscaras e as suas próprias ruas onde a dignidade humana ainda pode ser negociada à força. E África não é apenas o lugar de onde se foge. É também o lugar de onde se aprende a resistir.
Mohammed Fuseini sobreviveu. O seu corpo voltou ao treino. Mas a pergunta que ele deixa no ar é maior do que qualquer relógio roubado: até quando os nossos sonhos terão de andar armados de desconfiança para não serem despedaçados à luz do dia?
Que esta história não sirva apenas para gerar cliques ou comoção passageira. Que sirva para despertar. Para nos lembrar que a verdadeira segurança não se compra com Rolex nem se garante com passaporte europeu. Constrói-se com justiça, com humanidade e com a coragem de olhar de frente para as sombras - tanto as de Bruxelas como as de Maputo.
Porque o grito de Fuseini, embora silencioso, atravessou o continente. E ainda ecoa.
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| Imagem ilustrativa do momento de assalto ao Mohammed Fuseini em Bruxelas. |
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