NÃO É MALDIÇÃO DIVINA OU AUSÊNCIA DE DEUS. ENTENDA
O Drama Humano por Trás das Armas em Mulheres no Vale do Omo
Autor: Dr. Elias M. Chivambo, antropólogo e ensaísta natural da Macia, com especialização em dinâmicas socioeconómicas das sociedades pastorais africanas e consultor em políticas de desenvolvimento inclusivo na região da SADC.
Na imagem que circula e que, infelizmente, representa o quotidiano de milhões, uma mulher mursi ou de um povo irmão do Vale do Omo, na Etiópia, equilibra na cabeça um pote ancestral, segura com firmeza um AK-47 e carrega ao colo uma criança de olhar sereno. Ela não fabrica a arma. Provavelmente desconhece a origem do metal que a compõe. Não é uma guerreira por vocação, mas uma mãe que navega num mundo onde a sobrevivência se mede em gado, pastagens escassas e a capacidade de defender o que resta.
Esta cena não é mero exotismo. É um espelho incómodo da condição humana em contextos de extrema adversidade. O que “mal” fizeram estas pessoas para viverem assim? A pergunta, carregada de dor e perplexidade, exige resposta honesta, desprovida de fatalismo religioso ou simplismos ideológicos.
Não há maldição divina. Há interacção complexa de geografia implacável, legados históricos, falhas institucionais e a “maldição dos recursos naturais” - um paradoxo bem documentado pela economia política.
A Geografia como Destino Injusto, mas Não Insuperável
O Vale do Omo, no sudoeste da Etiópia, é um dos últimos redutos de diversidade cultural extrema: dezenas de grupos etnolinguísticos semi-nómadas, pastorais, em ambiente semiárido com chuvas irregulares, solos pobres e doenças tropicais como a leishmaniose visceral. A África Subsaariana concentra a maior proporção de território tropical do mundo, o que historicamente condicionou a produtividade agrícola, aumentou a carga de doenças (malária, parasitas) e limitou o comércio interno devido à escassez de rios navegáveis e à baixa densidade populacional antiga.
Jeffrey Sachs e colaboradores destacaram, desde os anos 90, como estes factores geográficos explicam parte significativa do atraso relativo: baixa produtividade alimentar, elevada mortalidade infantil e ratios de dependência juvenil elevados. No entanto, a geografia não é destino. Botsuana, apesar de árida, transformou diamantes em desenvolvimento sustentado graças a instituições sólidas. Ruanda, pós-genocídio, registou crescimentos robustos investindo em educação, saúde e governação.
A lição é clara: o ambiente desafia, mas as escolhas humanas decidem. Logo, a qualidade das lideranças e perspectivas de qualquer um desses povos, conta muito na imagem que podemos ter deles. A fotografia é agressiva, sim, mas terá este povo a consciência do que se passa e quais seriam outras alternativas?
A Maldição dos Recursos: Riqueza que Empobrece
África detém cerca de 30% das reservas minerais mundiais, vastas reservas de petróleo, coltan, ouro e terras raras. Yet, mesmo assim, países ricos em recursos frequentemente exibem pior desempenho que os pobres. Esta é a “resource curse”: rendas fáceis geram corrupção, rent-seeking, conflito e “doença holandesa” (valorização cambial que prejudica outros sectores). A Ciência, faz falta na sua essência e não como uma mera burocracia ostentação academia ou fruto das consequências da ausência da civilização colonial.
No Corno de África e arredores, o gado funciona como recurso primordial, gerando disputas armadas. Os Mursi substituíram progressivamente os bastões tradicionais donga por AK-47 provenientes de conflitos no Sudão do Sul e Etiópia - armas que simbolizam riqueza no dote (por vezes 38 cabeças de gado + uma Kalashnikov). Barragens como Gibe III e expansões agrícolas deslocam comunidades, intensificando a competição por terra e água.
Exemplos continentais abundam: Nigéria (petróleo e instabilidade no Delta), República Democrática do Congo (minerais e guerras crónicas), Angola (petróleo e desigualdades persistentes). A fuga de capitais e a corrupção transformam potencial em miséria. Em contraponto, Botsuana e, em certa medida, Gana mostram que transparência, rule of law e diversificação podem converter recursos em bem comum.
Legados Históricos e o Peso das Instituições
O tráfico transatlântico de escravos, o colonialismo com fronteiras arbitrárias e economias extrativas, seguidos de independências marcadas por socialismos autoritários, golpes e guerras por procuração na Guerra Fria, deixaram marcas profundas. Mas sessenta anos depois, o factor decisivo são as instituições: inclusivas (que protegem direitos e incentivam inovação) versus extractivas (que concentram poder e riqueza).
Alta diversidade étnica, quando aliada a instituições fracas, fomenta clientelismo e conflito. No Vale do Omo, os Mursi enfrentam marginalização estatal: parques nacionais, plantações e mudanças climáticas ameaçam o seu modo de vida ancestral - placas labiais, escarificações, cosmologia própria, sem lhes oferecer alternativas dignas.
Para Além da Compaixão: Uma Reflexão Humanizada
Estas mães e pais não “incomodam ninguém”. Vivem a dignidade possível num mundo que lhes chegou armado e desigual. Atribuir o sofrimento a uma “deidade rancorosa” é fugir à responsabilidade colectiva humana. As tradições religiosas africanas e as grandes fés mundiais enfatizam a misericórdia, a justiça e o livre-arbítrio.
O verdadeiro teste ético é criar condições para que cada criança, independentemente de nascer em Chimoio, no Omo ou em Maputo, possa florescer.
O continente mais jovem do mundo tem potencial demográfico extraordinário. Países como o Ruanda (recuperação pós-1994), a Etiópia (crescimento pré-conflitos recentes) e o Quénia demonstram trajectórias de esperança quando priorizam educação, saúde, paz e diversificação económica.
Sugestões: o Caminho da Esperança: Instituições, Inclusão e Resiliência
Não há soluções mágicas. Exigem-se:
- Governação transparente e combate à corrupção;
- Investimento maciço em capital humano (educação de qualidade, saúde);
- Diversificação económica para além de commodities;
- Resolução pacífica de conflitos e inclusão de minorias como os povos do Omo (turismo cultural sustentável, protecção territorial);
- Parcerias internacionais responsáveis, comércio justo e não apenas ajuda.
A imagem da mulher mursi interpela-nos. Não para lamentar uma suposta maldição, mas para reconhecer a resiliência humana e exigir acção. Em Moçambique, como noutros cantos, enfrentamos desafios semelhantes. A lição é universal: o desenvolvimento não é dom divino nem geográfico inevitável. É conquista colectiva, enraizada em instituições justas e na dignidade inegociável de cada mãe que carrega o futuro ao colo.
Que o olhar daquela criança nos obrigue a construir um continente, e um mundo, onde o pote na cabeça carregue água para regar sonhos, e não sobrevivência armada.
Dr. Elias M. Chivambo, escreve desde Gaza-Macia, sobre as encruzilhadas entre tradição, modernidade e justiça social em África. As opiniões expressas são do autor.

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