O ROSTO MAIS CRUEL DO PODER EM ÁFRICA

Quando a Arma se Volta Contra o Próprio Povo que Devia Defender/Proteger, Falhamos por Completo

Há imagens que não precisam de legenda longa para ferir a alma. Uma senhora idosa, curvada pelo peso de sacos e trouxas que carrega na cabeça e nas mãos, caminha com a resignação de quem já viu de tudo. Ao lado, um homem fardado, armado com uma AK-47, aponta-lhe a arma quase como quem aponta um dedo acusador. Não há guerra declarada na imagem. Não há inimigo visível. Apenas uma avó e um uniforme que esqueceu o seu verdadeiro dever.

Esta cena, repetida em tantas esquinas do continente, obriga-nos a uma reflexão incómoda - o que acontece quando aquele quem devia proteger se transforma em ameaça? Quando o Estado, em vez de servir o cidadão, o humilha e o reduz a suspeito permanente?

É o drama silencioso da economia informal, onde mulheres e idosos carregam o sustento das famílias sobre as costas, enfrentando não só o cansaço físico, mas também o olhar armado de quem deveria garantir a ordem. Não se trata de um caso isolado. É sintoma de uma ferida mais profunda: a perda de legitimidade de muitas instituições de segurança. O uniforme que já não inspira respeito, mas medo. A autoridade que se mede pela capacidade de intimidar, e não pela capacidade de servir.

Pensemos nisso com honestidade. Um soldado que aponta uma arma a uma idosa carregadora não está a combater o crime. Está a exercer domínio sobre o mais fraco. Está a reproduzir um ciclo antigo em que o poder se alimenta da humilhação alheia. E a sociedade que tolera isto, ou que olha e passa adiante com um simples “Dammn it”, vai-se acostumando à erosão da própria humanidade.

O continente que tanto sonha com desenvolvimento, integração e prosperidade não pode avançar enquanto as suas filhas e mães mais velhas caminharem sob a mira de quem devia guardar o seu sono. A verdadeira segurança não nasce de armas apontadas para baixo, mas de instituições que devolvem dignidade ao povo. Enquanto o homem armado vir no cidadão comum um alvo fácil, em vez de um irmão a proteger, o progresso continuará a ser apenas uma palavra bonita nos discursos.

Esta imagem não é apenas triste. É um espelho. Reflete a distância entre o que África poderia ser e o que, por vezes, ainda é: um lugar onde o mais vulnerável carrega não só o peso da sobrevivência diária, mas também o peso de um poder que se esqueceu de ser humano.

Que tipo de sociedade estamos a construir quando a avó que carrega o pão de cada dia tem de baixar a cabeça perante uma arma do Estado, que o qual o governo devia usar para protegê-la? A resposta a esta pergunta pode definir o futuro do continente mais do que muitos planos grandiosos.

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