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A LUTA DIÁRIA DA JUVENTUDE

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Madrugada e Fome à Porta das Fábricas A imagem é a mesma em muitos países. Antes mesmo de o sol nascer, à medida que o relógio marca 4h da manhã, dezenas, centenas de jovens aglomeram-se silenciosamente às portas das zonas industriais. Não é um protesto político, nem uma celebração. É uma fila silenciosa e desesperada por uma oportunidade : um trabalho diário, incerto, mas que define se aquele dia terá ou não comida. Este cenário, retratado numa rede social a partir da Costa do Marfim , ecoa uma realidade dolorosamente familiar em muitos contextos, incluindo o nosso. É o retrato de uma juventude que não pede esmola, mas que quer viver do fruto das suas mãos. Acordar antes da aurora para se colocar à disposição de um empregador, na esperança de ser um dos sortudos escolhidos para carregar, descarregar, limpar ou fazer qualquer tarefa que surja. O Sorteio Diário da Sobrevivência A dinâmica é cruel na sua simplicidade: se és escolhido, trabalhas o dia inteiro e recebes o suficiente para ...

SENTINDO UMA PRESIDÊNCIA DE PROMESSAS E UMA REALIDADE DE APERTO

O Aperto Fatal do “Senhor dos Aumentos”, e a Asfixia Fiscal do Povo Moçambicano

Não são pelos atrasos e adiamentos das datas marcadas para o pagamento dos ordenados e outros abunos, como o décimo terceiro, é sim, pelo facto do governo ter construido um Moçambique que se verifica ser um país paradoxal. Riquíssimo em recursos naturais, pobre na vida concreta do seu povo. A cada novo ciclo político, renova-se a promessa de que a abundância do subsolo se transformará em dignidade à superfície. 

Em 2025, porém, o que se assistiu não foi a uma viragem histórica, mas a um sufoco silencioso. Sob a liderança de Daniel Francisco Chapo, o novo Presidente da República, o governo da FRELIMO aprovou um pacote de reformas fiscais que, embora cuidadosamente apresentado como uma mera “actualização do sistema”, representa na prática um aperto brutal sobre quem já vive no limite.

Não se anunciaram impostos novos com nomes inéditos. A narrativa oficial insistiu nisso. Contudo, o que se fez foi algo talvez mais grave: alargar, aprofundar e endurecer impostos existentes, estendendo a sua incidência a sectores, actividades e pessoas que antes estavam parcialmente protegidos. É como se o Estado, incapaz ou indisposto a tocar nos grandes interesses, decidisse espremer ainda mais o mesmo limão — já seco — que é o cidadão comum. Num contexto de inflação persistente, desemprego estrutural, informalidade massiva e serviços públicos frágeis, estas reformas funcionam como aumentos disfarçados que corroem o pouco que resta do poder de compra popular.

Este texto procura mergulhar nessas mudanças, relacionando-as com o quotidiano real dos moçambicanos e projectando uma reflexão inquietante: estará o país a entrar num ciclo vicioso em que a solução para todos os problemas passa sempre por cobrar mais a quem tem menos?

Uma Presidência de Promessas e uma Realidade de Aperto

Daniel Chapo chegou ao poder em Janeiro de 2025 com um discurso centrado na modernização do Estado, justiça fiscal e reforço das receitas internas. O argumento era conhecido: Moçambique não pode depender eternamente de doadores externos e precisa financiar o seu próprio desenvolvimento. A ideia, em abstracto, é razoável. O problema surge quando se observa quem, de facto, é chamado a financiar esse esforço.

O pacote fiscal aprovado no final de 2025, com entrada em vigor em 2026, assume claramente como objectivo o aumento substancial da arrecadação interna. Para isso, optou-se por reformar impostos existentes — IVA, IRPS, IRPC, ISPC e ICE — alargando bases tributárias, reduzindo isenções e intensificando mecanismos de controlo. O Estado prepara-se para trazer centenas de milhares de novos contribuintes para o sistema e intensificar auditorias, sobretudo sobre pequenos operadores económicos.

Tudo isto ocorre num país com mais de 30 milhões de habitantes, onde a maioria vive da economia informal, onde a pobreza rural ultrapassa largamente metade da população e onde choques sucessivos — ciclones, secas, cheias, insurgência armada e endividamento público — já fragilizaram profundamente a resiliência social. A promessa de justiça fiscal contrasta, assim, com uma realidade em que o custo de vida sobe, os salários estagnam e a riqueza gerada por gás, carvão e outros minerais permanece concentrada em círculos restritos.

