UM ARTIGO SOBRE O PRECONCEITO QUE DISFARÇAMOS DE INDIFERENÇA

Quando Conhecer o Autor é a Morte do Projecto

Existe um comportamento silencioso, quase inocente na aparência, que tem afundado projectos promissores antes mesmo de chegarem a voar. Não tem nome consensual, mas quem já o viveu na pele reconhece-o com clareza: é aquele momento em que alguém descobre quem está por detrás de um conteúdo, de uma iniciativa, de um produto e, a partir desse instante, deixa de o ver com os mesmos olhos.

O cenário é banal. Alguém pega emprestado o telemóvel de outro para fazer uma chamada, tirar uma foto ou usar a calculadora. O ecrã acende, e na barra de notificações aparece um aviso de um grupo de WhatsApp ou de uma página nas redes sociais - um conteúdo novo, algo que desperta atenção. A pessoa olha, interessa-se, e com toda a naturalidade pergunta ao dono do aparelho: "O que é isso? Como chegaste a conhecer?" A conversa evolui e, de repente, chega a revelação: "Ah, quem faz isso é meu primo. É o marido de uma colega. É aquele fulano."

E é exactamente aí que o problema começa.

Porque há uma tendência profundamente enraizada - e particularmente aguda no contexto africano - de desvalorizar aquilo que vem de um rosto familiar. O conteúdo que antes parecia brilhante, profundo e digno de partilha, perde subitamente o seu brilho quando lhe é atribuído um nome que pertence ao círculo de conhecidos. O mesmo texto que seria recomendado a todos se viesse de um desconhecido torna-se, de repente, "a maluquice do fulano", "uma coisa que ele está a tentar", algo que não merece a mesma credibilidade.

O verbalyzador.blogspot.com é um exemplo vivo desta contradição. Muitos lêem, partilham e recomendam os seus conteúdos precisamente porque não sabem quem os escreve. A qualidade fala por si, e o anonimato protege a mensagem. Mas há os que, ao descobrirem a autoria, recuam. Não porque o conteúdo tenha mudado - ele é o mesmo. Mas porque o preconceito em relação ao conhecido sobrepõe-se ao valor daquilo que ele produz.

Este comportamento tem um custo real. Não é apenas ingratidão ou indiferença passiva. Às vezes é pior: é o conhecido que encontra um estranho e, num acto de aparente conversa, deprecia discretamente o projecto - "Conheço quem faz isso, não é nada de especial" - sem intenção declarada de prejudicar, mas com esse efeito concreto. Uma frase dita de passagem pode fechar portas que o autor nunca saberá que existiram.

E depois há o silêncio. O silêncio de quem vê os conteúdos, assiste aos vídeos, lê os artigos - e não partilha. Não porque não goste. Mas porque partilhar seria reconhecer publicamente o valor de alguém que conhece, e isso, por razões que a nossa cultura ainda não soube superar, parece difícil demais. O mais perturbador é que esse mesmo silêncio coexiste com outra realidade: quando o projecto finalmente cresce, quando ultrapassa fronteiras e ganha visibilidade que os próximos não ajudaram a construir, aparecem os primeiros a proclamar a proximidade com o autor - como se essa proximidade lhes conferisse agora um mérito emprestado.

O círculo imediato, aquele que devia ser o primeiro trampolim, acaba por ser a primeira barreira. Não por maldade, muitas vezes. Mas por uma pobreza mental que confunde familiaridade com mediocridade, e que trata a ambição do outro como uma ameaça ao conforto do grupo.

A mensagem para quem não pode ou não quer apoiar é simples: se não há capacidade de contribuir - partilhando, interagindo, recomendando, que pelo menos se deixe o projecto correr sem interferência. Ver e calar é já uma forma de respeito. Porque há declarações que não pretendem destruir, mas destroem. E há silêncios que, quando acompanhados de dignidade, constroem mais do que muitas palavras de apoio.

O que esgota não é apenas o esforço de criar. É descobrir que, às vezes, o maior obstáculo não está no mercado, na concorrência, nem na falta de recursos. Está em casa. Está no círculo. Está naquele que, ao devolver o telemóvel emprestado, disse mais do que devia - e menos do que podia ter feito pelo projecto.



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