Imposto a Imposto ou Quando o Ajuste se Transforma em Castigo

Embora se repita que “não há novos impostos”, a verdade é que as alterações introduzidas funcionam como aumentos efectivos, com impactos directos no dia-a-dia do povo.

No caso do IVA, o alargamento da tributação à economia digital representa uma mudança profunda. Transacções electrónicas, serviços prestados por plataformas digitais, comissões de moeda electrónica e operações online passaram a estar mais claramente sujeitas ao imposto. Num país com baixa bancarização, mas forte dependência de serviços móveis de pagamento, isso significa que actividades quotidianas — desde vender pequenos produtos online até transferir dinheiro para a família — ficam mais caras. O pequeno comerciante, a vendedora de mercado ou o jovem que tenta sobreviver com vendas digitais acabam por absorver o impacto ou repassá-lo ao consumidor final, agravando a inflação sentida nos bens básicos.

O IRPS, por sua vez, foi ajustado de modo a abranger mais rendimentos e reduzir zonas cinzentas que antes escapavam à tributação. À primeira vista, isso pode parecer justo. Contudo, num mercado de trabalho onde a maioria ganha salários baixos e vive sem protecção social efectiva, qualquer aumento na retenção representa menos comida na mesa e menos capacidade de enfrentar emergências. Pescadores artesanais, trabalhadores ligados à economia marítima e outros segmentos tradicionalmente informais passam a sentir o peso de um Estado que cobra mais, mas continua a oferecer pouco em troca.

No IRPC, as alterações atingem empresas, incluindo as ligadas ao sector extractivo. Embora a redução de benefícios fiscais a grandes empresas possa ser vista como positiva, o efeito real tende a ser outro: custos adicionais são transferidos para os preços finais. O combustível encarece, o transporte sobe, os serviços ficam mais caros. O taxista, o chapa, o pequeno transportador rural tornam-se vítimas indirectas de uma cadeia de aumentos que começa no topo e termina no bolso do cidadão.

O ISPC talvez seja um dos pontos mais sensíveis. Ao reduzir isenções e apertar o controlo sobre pequenos contribuintes, o Estado avança directamente sobre a sobrevivência de milhares de micro-negócios. Num país onde a informalidade não é escolha, mas necessidade, tributar com mais rigor sem oferecer crédito acessível, formação ou protecção social é empurrar muitos para a falência silenciosa. O desemprego juvenil, já alarmante, ganha assim novos contornos de bomba-relógio social.

Por fim, o ICE continua a incidir sobre consumos específicos que, na prática, afectam bens e serviços essenciais. Combustíveis, transportes, bebidas e outros produtos do comércio informal tornam-se mais caros. Enquanto isso, comunidades rurais ficam mais isoladas, o transporte público encarece e a mobilidade — fundamental para acesso a mercados, escolas e hospitais — torna-se um luxo.

A Maldição dos Recursos e o Futuro em Suspenso

O elemento mais trágico de todo este processo é o contraste gritante entre o aperto fiscal imposto ao povo e a narrativa de abundância baseada nos recursos naturais. Moçambique continua a descobrir gás, minerais e potencial energético, mas essas riquezas não se traduzem em alívio fiscal, serviços públicos robustos ou redistribuição efectiva. Pelo contrário, servem frequentemente para garantir o pagamento de dívidas, sustentar elites económicas e alimentar expectativas futuras que nunca chegam ao presente.

As reformas fiscais aprovadas projectam um Estado mais eficiente na cobrança, mas não necessariamente mais justo na redistribuição. Sem investimentos sociais visíveis, sem melhorias claras na saúde, educação, habitação ou emprego, o cidadão comum sente apenas o lado punitivo do sistema. Daí o rótulo que começa a colar: Daniel Chapo como o “Senhor dos Aumentos”, não por criar impostos novos, mas por tornar a vida quotidiana mais cara em quase todas as frentes.

Se nada mudar, Moçambique corre o risco de aprofundar um ciclo perigoso: riqueza natural que não liberta, impostos que sufocam, pobreza que se normaliza e um desespero social que cresce em silêncio. Um país não se constrói apenas com mais arrecadação, mas com equidade real, escolhas políticas corajosas e um compromisso genuíno com quem carrega o peso do Estado nas costas. Sem isso, o aperto fiscal não será apenas económico — será social, moral e, eventualmente, político.

E, como consequência disso, olhem no que povo está prestes a seguir, caso o aperto se effective nas suas vidas: 👇🏾



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